Conto, Folha Rota, 1878

Folha rota

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 10/1878.

Tinham dado ave-marias; a Sra. D.
Ana Custdia saiu para ir levar umas costuras  loja que era na Rua do
Hospcio. Pegou das costuras, entrouxou-as, ps um xale s costas, um rosrio
ao pescoo, deu cinco ou seis ordens  sobrinha e caminhou para a porta.

 Venha quem vier, no abras,
disse ela com a mo no ferrolho; j sabes o costume.

 Sim, titia.

 No me demoro nada.

 Venha cedo.

 Venho, que a chuva pode cair. O
cu est preto.

 Oh! titia, se roncar trovoada!

 Reza; mas eu volto j.

D. Ana persignou-se e saiu.

A sobrinha fechou a rtula,
acendeu uma vela e foi sentar-se a uma mesa de costura.

Lusa Marques tinha dezoito anos.
No era um prodgio de beleza, mas no era feia; pelo contrrio, as feies
eram regulares, as maneiras gentis. O olhar meigo e cndido. Mediana de
estatura, delgada, naturalmente elegante, tinha propores para vestir bem e
primar pelos adornos. Infelizmente, no tinha adornos nem os vestidos eram bem
cortados. Pobres, j se v que deviam ser. Que outras coisas seriam os vestidos
de uma filha de operrio, rf de pai e me, condenada a coser para ajudar a
sustentar a casa da tia! Era um vestido de chita grossa, cortado por ela mesma,
sem arte nem inspirao.

Penteada com certo desleixo,
parece que isso mesmo lhe dobrava a graa da fronte. Encostada  mesa velha de
trabalho, com a cabea inclinada sobre a costura, os dedos a correrem pela
fazenda, com a agulha fina e gil no excitava a admirao, mas despertava a
simpatia.

Logo depois de sentar-se, Lusa
ergueu-se duas vezes e foi at  porta. De quando em quando levantava a cabea
como a prestar ouvido. Continuava a coser. Se a tia chegasse ach-la-ia a
trabalhar com uma tranqilidade verdadeiramente digna de imitao. E
beij-la-ia como costumava e lhe diria alguma coisa graciosa, que a menina
ouviria com agradecimento.

Lusa adorava a tia, que lhe
servia de me e pai, que a educara desde os sete anos. Por outro lado, D. Ana
Custdia tinha-lhe afeto verdadeiramente maternal; uma e outra no possuam
outra famlia. Havia certamente dois parentes mais, um correeiro, cunhado de D.
Ana, e um filho deste. Mas no se freqentavam; havia at motivos para isso.

Vinte minutos depois de sair D.
Ana, sentiu Lusa um rumor na rtula, como que um som leve de bengala que por
ali roasse. Estremeceu, mas no se assustou. Levantou-se devagarinho, como se
a tia pudesse ouvi-la e foi at  rtula.

 Quem ? disse em voz baixa.

 Eu. Est c?

 No.

Lusa abriu um poucachinho a
janela, uma curta fresta. Estendeu a mo por ela, e apertou-lha um rapaz que
estava do lado de fora.

O rapaz era alto, e se no fosse
noite fechada podia ver-se que tinha uns bonitos olhos, sobretudo um porte
airoso. Eram graas naturais; artificiais no possua nenhuma; vestia
modestamente, sem pretenso.

 Saiu h muito tempo? perguntou
ele.

 H pouco.

 Volta j?

 Disse que sim. No podemos hoje
falar muito tempo.

 Nem hoje, nem quase nunca.

 Que quer voc, Caetaninho?
perguntou a moa tristemente. Eu no posso abusar; titia no gosta de me ver 
janela.

 H trs dias que te no vejo,
Lusa! suspirou ele.

 Eu, h um dia s.

 Viste-me ontem?

 Vi: quando voc passou de tarde
s cinco horas.

 Passei duas vezes; de tarde e de
noite: sempre fechado.

 Titia estava em casa.

As duas mos tornaram a
encontrar-se e ficaram presas uma  outra. Correram assim alguns minutos, trs
ou quatro.

Caetaninho tornou a falar, a
queixar-se, a gemer, a maldizer da sorte, enquanto Lusa o consolava e
confortava. Na opinio do rapaz, no havia ningum mais infeliz do que ele.

 Queres saber uma coisa?
perguntou o namorado.

 Que ?

 Penso que papai desconfia...

 E ento?...

 Desconfia e no aprova.

Lusa empalideceu.

 Oh! mas no faz mal! Eu s
espero poder arranjar a minha vida; depois se queira ou no queira...

 Isso, no, se titio no aprova
parece feio.

 Desprezar-te?

 Voc no me despreza, emendou
Lusa; mas desobedecer a seu pai.

 Obedecer em tal caso, era feio
da minha parte. No, no obedecerei nunca!

 No digas isso!

 Deixa-me arranjar a vida, vers:
vers.

Lusa estava silenciosa alguns
minutos, mordendo a ponta do leno que tinha ao pescoo.

 Mas por que motivo  que voc
pensa que ele desconfia?

 Penso... suponho. Ontem
soltou-me uma indireta, lanou-me um olhar de ameaa e fez um gesto... No tem
dvida, d-lhe para no aprovar a escolha de meu corao, como se eu precisasse
consult-lo...

 No fale assim, Caetaninho!

 Tambm no sei por que motivo
ele no se d com titia! Se se dessem, tudo caminhava bem; mas  a minha
desgraa,  a minha desgraa!

Caetano, filho do correeiro,
lastimou-se ainda durante uns dez minutos; e sendo j longo o tempo da
conversa, Lusa pediu-lhe e alcanou que ele se retirasse. No o fez o moo sem
um novo aperto de mo e um pedido que Lusa recusou.

O pedido era um... sculo, digamos
sculo, que  menos cru, ou mais potico. O rapaz pedia-o invariavelmente, e
ela invariavelmente o negava.

 Lusa, disse ele, no fim da
recusa, espero que muito breve estaremos casados.

 Sim; mas no faa zangar seu
pai.

 No: farei tudo de harmonia com
ele. Se recusar...

 Peo a Nossa Senhora que no.

 Mas, diga voc; se ele recusar,
que devo eu fazer?

 Esperar.

 Pois sim! Isso  bom de dizer.

 V; adeus; titia pode vir.

 At breve, Lusa!

 Adeus!

 Passarei amanh; se voc no
puder estar  janela, ao menos espie por dentro, sim?

 Sim.

Novo aperto de mo; dois suspiros;
ele seguiu; ela fechou de todo o postigo.

Fechado o postigo, Lusa foi
sentar-se outra vez  mesa de costura. No ia alegre, como era de supor em uma
moa que acabava de falar ao namorado; ia triste. Mergulhou toda no trabalho,
ao que parece para esquecer alguma coisa ou aturdir o esprito. Mas no durou
muito o remdio. Da a pouco tinha levantado a cabea e olhava fitamente o ar.
Devaneava naturalmente; mas no eram devaneios azuis, seno negros, bem negros,
mais negros que seus grandes olhos tristes.

O que ela dizia consigo era que
tinha duas afeies na vida, uma franca, a da tia, outra encoberta, a do primo;
e no sabia se to cedo poderia mostr-las juntas ao mundo. A notcia de que o
tio desconfiasse alguma coisa e desaprovava talvez o amor de Caetano
desconsolava-a e fazia-a tremer. Talvez fosse verdade; era possvel que o
correeiro destinasse o filho a outra. Em todo o caso as duas famlias no se
davam  no sabia Lusa por que motivo , e este fato podia contribuir para
tornar difcil a realizao de seu nico e modesto sonho. Essas idias, ora
vagas, ora medonhas, mas sempre tingidas da cor da melancolia, abalavam seu
esprito durante alguns minutos.

Depois veio a reao; a mocidade
readquiriu seus direitos; a esperana trouxe a sua cor viva aos sonhos de
Lusa. Ela olhou para o futuro e confiou nele. Que era um obstculo momentneo?
Nada, se dois coraes se amam. E haveria esse obstculo? Dado que houvesse,
ele seria o ramo de oliveira. No dia em que o tio soubesse que o filho a amava
deveras e era correspondido, no tinha mais do que aprovar. Talvez mesmo a
fosse pedir  tia D. Ana, que a estremecia, e receb-lo-ia com lgrimas. O
casamento seria o vnculo de todos os coraes.

Nesses sonhos passaram ainda uns
dez minutos. Lusa reparou que a costura estava atrasada e voltou de novo a
ateno para ela.

D. Ana voltou; Lusa foi abrir-lhe
a porta, sem hesitao porque a tia convencionara um modo de bater, a fim de
evitar surpresas de gente m.

Vinha um pouco amuada a velha; mas
passou logo depois do beijo  sobrinha. Trazia o dinheiro da costura que fora
levar  loja. Tirou o xale, descansou um pouco; foi ela prpria cuidar da ceia.
Lusa ficou cosendo algum tempo. Ergueu-se depois; preparou a mesa.

Tomaram um pouco de mate as duas,
sozinhas e silenciosas. Era raro o silncio, porque D. Ana, sem ser palradora,
estava longe de ser taciturna. Tinha a palavra alegre. Lusa reparou naquela
mudana e receou que a tia houvesse visto o vulto do primo de longe, e, no
sabendo quem fosse, naturalmente ficara molestada. Seria isso? Lusa fez esta
pergunta a si mesma e sentiu corar de vergonha. Criou algumas foras, e
interrogou diretamente a tia.

 Que tem, que est to triste?
perguntou a moa.

D. Ana limitou-se a levantar os
ombros.

 Est zangada comigo? murmurou
Lusa.

 Contigo, meu anjo? disse D. Ana
apertando-lhe a mo; no, no  contigo.

  com outra pessoa, concluiu a
sobrinha. Posso saber quem ?

 Ningum, ningum. Fujo sempre de
passar pela porta do Cosme e passo por outra rua; mas por desgraa, escapei ao
pai e no escapei ao filho...

Lusa empalideceu.

 Ele no me viu, continuou D.
Ana; mas eu bem o conheci. Felizmente era noite.

Seguiu-se um longo silncio,
durante o qual a moa repetia as palavras da tia. Por desgraa! dissera D. Ana.
Que havia pois entre ela e os dois parentes? Tinha vontade de a interrogar, mas
no se atrevia; a velha no continuou; uma e outra refletiam caladamente.

Foi Lusa quem rompeu o silncio:

 Mas por que foi desgraa
encontrar o primo?

 Por qu?

Lusa confirmou a pergunta com um
gesto de cabea.

 Contos largos, disse D. Ana,
contos largos. Um dia te contarei tudo.

Lusa no insistiu; ficou
acabrunhada. O resto da noite foi sombrio para ela; fingiu ter sono e
recolheu-se mais cedo do que costumava. No tinha sono; velou ainda duas longas
horas a trabalhar com o esprito, a beber uma ou outra lgrima indiscreta ou
impaciente de lhe retalhar a face juvenil. Dormiu finalmente; e como de costume
acordou cedo. Tinha um plano feito e a resoluo de o executar at o fim. O
plano era interrogar a tia outra vez, mas ento disposta a saber a verdade,
qualquer que ela fosse. Foi depois do almoo, que se lhe ofereceu a melhor
ocasio, quando as duas se sentaram a trabalhar. D. Ana recusou a princpio;
mas a insistncia de Lusa foi tal, e ela amava-a tanto, que no lhe recusou
dizer o que havia.

 Tu no conheces teu tio, disse a
boa velha; nunca viveste com ele. Eu conheo-o muito. Minha irm, que ele tirou
de casa para perd-la, viveu com ele dez anos de martrio. Se eu te contasse o
que ela sofreu no havias de acreditar. Basta dizer que, se no fosse o
abandono em que o marido a deixou, o pouco caso que fez da molstia, talvez ela
no tivesse morrido. E da pode ser que sim. Creio que ela estimou no tomar
remdios, para acabar mais depressa. O maldito no deitou uma lgrima; jantou
no dia da morte como costumava jantar nos mais dias. O enterro saiu e ele
continuou a vida de antes. Coitada! Quando me lembro...

Neste ponto, D. Ana interrompeu-se
para enxugar as lgrimas, e Lusa no pde tambm reter as suas.

 Ningum sabe para o que veio ao
mundo! exclamou sentenciosamente D. Ana. Aquela era a mais querida de meu pai;
foi a mais infeliz. Destinos! destinos! O que te contei  j bastante para
explicar a inimizade que nos separa. Acrescenta-lhe o gnio mau que ele tem, os
modos grosseiros, e a lngua... oh! a lngua! Foi a lngua dele que me feriu...

 Como?

 Lusa, tu s inocente, nada
sabes deste mundo; mas  bom que aprendas alguma coisa. Aquele homem, depois de
fazer morrer minha irm lembrou-se de gostar de mim, e teve o atrevimento de
vir declar-lo na minha casa. Eu ento era outra mulher que no sou hoje; tinha
cabelinho na venta. No lhe respondi palavra; levantei a mo e castiguei-o no
rosto. Vinguei-me e perdi-me. Ele recebeu o castigo calado; mas tratou de vingar-se
tambm. No te contarei o que disse e trabalhou contra mim;  longo e triste;
basta saber que cinco meses depois, meu marido me ps pela porta fora. Estava
difamada; perdida; sem futuro nem reputao. Foi ele a causa de tudo. Meu
marido era homem de boa-f. Queria-me muito e morreu pouco depois de paixo.

Calou-se D. Ana, calou-se sem
lgrimas nem gestos, mas com um rosto to plido de dor, que Lusa atirou-se a
ela e abraou-a. Foi esse gesto da moa que fez romper as lgrimas da velha.
Chorou-as D. Ana longas e amargas; ajudou a chor-las a sobrinha, que de
envolta com ela lhe disse muita palavra consoladora. D. Ana recobrou a fala.

 No terei razo em odi-lo?
perguntou ela.

O silncio de Lusa foi a melhor
resposta.

 Quanto ao filho nada me fez,
continuou a velha; mas, se  filho de minha irm tambm  filho dele.  o mesmo
sangue, que eu odeio.

Lusa estremeceu.

 Titia! disse a moa.

 Odeio, sim! Ah! que a maior dor
da minha vida seria... No, no h de ser assim. Lusa, eu, se te visse casada
com o filho daquele homem, morria decerto, porque perderia a nica afeio, que
me resta no mundo. Tu no pensas nisso; mas juras-me que em nenhum caso fars
semelhante coisa?

Lusa empalideceu; hesitou um
instante; mas jurou. Esse juramento foi o golpe ltimo e mortal de suas
esperanas. Nem o pai dele nem a me dela (D. Ana era quase me) consentiriam
em faz-la feliz. Lusa no se atreveu a defender o primo, a explicar que ele
no tinha culpa nos atos e vilanias do pai. Que adiantaria isso, depois do que
ouvira? O dio estendia-se do pai ao filho; havia um abismo entre as duas
famlias.

Naquele dia e no outro e no
terceiro, chorou Lusa, nas poucas horas em que podia estar s, as lgrimas
todas do desespero. No quarto dia j no tinha mais que chorar. Consolou-se
como se consolam os desgraados. Viu ir-se o nico sonho da vida, a melhor
esperana do futuro. S ento compreendeu a intensidade do amor que a prendia
ao primo. Era o seu primeiro amor; estava destinado a ser o ltimo.

Caetano passou ali muitas vezes;
deixou de v-la duas semanas inteiras. Sup-la doente e indagou da vizinhana.
Quis escrever-lhe, mas no havia meio de entregar uma carta. Espreitava as
horas em que a tia saa de casa e ia bater  porta. Trabalho intil! A porta
no se abria. Uma vez viu-a de longe  janela, apertou o passo; Lusa olhava
para o lado oposto; no o viu vir. Chegando ao p da porta, parou ele e disse:

 Enfim!

Lusa estremeceu, voltou-se e
dando com o primo fechou o postigo com tanta pressa que um pedao de manga do
vestido ficou preso. Cego de dor, Caetaninho tentou empurrar o postigo, mas a
moa havia-o fechado com o ferrolho. A manga do vestido foi puxada
violentamente e rasgada. Caetano afastou-se com o inferno no corao; Lusa foi
dali atirar-se ao leito lavada em lgrimas.

As semanas, os meses, os anos
passaram. Caetaninho no foi esquecido; mas nunca mais se encontraram os olhos
dos dois namorados. Oito anos depois morreu D. Ana. A sobrinha aceitou a
proteo de uma vizinha e foi para casa dela, onde trabalhava dia e noite. No
fim de catorze meses adoeceu de tubrculos pulmonares; arrastou uma vida
aparente de dois anos. Tinha quase trinta quando morreu; enterrou-se por
esmolas.

Caetaninho viveu; aos trinta e
cinco anos era casado, pai de um filho, negociante de fazendas, jogava o
voltarete e engordava. Morreu juiz de uma irmandade e comendador.
