Conto, Terpscore, 1886

Terpscore

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Gazeta
de Notcias, de 25/3/1886.

Glria, abrindo os olhos, deu com
o marido sentado na cama, olhando para a parede, e disse-lhe que se deitasse,
que dormisse, ou teria de ir para a oficina com sono.

 Que dormir o qu, Glria? J
deram seis horas.

 Jesus! H muito tempo?

 Deram agora mesmo.

Glria arredou de cima de si a colcha
de retalhos, procurou com os ps as chinelas, calou-as, e levantou-se da cama;
depois, vendo que o marido ali ficava na mesma posio, com a cabea entre os
joelhos, chegou-se a ele, puxou-o por um brao, dizendo-lhe carinhosamente que
no se amofinasse, que Deus arranjaria as coisas.

 Tudo h de acabar bem, Porfrio.
Voc mesmo acredita que o senhorio bote os nossos trastes no Depsito? No
acredite; eu no acredito. Diz aquilo para ver se a gente arranja o dinheiro.

 Sim, mas  que eu no arranjo,
nem sei onde hei de buscar seis meses de aluguel. Seis meses, Glria; quem 
que me h de emprestar tanto dinheiro? Seu padrinho j disse que no d mais
nada.

 Vou falar com ele.

 Qual,   toa.

 Vou, peo-lhe muito. Vou com
mame; ela e eu pedindo...



Porfrio abanou a cabea.

 No, no, disse ele. Voc sabe o
que  melhor? O melhor  arranjar casa por estes dias, at sbado; mudamo-nos,
e depois ento veremos se se pode pagar. Seu padrinho o que podia era dar uma
carta de fiana... Diabo! tanta despesa! Conta em toda a parte!  a venda!  a
padaria!  o diabo que os carregue. No posso mais. Gasto todo o santo dia
manejando a ferramenta, e o dinheiro nunca chega. No posso, Glria, no posso
mais...

Porfrio deu um salto da cama, e foi
preparar-se para sair, enquanto a mulher, lavada a cara s pressas, e
despenteada, cuidou de fazer-lhe o almoo. O almoo era sumrio: caf e po.
Porfrio engoliu-o em poucos minutos, na ponta da mesa de pinho, com a mulher
defronte, risonha de esperana para anim-lo. Glria tinha as feies
irregulares e comuns; mas o riso dava-lhe alguma graa. Nem foi pela cara que
ele se enamorou dela; foi pelo corpo, quando a viu polcar, uma noite, na Rua da
Imperatriz. Ia passando, e parou defronte da janela aberta de uma casa onde se
danava. J achou na calada muitos curiosos. A sala, que era pequena, estava
cheia de pares, mas pouco a pouco foram-se todos cansando ou cedendo o passo 
Glria.

 Bravos  rainha! exclamou um
entusiasta.

Da rua, Porfrio cravou nela uns
olhos de stiro, acompanhou-a em seus movimentos lpidos, graciosos, sensuais,
mistura de cisne e de cabrita. Toda a gente dava lugar, apertava-se nos cantos,
no vo das janelas, para que ela tivesse o espao necessrio  expanso das
saias, ao tremor cadenciado dos quadris,  troca rpida dos giros, para a
direita e para a esquerda. Porfrio misturava j  admirao o cime; tinha
mpetos de entrar e quebrar a cara ao sujeito que danava com ela, rapago alto
e espadado, que se curvava todo, cingindo-a pelo meio.

No dia seguinte acordou resoluto a
namor-la e despos-la. Cumpriu a resoluo em pouco tempo, parece que um
semestre. Antes, porm, de casar, logo depois de comear o namoro, Porfrio
tratou de preencher uma lacuna da sua educao; tirou dez mil-ris mensais 
fria do ofcio, entrou para um curso de dana, onde aprendeu a valsa, a
mazurca, a polca e a quadrilha francesa. Dia sim, dia no, gastava ali duas
horas por noite, ao som de um oficlide e de uma flauta, em companhia de alguns
rapazes e de meia dzia de costureiras magras e cansadas. Em pouco tempo estava
mestre. A primeira vez que danou com a noiva foi uma revelao: os mais hbeis
confessavam que ele no danava mal, mas diziam isso com um riso amarelo, e uns
olhos muito compridos. Glria derretia-se de contentamento.

Feito isso, tratou ele de ver
casa, e achou esta em que mora, no grande, antes pequena, mas adornada na
frontaria por uns arabescos que lhe levaram os olhos. No gostou do preo,
regateou algum tempo, cedendo ora dois mil-ris, ora um, ora trs, at que,
vendo que o dono no cedia nada, cedeu ele tudo.

Tratou das bodas. A futura sogra
props-lhe que fossem a p para a igreja, que ficava perto; ele rejeitou a proposta
com seriedade, mas em particular com a noiva e os amigos riu da extravagncia
da velha: uma coisa que nunca se viu, noivos, padrinhos, convidados, tudo a p,
 laia de procisso; era caso de levar assobio. Glria explicou-lhe que a
inteno da me era poupar despesas. Que poupar despesas? Mas se num dia grande
como esse no se gastava alguma coisa, quando  que se havia de gastar? Nada;
era moo, era forte, trabalho no lhe metia medo. Contasse ela com um bonito coup,
cavalos brancos, cocheiros de farda at abaixo e galo no chapu.

E assim se cumpriu tudo; foram
bodas de estrondo, muitos carros, baile at de manh. Nenhum convidado queria
acabar de sair; todos forcejavam por fixar esse raio de ouro, como um hiato
esplndido na velha noite do trabalho sem trguas. Mas acabou; o que no acabou
foi a lembrana da festa, que perdurou na memria de todos, e servia de termo
de comparao para as outras festas do bairro, ou de pessoas conhecidas. Quem
emprestou dinheiro para tudo isso foi o padrinho do casamento, dvida que nunca
lhe pediu depois, e lhe perdoou  hora da morte.

Naturalmente, apagadas as velas e
dormidos os olhos, a realidade empolgou o pobre marceneiro, que a esquecera por
algumas horas. A lua-de-mel foi como a de um simples duque; todas se parecem,
em substncia;  a lei e o prestgio do amor. A diferena  que Porfrio voltou
logo para a tarefa de todos os dias. Trabalhava sete e oito horas numa loja. As
alegrias da primeira fase trouxeram despesas excedentes, a casa era cara, a vida
foi-se tornando spera, e as dvidas foram vindo, sorrateiras e miudinhas,
agora dois mil-ris, logo cinco, amanh sete e nove. A maior de todas era a da
casa, e era tambm a mais urgente, pois o senhorio marcara-lhe o prazo de oito
dias para o pagamento, ou metia-lhe os trastes no Depsito.

Tal  a manteiga com que ele vai
untando agora o po do almoo.  a nica, e tem j o rano da misria que se
aproxima. Comeu s pressas, e saiu, quase sem responder aos beijos da mulher.
Vai tonto, sem saber que faa; as idias batem-lhe na cabea  maneira de
pssaros espantados dentro de uma gaiola. Vida dos diabos! tudo caro! tudo pela
hora da morte! E os ganhos eram sempre os mesmos. No sabia onde iria parar, se
as coisas no tomassem outro p; assim  que no podia continuar. E soma as
dvidas: tanto aqui, tanto ali, tanto acol, mas perde-se na conta ou deixa-se
perder de propsito, para no encarar todo o mal. De caminho, vai olhando para
as casas grandes, sem dio  ainda no tem dio s riquezas  mas com saudade,
uma saudade de coisas que no conhece, de uma vida lustrosa e fcil, toda
alagada de gozos infinitos...

s aves-marias, voltando a casa,
achou Glria abatida. O padrinho respondeu-lhe que eles tinham as mos rotas, e
no dava mais nada enquanto fossem um par de malucos.

 Mas o que dizia eu a voc,
Glria? Para que  que voc foi l? Ou ento era melhor ter pedido uma carta de
fiana para outro senhorio... Par de malucos! Maluco  ele!

Glria aquietou-o, e falou-lhe de
pacincia e resoluo. Agora, o melhor era mesmo ver outra casa mais barata,
pedir uma espera, e depois arranjar meios e modos de pagar tudo. E pacincia,
muita pacincia. Ela pela sua parte contava com a madrinha do cu. Porfrio foi
ouvindo, estava j tranqilo; nem ele pedia outra coisa mais que esperanas. A
esperana  a aplice do pobre; ele ficou abastado por alguns dias.

No sbado, voltando para a casa
com a fria no bolso, foi tentado por um vendedor de bilhetes de loteria, que
lhe ofereceu dois dcimos das Alagoas, os ltimos. Porfrio sentiu uma coisa no
corao, um palpite, vacilou, andou, recuou e acabou comprando. Calculou que,
no pior caso, perdia dois mil e quatrocentos; mas podia ganhar, e muito, podia
tirar um bom prmio e arrancava o p do lodo, pagava tudo, e talvez ainda
sobrasse dinheiro. Quando no sobrasse, era bom negcio. Onde diabo iria ele
buscar dinheiro para saldar tanta coisa? Ao passo que um prmio, assim
inesperado, vinha do cu. Os nmeros eram bonitos. Ele, que no tinha cabea
aritmtica, j os levava de cor. Eram bonitos, bem combinados, principalmente
um deles, por causa de um 5 repetido e de um 9 no meio. No era certo, mas
podia ser que tirasse alguma coisa.

Chegando a casa  na Rua de S.
Diogo  ia mostrar os bilhetes  mulher, mas recuou; preferiu esperar. A roda
andava dali a dois dias. Glria perguntou-lhe se achara casa; e, no domingo,
disse-lhe que fosse ver alguma. Porfrio saiu, no achou nada, e voltou sem
desespero. De tarde, perguntou rindo  mulher o que  que ela lhe daria se ele lhe
trouxesse naquela semana um vestido de seda. Glria levantou os ombros. Seda
no era para eles. E por que  que no havia de ser? Em que  que as outras
moas eram melhores que ela? No fosse ele pobre, e ela andaria de carro...

 Mas  justamente isso, Porfrio;
ns no podemos.

Sim, mas Deus s vezes tambm se
lembra da gente; enfim, no podia dizer mais nada. Ficasse ela certa de que to
depressa as coisas... Mas no; depois falaria. Calava-se por superstio; no
queria assustar a fortuna. E mirando a mulher, com olhos derretidos, despia-lhe
o vestido de chita, surrado e desbotado, e substitua-o por outro de seda azul,
 havia de ser azul,  com fofos ou rendas, mas coisa que mostrasse bem a
beleza do corpo da mulher... E esquecendo-se, em voz alta:

 Corpo como no h de haver
muitos no mundo.

 Corpo qu, Porfrio? Voc parece
doido, disse Glria, espantada.

No, no era doido, estava
pensando naquele corpo que Deus lhe deu a ela... Glria torcia-se na cadeira,
rindo, tinha muitas ccegas; ele retirou as mos, e lembrou-lhe o acaso que o
levou uma noite a passar pela Rua da Imperatriz, onde a viu danando, toda
dengosa. E, falando, pegou dela pela cintura e comeou a danar com ela,
cantarolando uma polca; Glria, arrastada por ele, entrou tambm a danar a
srio, na sala estreita, sem orquestra nem espectadores. Contas, aluguis
atrasados, nada veio ali danar com eles.

Mas a fortuna espreitava-os. Dias
depois, andando a roda, um dos bilhetes do Porfrio saiu premiado, tirou quinhentos
mil-ris. Porfrio, alvoroado, correu para a casa. Durante os primeiros
minutos no pde reger o esprito. S deu acordo de si no Campo da Aclamao.
Era ao fim da tarde; iam-se desdobrando as primeiras sombras da noite. E os
quinhentos mil-ris eram como outras tantas mil estrelas na imaginao do
pobre-diabo, que no via nada, nem as pessoas que lhe passavam ao p, nem os
primeiros lampies, que se iam acendendo aqui e ali. Via os quinhentos
mil-ris. Bem dizia ele que havia de tirar o p do lodo; Deus no desampara os
seus. E falava s resmungando, ou ento ria; outras vezes dava ao corpo um ar
superior. Na entrada da Rua de S. Diogo achou um conhecido que o consultou
sobre o modo prtico de reunir alguns amigos e fundar uma irmandade de S. Carlos.
Porfrio respondeu afoitamente:

 A primeira coisa  ter em caixa,
logo, uns duzentos ou trezentos mil-ris.

Atirava assim quantias grandes,
embriagava-se de centenas. Mas o amigo explicou-lhe que o primeiro passo era
reunir gente, depois viria dinheiro; Porfrio, que j no pensava nisso,
concordou e foi andando. Chegou a casa, espiou pela janela aberta, viu a mulher
cosendo na sala, ao candeeiro, e bradou-lhe que abrisse a porta. Glria correu
 porta assustada, ele quase que a deita no cho, abraando-a muito, falando,
rindo, pulando, tinham dinheiro, tudo pago, um vestido; Glria perguntava o que
era, pedia-lhe que se explicasse, que sossegasse primeiro. Que havia de ser?
Quinhentos mil-ris. Ela no quis crer; onde  que ele foi arranjar quinhentos
mil-ris? Ento Porfrio contou-lhe tudo, comprara dois dcimos, dias antes, e
no lhe disse nada, a ver primeiro se saa alguma coisa; mas estava certo que
saa; o corao nunca o enganou.

Glria abraou-o ento com
lgrimas. Graas a Deus, tudo estava salvo. E chegaria para pagar as dvidas
todas? Chegava: Porfrio demonstrou-lhe que ainda sobrava dinheiro e foi fazer
as contas com ela, ao canto da mesa. Glria ouvia em boa-f, pois s sabia
contar por dzias; as centenas de mil-ris no lhe entravam na cabea. Ouvia em
boa-f, calada, com os olhos nele, que ia contando devagar para no errar.
Feitas as contas, sobravam perto de duzentos mil-ris.

 Duzentos? Vamos botar na Caixa.

 No contando, acudiu ele, no
contando certa coisa que hei de comprar; uma coisa... Adivinha o que ?

 No sei.

 Quem  que precisa de um vestido
de seda, coisa chique, feito na modista?

 Deixa disso, Porfrio. Que
vestido, o qu? Pobre no tem luxo. Bota o dinheiro na Caixa.

 O resto boto; mas o vestido h
de vir. No quero mulher esfarrapada. Ento, pobre no veste? No digo l
comprar uma dzia de vestidos, mas um, que mal faz? Voc pode ter necessidade
de ir a alguma parte, assim mais arranjadinha. E depois, voc nunca teve um
vestido feito por francesa.

Porfrio pagou tudo e comprou o
vestido. Os credores, quando o viam entrar, franziam a cara; ele, porm, em vez
de desculpas, dava-lhes dinheiro, com tal naturalidade que parecia nunca ter
feito outra coisa. Glria ainda ops resistncia ao vestido; mas era mulher,
cedeu ao adorno e  moda. S no consentiu em mand-lo fazer. O preo do feitio
e o resto do dinheiro deviam ir para a Caixa Econmica.

 E por que  que h de ir para a
Caixa? perguntou ele ao fim de oito dias.

 Para alguma necessidade,
respondeu a mulher.

Porfrio refletiu, deu duas
voltas, chegou-se a ela e pegou-lhe no queixo; esteve assim alguns instantes,
olhando fixo.

Depois, abanando a cabea:

 Voc  uma santa. Vive aqui metida
no trabalho; entra ms, sai ms, e nunca se diverte: nunca tem um dia que se
diga de refrigrio. Isto at  mau para a sade.

 Pois vamos passear.

 No digo isso. Passear s no
basta. Se passear bastasse, cachorro no morria de lepra, acrescentou ele,
rindo muito da prpria idia. O que eu digo  outra coisa. Falemos franco,
vamos dar um pagode.

Glria ops-se logo, instou,
rogou, zangou-se; mas o marido tinha argumentos para tudo. Contavam eles com
esse dinheiro? No; podiam estar como dantes, devendo os cabelos da cabea, ao
passo que assim ficava tudo pago, e divertiam-se. Era at um modo de agradecer
o benefcio a Nosso Senhor. Que  que se levava da vida? Todos se divertiam; os
mais reles sujeitos achavam um dia de festa; eles  que haviam de gastar os
anos como se fossem escravos? E ainda ele, Porfrio, espairecia um pouco, via
na rua uma coisa ou outra; ela, porm, o que  que via? Nada, no via nada; era
s trabalho e mais trabalho. E depois, como  que ela havia de estrear o
vestido de seda?

 No dia da Glria, vamos  festa
da Glria. Porfrio refletiu um instante.

 Uma coisa no impede a outra,
disse ele. No convido muita gente, no; patuscada de famlia; convido o
Firmino e a mulher, as filhas do defunto Ramalho, a comadre Purificao, o
Borges...

 Mais ningum, Porfrio; isso
basta.

Porfrio esteve por tudo, e pode
ser que sinceramente; mas os preparativos da festa vieram agravar a febre, que
chegou ao delrio. Queria festa de estrondo, coisa que desse o que falar. No
fim de uma semana eram trinta os convidados. Choviam pedidos; falava-se muito
do pagode que o Porfrio ia dar, e do prmio que ele tirara na loteria, uns
diziam dois contos de ris, outros trs e ele, interrogado, no retificava
nada, sorria, evitava responder; alguns concluam que os contos eram quatro, e
ele sorria ainda mais, cheio de mistrios.

Chegou o dia. Glria, iscada da
febre do marido, vaidosa com o vestido de seda, estava no mesmo grau de
entusiasmo. s vezes, pensava no dinheiro, e recomendava ao marido que se
contivesse, que salvasse alguma coisa para pr na Caixa; ele dizia que sim, mas
contava mal, e o dinheiro ia ardendo... Depois de um jantar simples e alegre,
comeou o baile, que foi de estrondo, to concorrido que no se podia andar.

Glria era a rainha da noite. O
marido, apesar de preocupado com os sapatos  novos e de verniz  olhava para
ela com olhos de autor. Danaram muitas vezes, um com o outro, e a opinio
geral  que ningum os desbancava; mas dividiam-se com os convidados, familiarmente.
Deram trs, quatro, cinco horas. s cinco havia um tero das pessoas, velha
guarda imperial, que o Porfrio comandava, multiplicando-se, gravata ao lado,
suando em bica, concertando aqui umas flores, arrebatando ali uma criana que
ficara a dormir a um canto e indo lev-la para a alcova, alastrada de outras. E
voltava logo batendo palmas, bradando que no esfriassem, que um dia no eram
dias, que havia tempo de dormir em casa.

Ento o oficlide roncava alguma
coisa, enquanto as ltimas velas expiravam dentro das mangas de vidro e nas
arandelas.
