Crtica, O ideal do crtico, 1865

O ideal do crtico

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, 8/10/1865.

Exercer a crtica, afigura-se a
alguns que  uma fcil tarefa, como a outros parece igualmente fcil a tarefa
do legislador; mas, para a representao literria, como para a representao poltica,
 preciso ter alguma coisa mais que um simples desejo de falar  multido.
Infelizmente  a opinio contrria que domina, e a crtica, desamparada pelos
esclarecidos,  exercida pelos incompetentes.

So
bvias as conseqncias de uma tal situao. As musas, privadas de um farol
seguro, correm o risco de naufragar nos mares sempre desconhecidos da
publicidade. O erro produzir o erro; amortecidos os nobres estmulos, abatidas
as legtimas ambies, s um tribunal ser acatado, e esse, se  o mais
numeroso,  tambm o menos decisivo. O poeta oscilar entre as sentenas mal
concebidas do crtico, e os arestos caprichosos da opinio; nenhuma luz, nenhum
conselho, nada lhe mostrar o caminho que deve seguir,  e a morte prxima ser
o prmio definitivo das suas fadigas e das suas lutas.

Chegamos
j a estas tristes conseqncias? No quero proferir juzo, que seria
temerrio, mas qualquer pode notar com que largos intervalos aparecem as boas
obras, e como so raras as publicaes seladas por um talento verdadeiro.
Quereis mudar esta situao aflitiva? Estabelecei a crtica, mas a crtica
fecunda, e no a estril, que nos aborrece e nos mata, que no reflete nem
discute, que abate por capricho ou levanta por vaidade; estabelecei a crtica
pensadora, sincera, perseverante, elevada,  ser esse o meio de reerguer os
nimos, promover os estmulos, guiar os estreantes, corrigir os talentos
feitos; condenai o dio, a camaradagem e a indiferena,  essas trs chagas da
crtica de hoje,  ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a
justia,   s assim que teremos uma grande literatura.

 claro
que a essa crtica, destinada a produzir tamanha reforma, deve-se exigir as
condies e as virtudes que faltam  crtica dominante;  e para melhor definir
o meu pensamento, eis o que eu exigiria no crtico do futuro.

O crtico
atualmente aceito no prima pela cincia literria; creio at que uma das
condies para desempenhar to curioso papel,  despreocupar-se de todas as
questes que entendem com o domnio da imaginao. Outra, entretanto, deve ser
a marcha do crtico; longe de resumir em duas linhas,  cujas frases j o
tipgrafo as tem feitas,  o julgamento de uma obra, cumpre-lhe meditar
profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido ntimo, aplicar-lhe as leis
poticas, ver enfim at que ponto a imaginao e a verdade conferenciaram para
aquela produo. Deste modo as concluses do crtico servem tanto  obra
concluda, como  obra em embrio. Crtica  anlise,  a crtica que no analisa  a mais cmoda, mas no pode pretender a ser fecunda.

Para
realizar to multiplicadas obrigaes, compreendo eu que no basta uma leitura
superficial dos autores, nem a simples reproduo das impresses de um momento;
pode-se,  verdade, fascinar o pblico, mediante uma fraseologia que se emprega
sempre para louvar ou deprimir; mas no nimo daqueles para quem uma frase nada
vale, desde que no traz uma idia,  esse meio  impotente, e essa crtica
negativa.

No
compreendo o crtico sem conscincia. A cincia e a conscincia, eis as duas
condies principais para exercer a crtica. A crtica til e verdadeira ser
aquela que, em vez de modelar as suas sentenas por um interesse, quer seja o
interesse do dio, quer o da adulao ou da simpatia, procure produzir unicamente
os juzos da sua conscincia. Ela deve ser sincera, sob pena de ser nula. No
lhe  dado defender nem os seus interesses pessoais, nem os alheios, mas
somente a sua convico, e a sua convico, deve formar-se to pura e to alta,
que no sofra a ao das circunstncias externas. Pouco lhe deve importar as
simpatias ou antipatias dos outros; um sorriso complacente, se pode ser
recebido e retribudo com outro, no deve determinar, como a espada de Breno, o
peso da balana; acima de tudo, dos sorrisos e das desatenes, est o dever de
dizer a verdade, e em caso de dvida, antes cal-la, que neg-la.

Com tais
princpios, eu compreendo que  difcil viver; mas a crtica no  uma
profisso de rosas, e se o , -o somente no que respeita  satisfao ntima
de dizer a verdade.

Das duas
condies indicadas acima decorrem naturalmente outras, to necessrias como
elas, ao exerccio da crtica. A coerncia  uma dessas condies, e s pode
pratic-la o crtico verdadeiramente consciencioso. Com efeito, se o crtico,
na manifestao dos seus juzos, deixa-se impressionar por circunstncias
estranhas s questes literrias, h de cair freqentemente na contradio, e
os seus juzos de hoje sero a condenao das suas apreciaes de ontem. Sem
uma coerncia perfeita, as suas sentenas perdem todo o vislumbre de
autoridade, e abatendo-se  condio de ventoinha, movida ao sopro de todos os
interesses e de todos os caprichos, o crtico fica sendo unicamente o orculo
dos seus inconscientes aduladores.

O crtico
deve ser independente,  independente em tudo e de tudo,  independente da
vaidade dos autores e da vaidade prpria. No deve curar de inviolabilidades
literrias, nem de cegas adoraes; mas tambm deve ser independente das
sugestes do orgulho, e das imposies do amor prprio. A profisso do crtico
deve ser uma luta constante contra todas essas dependncias pessoais, que
desautoram os seus juzos, sem deixar de perverter a opinio. Para que a
crtica seja mestra,  preciso que seja imparcial,  armada contra a
insuficincia dos seus amigos, solcita pelo mrito dos seus adversrios,  e
neste ponto, a melhor lio que eu poderia apresentar aos olhos do crtico,
seria aquela expresso de Ccero, quando Csar mandava levantar as esttuas de
Pompeu:  ' levantando as esttuas do teu inimigo que tu consolidas as
tuas prprias esttuas'.



A
tolerncia  ainda uma virtude do crtico. A intolerncia  cega, e a cegueira
 um elemento do erro; o conselho e a moderao podem corrigir e encaminhar as
inteligncias; mas a intolerncia nada produz que tenha as condies de fecundo
e duradouro.

 preciso
que o crtico seja tolerante, mesmo no terreno das diferenas de escola: se as
preferncias do crtico so pela escola romntica, cumpre no condenar, s por
isso, as obras-primas que a tradio clssica nos legou, nem as obras meditadas
que a musa moderna inspira; do mesmo modo devem os clssicos fazer justia s
boas obras dos romnticos e dos realistas, to inteira justia, como estes
devem fazer s boas obras daqueles. Pode haver um homem de bem no corpo de um
maometano, pode haver uma verdade na obra de um realista. A minha admirao
pelo Cid no me fez obscurecer as belezas de Ruy Blas. A crtica
que, para no ter o trabalho de meditar e aprofundar, se limitasse a uma
proscrio em massa, seria a crtica da destruio e do aniquilamento.

Ser
necessrio dizer que uma das condies da crtica deve ser a urbanidade? Uma
crtica que, para a expresso das suas idias, s encontra frmulas speras,
pode perder as esperanas de influir e dirigir. Para muita gente ser esse o
meio de provar independncia; mas os olhos experimentados faro muito pouco
caso de uma independncia que precisa sair da sala para mostrar que existe.

Moderao
e urbanidade na expresso, eis o melhor meio de convencer; no h outro que
seja to eficaz. Se a delicadeza das maneiras  um dever de todo homem que vive
entre homens, com mais razo  um dever do crtico, e o crtico deve ser
delicado por excelncia. Como a sua obrigao  dizer a verdade, e diz-la ao
que h de mais suscetvel neste mundo, que  a vaidade dos poetas, cumpre-lhe,
a ele sobretudo, no esquecer nunca esse dever. De outro modo, o crtico
passar o limite da discusso literria, para cair no terreno das questes
pessoais; mudar o campo das idias, em campo de palavras, de doestos, de
recriminaes,  se acaso uma boa dose de sangue frio, da parte do adversrio,
no tornar impossvel esse espetculo indecente.

Tais so
as condies, as virtudes e os deveres dos que se destinam  anlise literria;
se a tudo isto juntarmos uma ltima virtude, a virtude da perseverana, teremos
completado o ideal do crtico.

Saber a
matria em que fala, procurar o esprito de um livro, descarn-lo,
aprofund-lo, at encontrar-lhe a alma, indagar constantemente as leis do belo,
tudo isso com a mo na conscincia e a convico nos lbios, adotar uma regra
definida, a fim de no cair na contradio, ser franco sem aspereza, independente
sem injustia, tarefa nobre  essa que mais de um talento podia desempenhar, se
se quisesse aplicar exclusivamente a ela. No meu entender  mesmo uma obrigao
de todo aquele que se sentir com fora de tentar a grande obra da anlise
conscienciosa, solcita e verdadeira.

Os
resultados seriam imediatos e fecundos. As obras que passassem do crebro do
poeta para a conscincia do crtico, em vez de serem tratadas conforme o seu
bom ou mau humor, seriam sujeitas a uma anlise severa, mas til; o conselho
substituiria a intolerncia, a frmula urbana entraria no lugar da expresso
rstica,  a imparcialidade daria leis, no lugar do capricho, da indiferena e
da superficialidade.

Isto pelo
que respeita aos poetas. Quanto  crtica dominante, como no se poderia
sustentar por si,  ou procuraria entrar na estrada dos deveres difceis, mas
nobres,  ou ficaria reduzida a conquistar de si prpria, os aplausos que lhe
negassem as inteligncias esclarecidas.

Se esta
reforma, que eu sonho, sem esperanas de uma realizao prxima, viesse mudar a
situao atual das coisas, que talentos novos! que novos escritos! que
estmulos! que ambies! A arte tomaria novos aspectos aos olhos dos
estreantes; as leis poticas,  to confundidas hoje, e to caprichosas,  seriam
as nicas pelas quais se aferisse o merecimento das produes,  e a literatura
alimentada ainda hoje por algum talento corajoso e bem encaminhado,  veria
nascer para ela um dia de florescimento e prosperidade. Tudo isso depende da
crtica. Que ela aparea, convencida e resoluta,  e a sua obra ser a melhor
obra dos nossos dias.
