ROMANCE, Esa e Jac,1904

Esa e Jac

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Editora
Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente
pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1904.

ADVERTNCIA

Quando o Conselheiro Aires
faleceu, acharam-se-lhe na secretria sete cadernos manuscritos, rijamente
encapados em papelo. Cada um dos primeiros seis tinha o seu nmero de
ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a
tinta encarnada. O stimo trazia este ttulo: ltimo.

A razo desta
designao especial no se compreendeu ento nem depois. Sim, era o
ltimo dos sete cadernos, com a particularidade de ser o mais grosso,
mas no fazia parte do Memorial, dirio de lembranas que o
conselheiro escrevia desde muitos anos e era a matria dos seis. No
trazia a mesma ordem de datas, com indicao da hora e do minuto, como usava
neles. Era uma narrativa; e, posto figure aqui o prprio Aires, com o
seu nome e ttulo de conselho, e, por aluso, algumas aventuras, nem assim
deixava de ser a narrativa estranha  matria dos seis cadernos. ltimo por
qu?

A hiptese de que o desejo do
finado fosse imprimir este caderno em seguida aos outros, no  natural, salvo
se queria obrigar  leitura dos seis, em que tratava de si, antes que lhe
conhecessem esta outra histria, escrita com um pensamento interior e
nico, atravs das pginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que
falava, mas a vaidade no fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse,
valia a pena satisfaz-la? Ele no representou papel eminente neste mundo;
percorreu a carreira diplomtica, e aposentou-se. Nos
lazeres do ofcio, escreveu o Memorial, que, aparado das pginas mortas
ou escuras, apenas daria (e talvez d) para matar o tempo da barca de
Petrpolis.

Tal foi a razo de se publicar
somente a narrativa. Quanto ao ttulo, foram lembrados vrios, em que o
assunto se pudesse resumir. Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu,
porm, a idia de lhe dar estes dois nomes que o prprio Aires citou uma vez:

ESA E JAC

Dico, che quando l'anima mal
nata...

Dante

CAPTULO PRIMEIRO

COISAS FUTURAS!

Era a primeira vez que as duas iam
ao Morro do Castelo. Comearam de subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente
h no Rio de Janeiro que nunca l foi, muita haver morrido, muita mais nascer
e morrer sem l pr os ps. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade
inteira. Um velho ingls, que alis andara terras e terras, confiava-me h
muitos anos em Londres que de Londres s conhecia bem o seu clube, e era o que
lhe bastava da metrpole e do mundo.

Natividade e Perptua conheciam
outras partes, alm de Botafogo, mas o Morro do Castelo, por mais que ouvissem
falar dele e da cabocla que l reinava em 1871, era-lhes to estranho e remoto
como o clube. O ngreme, o desigual, o mal calado da ladeira mortificavam os
ps s duas pobres donas. No obstante, continuavam a subir, como se fosse
penitncia, devagarinho, cara no cho, vu para baixo. A manh trazia certo
movimento; mulheres, homens, crianas que desciam ou subiam, lavadeiras e
soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados
para elas, que alis vestiam com grande simplicidade; mas h um donaire que se
no perde, e no era vulgar naquelas alturas. A mesma lentido do andar,
comparada  rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez
que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: 'Voc quer ver que elas
vo  cabocla?' E ambos pararam a distncia, tomados daquele invencvel
desejo de conhecer a vida alheia, que  muita vez toda a necessidade humana.

Com efeito, as duas senhoras
buscavam disfaradamente o nmero da casa da cabocla, at que deram com ele. A
casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha,
estreita, sombria, adequada  aventura. Quiseram entrar depressa, mas
esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um
deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.

 Perdem o seu tempo, concluiu
furioso, e ho de ouvir muito disparate...

  mentira dele, emendou o outro
rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.

Hesitaram um pouco; mas, logo
depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vidncia e da
franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de
Natividade podia ser miservel, e ento... Enquanto cogitavam passou fora um
carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham
f, mas tinham tambm vexame da opinio, como um devoto que se benzesse s
escondidas.

Velho caboclo, pai da adivinha,
conduziu as senhoras  sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que
lembrasse mistrio ou incutisse pavor, nenhum petrecho simblico, nenhum bicho
empalhado, esqueleto ou desenho de aleijes. Quando muito um registro da
Conceio colado  parede podia lembrar um mistrio, apesar de encardido e
rodo, mas no metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.

 Minha filha j vem, disse o
velho. As senhoras como se chamam?

Natividade deu o nome de batismo
somente, Maria, como um vu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu
um carto,  porque a consulta era s de uma,  com o nmero 1.012. No h que
pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Tambm
no h que dizer do costume, que  velho e velhssimo. Rel squilo, meu amigo,
rel as Eumnides, l vers a Ptia, chamando os que iam  consulta:
'Se h aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem
marcada pela sorte'... A sorte outrora, a numerao agora, tudo  que
a verdade se ajuste  prioridade, e ningum perca a sua vez de audincia.
Natividade guardou o bilhete, e ambas foram  janela.

A falar verdade, temiam o seu
tanto, Perptua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo
possvel. No ponho aqui os seus gestos; imaginai que eram inquietos e
desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um n
na garganta. Felizmente, a cabocla no se demorou muito; ao cabo de trs ou
quatro minutos, o pai a trouxe pela mo, erguendo a cortina do fundo.

 Entra, Brbara.

Brbara entrou, enquanto o pai
pegou da viola e passou ao patamar de pedra,  porta da esquerda. Era uma
criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no p. No se lhe podia
negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabea por um pedao de
fita enxovalhada, faziam-lhe um solidu natural, cuja borla era suprida por um
raminho de arruda. J vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistrio estava nos
olhos. Estes eram opacos, no sempre nem tanto que no fossem tambm lcidos e
agudos, e neste ltimo estado eram igualmente compridos; to compridos e to
agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o corao e tornavam c fora,
prontos para nova entrada e outro revolvimento. No te minto dizendo que as
duas sentiram tal ou qual fascinao. Brbara interrogou-as; Natividade disse
ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por
lhe haverem dito que bastava.

 Basta, confirmou Brbara. Os
meninos so seus filhos?

 So.

 Cara de um  cara de outro.

 So gmeos; nasceram h pouco
mais de um ano.

 As senhoras podem sentar-se.

Natividade disse baixinho  outra
que 'a cabocla era simptica', no to baixo que esta no pudesse
ouvir tambm; e da pode ser que ela, receosa da predio, quisesse aquilo
mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se  mesa redonda
que estava no centro da sala, virada para as duas. Ps os cabelos e os retratos
defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a me, fez algumas
perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta,
sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo, porque
 verdade, e o fumo concorda com o ofcio. Fora, o pai roava os dedos na
viola, murmurando uma cantiga do serto do Norte:

Menina da saia branca,

Saltadeira de riacho...

Enquanto o fumo do cigarro ia
subindo, a cara da adivinha mudava de expresso, radiante ou sombria, ora
interrogativa, ora explicativa. Brbara inclinava-se aos retratos, apertava uma
madeixa de cabelos em cada mo, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem
a afetao que porventura aches nesta linha. Tais gestos no se poderiam contar
naturalmente. Natividade no tirava os olhos dela, como se quisesse l-la por
dentro. E no foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos
tinham brigado antes de nascer.

 Brigado?

 Brigado, sim, senhora.

 Antes de nascer?

 Sim, senhora, pergunto se no
teriam brigado no ventre de sua me; no se lembra?

Natividade, que no tivera a
gestao sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos
extraordinrios, repetidos, e dores, e insnias... Mas ento que era? Brigariam
por qu? A cabocla no respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou  volta da
mesa, lenta, como sonmbula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a
dividi-los novamente entre a me e os retratos. Agitava-se agora mais,
respirando grosso. Toda ela, cara e braos, ombros e pernas, toda era pouca
para arrancar a palavra ao Destino. Enfim, parou, sentou-se exausta, at que se
ergueu de salto e foi ter com as duas, to radiante, os olhos to vivos e
clidos, que a me ficou pendente deles, e no se pde ter que lhe no pegasse
das mos e lhe perguntasse, ansiosa:

 Ento? Diga, posso ouvir tudo.

Brbara, cheia de alma e riso, deu
um respiro de gosto. A primeira palavra parece que lhe chegou  boca, mas recolheu-se
ao corao, virgem dos lbios dela e de alheios ouvidos. Natividade instou pela
resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...

 Coisas futuras! murmurou
finalmente a cabocla.

 Mas, coisas feias?

 Oh! no! no! Coisas bonitas,
coisas futuras!

 Mas isso no basta; diga-me o
resto. Esta senhora  minha irm e de segredo, mas se  preciso sair, ela sai;
eu fico, diga-me a mim s... Sero felizes?

 Sim.

 Sero grandes?

 Sero grandes, oh! grandes! Deus
h de dar-lhes muitos benefcios. Eles ho de subir, subir, subir... Brigaram
no ventre de sua me, que tem? C fora tambm se briga. Seus filhos sero
gloriosos.  s o que lhe digo. Quanto  qualidade da glria, coisas futuras!

L dentro, a voz do caboclo velho
ainda uma vez continuava a cantiga do serto:

Trepa-me neste
coqueiro,

Bota-me os cocos
abaixo.

E a filha, no tendo mais que
dizer, ou no sabendo que explicar, dava aos quadris o gesto da toada, que o
velho repetia l dentro:

Menina da saia branca,

Saltadeira de riacho,

Trepa-me neste
coqueiro,

Bota-me os cocos
abaixo.

Quebra
coco, sinh,

L no
coc,

Se te d na cabea,

H de
rach;

Muito hei de me ri,

Muito hei de gost,

Lel, coco, nai.

CAPTULO II

MELHOR DE DESCER QUE
DE SUBIR

Todos os orculos tm o falar
dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo a cabocla, apesar de lhe
no ouvir mais nada; bastou saber que as coisas futuras seriam bonitas, e os
filhos grandes e gloriosos para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de
cinqenta mil-ris. Era cinco vezes o preo do costume, e valia tanto ou mais
que as ricas ddivas de Creso  Ptia. Arrecadou os retratos e os cabelos, e as
duas saram, enquanto a cabocla ia para os fundos,  espera de outros. J havia
alguns fregueses  porta, com os nmeros de ordem, e elas desceram rapidamente,
escondendo a cara.

Perptua compartia as alegrias da
irm, as pedras tambm, o muro do lado do mar, as camisas penduradas s
janelas, as cascas de banana no cho. Os mesmos sapatos de um irmo das
almas, que ia a dobrar a esquina da Rua da Misericrdia para a de So Jos,
pareciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cansao. Natividade estava
to fora de si que, ao ouvir-lhe pedir: 'Para a missa das almas!'
tirou da bolsa uma nota de dois mil-ris, nova em folha, e deitou-a  bacia. A
irm chamou-lhe a ateno para o engano, mas no era engano, era para as almas
do purgatrio.

E seguiram lpidas para o coup,
que as esperava no espao que fica entre a igreja de So Jos e a Cmara dos
Deputados. No tinham querido que o carro as levasse at ao princpio da
ladeira, para que o cocheiro e o lacaio no desconfiassem da consulta. Toda a
gente falava ento da cabocla do Castelo, era o assunto da cidade;
atribuam-lhe um poder infinito, uma srie de milagres, sortes, achados,
casamentos. Se as descobrissem, estavam perdidas, embora muita gente boa l
fosse. Ao v-las dando a esmola ao irmo das almas, o lacaio trepou  almofada
e o cocheiro tocou os cavalos, a carruagem veio busc-las, e guiou para
Botafogo.

CAPTULO III

A ESMOLA DA FELICIDADE

 Deus lhe acrescente, minha
senhora devota! exclamou o irmo das almas ao ver a nota cair em cima de dois
nqueis de tosto e alguns vintns antigos. Deus lhe d todas as felicidades do
Cu e da Terra, e as almas do purgatrio peam a Maria Santssima que recomende
a senhora dona a seu bendito filho!

Quando a sorte ri, toda a natureza
ri tambm, e o corao ri como tudo o mais. Tal foi a explicao que, por
outras palavras menos especulativas, deu o irmo das almas aos dois mil-ris. A
suspeita de ser a nota falsa no chegou a tomar p no crebro deste: foi
alucinao rpida. Compreendeu que as damas eram felizes, e, tendo o uso de
pensar alto, disse piscando o olho, enquanto elas entravam no carro:

 Aquelas duas viram passarinho
verde, com certeza.

Sem rodeios, sups que as duas
senhoras vinham de alguma aventura amorosa, e deduziu isto de trs fatos, que
sou obrigado a enfileirar aqui para no deixar este homem sob a suspeita de
caluniador gratuito. O primeiro foi a alegria delas, o segundo o valor da
esmola, o terceiro o carro que as esperava a um canto, como se elas quisessem
esconder do cocheiro o ponto dos namorados. No concluas tu que ele tivesse
sido cocheiro algum dia, e andasse a conduzir moas antes de servir s almas.
Tambm no creias que fosse outrora rico e adltero, aberto de mos, quando
vinha de dizer adeus s suas amigas. Ni cet excs d'honneur, ni cette
indignit. Era um pobre-diabo sem mais ofcio que a devoo. Demais, no
teria tido tempo; contava apenas vinte e sete anos.

Cumprimentou as senhoras, quando o
carro passou. Depois ficou a olhar para a nota to fresca, to valiosa, nota
que as almas nunca viram sair das mos dele. Foi subindo a Rua de So Jos. J
no tinha nimo de pedir; a nota fazia-se ouro, e a idia de ser falsa
voltou-lhe ao crebro, e agora mais freqente, at que se lhe pegou por alguns
instantes. Se fosse falsa... 'Para a missa das almas!' gemeu  porta
de uma quitanda e deram-lhe um vintm,  um vintm sujo e triste, ao p da nota
to novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se um corredor de sobrado.
Entrou, subiu, pediu, deram-lhe dois vintns,  o dobro da outra moeda no valor
e no azinhavre.

E a nota sempre limpa, uns dois
mil-ris que pareciam vinte. No, no era falsa. No corredor pegou dela,
mirou-a bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancela em cima, e uns
passos rpidos. Ele, mais rpido, amarrotou a nota e meteu-a na algibeira das
calas; ficaram s os vintns azinhavrados e tristes, o bolo da viva. Saiu,
foi  primeira oficina,  primeira loja, ao primeiro corredor, pedindo longa e
lastimosamente:

 Para a missa das almas!

Na igreja, ao tirar a opa, depois
de entregar a bacia ao sacristo, ouviu uma voz dbil como de almas remotas que
lhe perguntavam se os dois mil-ris... Os dois mil-ris, dizia outra voz menos
dbil, eram naturalmente dele, que, em primeiro lugar, tambm tinha alma, e, em
segundo lugar, no recebera nunca to grande esmola. Quem quer dar tanto vai 
igreja ou compra uma vela, no pe assim uma nota na bacia das esmolas
pequenas.

Se minto, no  de inteno. Em
verdade, as palavras no saram assim articuladas e claras, nem as dbeis, nem
as menos dbeis; todas faziam uma zoeira aos ouvidos da conscincia. Traduzi-as
em lngua falada, a fim de ser entendido das pessoas que me lem; no sei como
se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro menos surdo, um
atrs de outro e todos confusos para o fim, at que o segundo ficou s:
'no tirou a nota a ningum... a dona  que a ps na bacia por sua mo...
tambm ele era alma'...  porta da sacristia que dava para a rua, ao
deixar cair o reposteiro azul escuro debruado de amarelo, no ouviu mais nada.
Viu um mendigo que lhe estendia o chapu roto e sebento; meteu vagarosamente a
mo no bolso do colete, tambm roto, e aventou uma moedinha de cobre que deitou
ao chapu do mendigo, rpido, s escondidas, como quer o Evangelho. Eram dois
vintns; ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito ris. E o mendigo, como
ele sasse depressa, mandou-lhe atrs estas palavras de agradecimento,
parecidas com as suas:

 Deus lhe acrescente, meu senhor,
e lhe d...

CAPTULO IV

A MISSA DO COUP

Natividade ia pensando na cabocla
do Castelo, na predio da grandeza e na notcia da briga. Tornava a lembrar-se
que, de fato, a gestao no fora sossegada; mas s lhe ficava a sorte da
glria e da grandeza. A briga l ia, se a houve; o futuro, sim, esse  que era
o principal ou tudo. No deu pela Praia de Santa Luzia. No Largo da Lapa
interrogou a irm sobre o que pensava da adivinha. Perptua respondeu que bem,
que acreditava, e ambas concordaram que ela parecia falar dos prprios filhos,
tal era o entusiasmo. Perptua ainda a repreendeu pelos cinqenta mil-ris
dados em paga; bastavam vinte.

 No faz mal. Coisas futuras!

 Que coisas sero?

 No sei; futuras.

Mergulharam outra vez no silncio.
Ao entrar no Catete, Natividade recordou a manh em que ali passou, naquele
mesmo coup, e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma
missa de defunto, na Igreja de So Domingos...

'Na Igreja de So Domingos
diz-se hoje uma missa por alma de Joo de Melo, falecido em Maric.' Tal
foi o anncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869. No me ficou
o dia, o ms foi agosto. O anncio est certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada,
nem o nome da pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem
convite. No se disse sequer que o defunto era escrivo, ofcio que s perdeu
com a morte. Enfim, parece que at lhe tiraram um nome; ele era, se estou bem
informado, Joo de Melo e Barros.

No se sabendo quem mandava dizer
a missa, ningum l foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato; no
era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem gente, metida ao canto de
um pequeno largo, adequada  missa recndita e annima.

s oito horas parou um coup
 porta; o lacaio desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se.
Saiu um senhor e deu a mo a uma senhora, a senhora saiu e tomou o brao ao
senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram na igreja. Na sacristia
era tudo espanto. A alma que a tais stios atrara um carro de luxo, cavalos de
raa, e duas pessoas to finas no seria como as outras almas ali sufragadas. A
missa foi ouvida sem psames nem lgrimas. Quando acabou, o senhor foi 
sacristia dar as esprtulas. O sacristo, agasalhando na algibeira a nota de
dez mil-ris que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas
que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse, quando a
luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco tostes. J ento
havia na igreja meia dzia de crianas maltrapilhas, e, fora, alguma gente s
portas e no largo, esperando. O senhor, chegando  porta, relanceou os olhos,
ainda que vagamente, e viu que era objeto de curiosidade. A senhora trazia os
seus no cho. E os dois entraram no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a
portinhola e partiram.

A gente local no falou de outra
coisa naquele e nos dias seguintes. Sacristo e vizinhos relembravam o coup,
com orgulho. Era a missa do coup. As outras missas vieram vindo, todas
a p, algumas de sapato roto, no raras descalas, capinhas velhas, morins
estragados, missas de chita, ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao
costume, mas a missa do coup viveu na memria por muitos meses. Afinal
no se falou mais nela; esqueceu como um baile.

Pois o coup era este
mesmo. A missa foi mandada dizer por aquele senhor, cujo nome  Santos, e o
defunto era seu parente, ainda que pobre. Tambm ele foi pobre; tambm ele
nasceu em Maric. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasio da febre das
aes (1855), dizem que revelou grandes qualidades para ganhar dinheiro
depressa. Ganhou logo muito, e f-lo perder a outros. Casou em 1859 com esta
Natividade, que ia ento nos vinte anos e no tinha dinheiro, mas era bela e
amava apaixonadamente. A Fortuna os abenoou com a riqueza. Anos depois tinham
eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relaes novas e distintas. Dos dois
parentes pobres de Natividade morreu o pai em 1866; restava-lhe uma irm.
Santos tinha alguns em Maric, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez,
fosse habilidade. Mesquinhez no creio; ele gastava largo e dava muitas
esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de vir c pedir-lhe mais.

No lhe valeu isto com Joo de
Melo, que um dia apareceu aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele,
diretor de banco. Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivo no cvel em
Maric, e despachou-o com os melhores conselhos deste mundo.

Joo de Melo retirou-se com a
escrivania, e dizem que uma grande paixo tambm. Natividade era a mais bela mulher
daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenrios, fazia crer na
tradio. Joo de Melo ficou alucinado quando a viu; ela conheceu isso, e
portou-se bem. No lhe fechou o rosto,  verdade, e era mais bela assim que
zangada; tambm no lhe fechou os olhos, que eram negros e clidos. S lhe
fechou o corao, um corao que devia amar como nenhum outro, foi a concluso
de Joo de Melo uma noite em que a viu ir decotada a um baile. Teve mpeto de
pegar dela, descer, voar, perderem-se...

Em vez disso, uma escrivania e
Maric; era um abismo. Caiu nele; trs dias depois saiu do Rio de Janeiro para
no voltar. A princpio escreveu muitas cartas ao parente, com a esperana de
que ela as lesse tambm, e compreendesse que algumas palavras eram para si. Mas
Santos no lhe deu resposta, e o tempo e a ausncia acabaram por fazer de Joo
de Melo um excelente escrivo. Morreu de uma pneumonia.

Que o motivo da pratinha de
Natividade deitada  caixa das almas fosse pagar a adorao do defunto no digo
que sim, nem que no; faltam-me pormenores. Mas pode ser que sim, porque esta
senhora era no menos grata que honesta. Quanto s larguezas do marido, no
esqueas que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.

CAPTULO V

H CONTRADIES EXPLICVEIS

No me peas a causa de tanto
encolhimento no anncio e na missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libr.
H contradies explicveis. Um bom autor, que inventasse a sua histria, ou
prezasse a lgica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a p ou
em calea de praa ou de aluguel; mas eu, amigo, eu sei como as coisas se
passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condio de
que tal costume no pegue. Explicaes comem tempo e papel, demoram a ao e
acabam por enfadar. O melhor  ler com ateno.

Quanto  contradio de que se
trata aqui,  de ver que naquele recanto de um larguinho modesto, nenhum
conhecido daria com eles, ao passo que eles gozariam o assombro local; tal foi
a reflexo de Santos, se se pode dar semelhante nome a um movimento interior
que leva a gente a fazer antes uma coisa que outra. Resta a missa; a missa em
si mesma bastava que fosse sabida no Cu e em Maric. Propriamente vestiram-se para o Cu. O luxo do casal temperava a pobreza da orao;
era uma espcie de homenagem ao finado. Se a alma de Joo de Melo os visse de
cima, alegrar-se-ia do apuro em que eles foram rezar por um pobre escrivo. No
sou eu que o digo; Santos  que o pensou.

CAPTULO VI

MATERNIDADE

A princpio, vieram
calados. Quando muito, Natividade queixou-se da igreja, que lhe sujara o
vestido.

 Venho cheia de pulgas, continuou
ela; por que no fomos a So Francisco de Paula ou  Glria, que esto mais
perto, e so limpas?

Santos trocou as mos  conversa,
e falou das ruas mal caladas, que faziam dar solavancos ao carro. Com certeza,
quebravam-lhe as molas.

Natividade no replicou, mergulhou
no silncio, como naquele outro captulo, vinte meses depois, quando tornava do
Castelo com a irm. Os olhos no tinham a nota de deslumbramento que trariam
ento; iam parados e sombrios, como de manh e na vspera. Santos, que j
reparara nisso, perguntou-lhe o que  que tinha; ela no sei se lhe respondeu
de palavra; se alguma disse, foi to breve e surda que inteiramente se perdeu.
Talvez no passasse de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou coisa assim.
Fosse o que fosse, quando o coup chegou ao meio do Catete, os dois
levavam as mos presas, e a expresso do rosto era de abenoados. No davam sequer
pela gente das ruas; no davam talvez por si mesmos.

Leitor, no  muito que percebas a
causa daquela expresso e desses dedos abotoados. J l ficou dita atrs,
quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente no a
adivinharias, no que tenhas o entendimento curto ou escuro, mas porque o homem
varia do homem, e tu talvez ficasses com igual expresso, simplesmente por
saber que ias danar sbado. Santos no danava; preferia o voltarete, como
distrao. A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava grvida, acabava
de o dizer ao marido.

Aos trinta anos no era cedo nem
tarde; era imprevisto. Santos sentiu mais que ela o prazer da vida nova. Eis a
vinha a realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abrao,
como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde, e agora
empresta generosamente o seu dinheiro s companhias e s naes. Levam juro por
ele; mas os hebrasmos so dados de graa. Aquele  desses. Santos, que s
conhecia a parte do emprstimo, sentia inconscientemente a do hebrasmo, e
deleitava-se com ele. A emoo atava-lhe a lngua; os olhos que estendia 
esposa e a cobriam eram de patriarca; o sorriso parecia chover luz sobre a
pessoa amada, abenoada e formosa entre as formosas.

Natividade no foi logo, logo,
assim; a pouco e pouco  que veio sendo vencida e tinha j a expresso da
esperana e da maternidade. Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a
nossa amiga.  duro diz-lo, mas  verdade. L se iam bailes e festas, l ia a
liberdade e a folga. Natividade andava j na alta roda do tempo; acabou de
entrar por ela, com tal arte que parecia haver ali nascido. Carteava-se com
grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem tinha s esta casa
de Botafogo, mas tambm outra em Petrpolis; nem s carro, mas tambm camarote
no Teatro Lrico, no contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e
os seus; todo o repertrio, em suma, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas,
pertencia quela dzia de nomes planetrios que figuram no meio da plebe de
estrelas. O marido era capitalista e diretor de um banco.

No meio disso, a que vinha agora
uma criana deform-la por meses, obrig-la a recolher-se, pedir-lhe as noites,
adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensao da me, e o primeiro
mpeto foi esmagar o grmen. Criou raiva ao marido. A segunda sensao foi
melhor. A maternidade, chegando ao meio-dia, era como uma aurora nova e fresca.
Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da chcara ou no
regao da aia, com trs anos de idade, e este quadro daria aos trinta e quatro
anos que teria ento um aspecto de vinte e poucos...

Foi o que a reconciliou com o
marido. No exagero; tambm no quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo,
a maior parte amor. A concluso  que, por uma ou por outra porta, amor ou
vaidade, o que o embrio quer  entrar na vida. Csar ou Joo Fernandes, tudo 
viver, assegurar a dinastia e sair do mundo o mais tarde que puder.

O casal ia calado. Ao desembocar
na Praia de Botafogo, a enseada trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se
a distncia, magnfica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nela, cresceu com
ela, subiu por ela. A estatueta de Narciso, no meio do jardim, sorriu  entrada
deles, a areia fez-se relva, duas andorinhas cruzaram por cima do repuxo,
figurando no ar a alegria de ambos. A mesma cerimnia  descida. Santos ainda
parou alguns instantes para ver o coup dar a volta, sair e tornar 
cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguo.

CAPTULO VII

GESTAO

Em cima, esperava por eles
Perptua, aquela irm de Natividade, que a acompanhou ao Castelo, e l ficou no
carro, onde as deixei para narrar os antecedentes dos meninos.

 Ento? Houve muita gente?

 No, ningum; pulgas.

Perptua tambm no entendera a
escolha da igreja. Quanto  concorrncia, sempre lhe pareceu que seria pouca ou
nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ela calou o resto. Era pessoa
circunspecta, que no se perdia por um dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe
impossvel calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar  mulher um
abrao longo e terno, abrochado por um beijo.

 Que  isso? exclamou espantada.

Sem reparar no vexame da mulher,
Santos deu um abrao  cunhada, e ia a dar-lhe um beijo tambm, se ela no
recuasse a tempo e com fora.

 Mas que  isso? Voc tirou a
sorte grande de Espanha?

 No, coisa melhor, gente nova.

Santos conservara alguns gestos e
modos de dizer dos primeiros anos, tais que o leitor no chamar propriamente familiares;
tambm no  preciso chamar-lhes nada. Perptua, afeita a eles, acabou sorrindo
e dando-lhe parabns. J ento Natividade os deixara para se ir despir. Santos,
meio arrependido da expanso, fez-se srio e conversou da missa e da igreja.
Concordou que esta era decrpita e metida a um canto, mas alegou razes
espirituais. Que a orao era sempre orao, onde quer que a alma falasse a
Deus. Que a missa, a rigor, no precisava estritamente de altar; o rito e o
padre bastavam ao sacrifcio. Talvez essas razes no fossem propriamente dele,
mas ouvidas a algum, decoradas sem esforo e repetidas com convico. A
cunhada opinou de cabea que sim. Depois falaram do parente morto e concordaram
piamente que era um asno;  no disseram este nome, mas a totalidade das
apreciaes vinha a dar nele, acrescentado de honesto e honestssimo.

 Era uma prola, concluiu Santos.

Foi a ltima palavra da
necrologia; paz aos mortos. Dali em diante, vingou a soberania da criana que
alvorecia. No alteraram os hbitos, nos primeiros tempos, e as visitas e os
bailes continuaram como dantes, at que pouco a pouco, Natividade se fechou
totalmente em casa. As amigas iam v-la. Os amigos iam visit-los ou jogar
cartas com o marido.

Natividade queria um filho, Santos
uma filha, e cada um pleiteava a sua escolha com to boas razes, que acabavam
trocando de parecer. Ento ela ficava com a filha, e vestia-lhe as melhores
rendas e cambraias, enquanto ele enfiava uma beca no jovem advogado, dava-lhe
um lugar no parlamento, outro no ministrio. Tambm lhe ensinava a enriquecer
depressa; e ajud-lo-ia comeando por uma caderneta na Caixa Econmica, desde o
dia em que nascesse at os vinte e um anos. Alguma vez, s noites, se estavam
ss, Santos pegava de um lpis e desenhava a figura do filho, com bigodes,  ou
ento riscava uma menina vaporosa.

 Deixa, Agostinho, disse-lhe a
mulher uma noite; voc sempre h de ser criana.

E pouco depois, deu por si a
desenhar de palavra a figura do filho ou filha, e ambos escolhiam a cor dos
olhos, os cabelos, a tez, a estatura. Vs que tambm ela era criana. A
maternidade tem dessas incoerncias, a felicidade tambm, e por fim a
esperana, que  a meninice do mundo.

A perfeio seria nascer um casal.
Assim os desejos do pai e da me ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer
sobre isso uma consulta esprita. Comeava a ser iniciado nessa religio, e
tinha a f novia e firme. Mas a mulher ops-se; a consultar algum, antes a
cabocla do Castelo, a adivinha clebre do tempo, que descobria as coisas
perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava tambm, por desnecessrio.
A que vinha consultar sobre uma dvida, que dali a meses estaria esclarecida?
Santos achou, em relao  cabocla, que seria imitar as crendices da gente reles;
mas a cunhada acudiu que no, e citou um caso recente de pessoa distinta, um
juiz municipal, cuja nomeao foi anunciada pela cabocla.

 Talvez o ministro da Justia
goste da cabocla, explicou Santos.

As duas riram da graa, e assim se
fechou uma vez o captulo da adivinha, para se abrir mais tarde. Por agora 
deixar que o feto se desenvolva, a criana se agite e se atire, como impaciente
de nascer. Em verdade, a me padeceu muito durante a gestao, e principalmente
nas ltimas semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida,
a no ser um casal que aprendia a desamar de vspera.

CAPTULO VIII

NEM CASAL, NEM GENERAL

Nem casal, nem general. No dia
sete de abril de 1870 veio  luz um par de vares to iguais, que antes
pareciam a sombra um do outro, se no era simplesmente a impresso do olho, que
via dobrado.

Tudo esperavam, menos os dois
gmeos, e nem por ser o espanto grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem
ser preciso insistir, assim como se entende que a me desse aos dois filhos
aquele po inteiro e dividido do poeta; eu acrescento que o pai fazia a mesma
coisa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos, a compar-los, a
medi-los, a pes-los. Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A
mudana ia-se fazendo por um s teor. O rosto comprido, cabelos castanhos,
dedos finos e tais que, cruzados os da mo direita de um com os da esquerda de
outro, no se podia saber que eram de duas pessoas. Viriam a ter gnio
diferente, mas por ora eram os mesmos estranhes. Comearam a sorrir no mesmo
dia. O mesmo dia os viu batizar.

Antes do parto, tinham combinado
em dar o nome do pai ou da me, segundo fosse o sexo da criana. Sendo um par
de rapazes, e no havendo a forma masculina do nome materno, no quis o pai que
figurasse s o dele, e meteram-se a catar outros. A me propunha franceses ou
ingleses, conforme os romances que lia. Algumas novelas russas em moda
sugeriram nomes eslavos. O pai aceitava uns e outros, mas consultava a
terceiros, e no acertava com opinio definitiva. Geralmente, os consultados
traziam outro nome, que no era aceito em casa. Tambm veio a antiga onomstica lusitana, mas sem melhor fortuna. Um dia, estando
Perptua  missa, rezou o Credo, advertiu nas palavras: ... os santos
apstolos So Pedro e So Paulo', e mal pde acabar a orao. Tinha
descoberto os nomes; eram simples e gmeos. Os pais concordaram com ela e a
pendncia acabou.

A alegria de Perptua foi quase
tamanha como a do pai e da me, se no maior. Maior no foi, nem to profunda,
mas foi grande, ainda que rpida. O achado dos nomes valia quase que pela
feitura das crianas. Viva, sem filhos, no se julgava incapaz de os ter, e
era alguma coisa nome-los. Contava mais cinco ou seis anos que a irm. Casara
com um tenente de artilharia que morreu capito na guerra do Paraguai. Era mais
baixa que alta, e era gorda, ao contrrio de Natividade que, sem ser magra, no
tinha as mesmas carnes, e era alta e reta. Ambas vendiam sade.

 Pedro e Paulo, disse Perptua 
irm e ao cunhado, quando rezei estes dois nomes senti uma coisa no corao...

 Voc ser madrinha de um, disse
a irm.

Os pequenos, que se distinguiam
por uma fita de cor, passaram a receber medalhas de ouro, uma com a imagem de
So Pedro, outra com a de So Paulo. A confuso no cedeu logo, mas tarde,
lento e pouco, ficando tal semelhana que os advertidos se enganavam muita vez
ou sempre. A me  que no precisou de grandes sinais externos para saber quem
eram aqueles dois pedaos de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem entre
si, no deixavam de querer mal uma  outra, pelo motivo da semelhana dos
'seus filhos de criao'. Cada uma afirmava que o seu era mais
bonito. Natividade concordava com ambas.

Pedro seria mdico, Paulo
advogado; tal foi a primeira escolha das profisses. Mas logo depois trocaram
de carreira. Tambm pensaram em dar um deles  engenharia. A marinha sorria 
me, pela distino particular da escola. Tinha s o inconveniente da primeira
viagem remota; mas Natividade pensou em meter empenhos com o ministro. Santos
falava em fazer um deles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias.
ntimos da casa entravam nos clculos. Houve quem os fizesse ministros,
desembargadores, bispos, cardeais...

 No peo tanto, dizia o pai.

Natividade no dizia nada ao p de
estranhos, apenas sorria, como se tratasse de folguedo de So Joo, um lanar
de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente ao nmero. No
importa; l dentro de si cobiava algum brilhante destino aos filhos. Cria
deveras, esperava, rezava s noites, pedia ao Cu que os fizesse grandes
homens.

Uma das amas, parece que a de
Pedro, sabendo daquelas nsias e conversas, perguntou a Natividade por que 
que no ia consultar a cabocla do Castelo. Afirmou que ela adivinhava tudo, o
que era e o que viria a ser; conhecia o nmero da sorte grande, no dizia qual
era nem comprava bilhete para no roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece
que era mandada de Deus.

A outra ama confirmou as notcias
e acrescentou novas. Conhecia pessoas que tinham perdido e achado jias e
escravos. A polcia mesma, quando no acabava de apanhar um criminoso, ia ao
Castelo falar  cabocla e descia sabendo; por isso  que no a botava para
fora, como os invejosos andavam a pedir. Muita gente no embarcava sem subir
primeiro ao morro. A cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de
quebranto...

Ao jantar, Natividade repetiu ao
marido a lembrana das amas. Santos encolheu os ombros. Depois examinou rindo a
sabedoria da cabocla; principalmente a sorte grande; era incrvel que,
conhecendo o nmero, no comprasse bilhete. Natividade achou que era o mais
difcil de explicar, mas podia ser inveno do povo. On ne prte qu'aux
riches, acrescentou rindo. O marido, que estivera na vspera com um
desembargador, repetiu as palavras dele que 'enquanto a polcia no
pusesse cobro ao escndalo...' O desembargador no conclura. Santos
concluiu com um gesto vago.

 Mas voc  esprita, ponderou a
mulher.

 Perdo, no confundamos,
replicou ele com gravidade.

Sim, podia consentir numa consulta
esprita; j pensara nela. Algum esprito podia dizer-lhe a verdade em vez de
uma adivinha de farsa... Natividade defendeu a cabocla. Pessoas da sociedade
falavam dela a srio. No queria confessar ainda que tinha f, mas tinha.
Recusando ir outrora, foi naturalmente a insuficincia do motivo que lhe deu a
fora negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino dos
dois era mais imperioso e til. Velhas idias que lhe incutiram em criana
vinham agora emergindo do crebro e descendo ao corao. Imaginava ir com os
pequenos ao morro do Castelo, a ttulo de passeio... Para qu? Para confirm-la
na esperana de que seriam grandes homens. No lhe passara pela cabea a
predio contrria. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando o
destino; mas a leitora, alm de no crer (nem todos crem), pode ser que no
conte mais de vinte a vinte e dois anos de idade, e ter a pacincia de
esperar. Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia no ver
a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois tambm se morre velha, e
alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo gosto?

Ao sero, a matria da palestra
foi a cabocla do Castelo, por iniciativa de Santos, que repetia as opinies da
vspera e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam dela. Natividade
no dormiu aquela noite sem obter do marido que a deixasse ir com a irm 
cabocla. No se perdia nada; bastava levar os retratos dos meninos e um pouco
dos cabelos. As amas no saberiam nada da aventura.

No dia aprazado meteram-se as duas
no carro, entre sete e oito horas com pretexto de passeio, e l se foram para a
Rua da Misericrdia. Sabes j que ali se apearam, entre a igreja de So Jos e
a Cmara dos Deputados, e subiram aquela at  Rua do Carmo, onde esta pega com
a ladeira do Castelo. Indo a subir, hesitaram, mas a me era me, e j agora
faltava pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram, deram os
dois mil ris s almas, entraram no carro e voltaram para Botafogo.

CAPTULO IX

VISTA DE PALCIO

No Catete, o coup e uma
vitria cruzaram-se e pararam a um tempo. Um homem saltou da vitria e caminhou
para o coup. Era o marido de Natividade, que ia agora para o
escritrio, um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da
mulher. Ia pensando nela e nos negcios da praa, nos meninos e na Lei Rio
Branco, ento discutida na Cmara dos Deputados; o banco era credor da lavoura.
Tambm pensava na cabocla do Castelo e no que teria dito  mulher...

Ao passar pelo Palcio Nova
Friburgo, levantou os olhos para ele com o desejo do costume, uma cobia de
possu-lo, sem prever os altos destinos que o palcio viria a ter na Repblica;
mas quem ento previa nada? Quem prev coisa nenhuma? Para Santos a questo era
s possu-lo, dar ali grandes festas nicas, celebradas nas gazetas, narradas
na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admirao, de rancor ou de inveja.
No pensava nas saudades que as matronas futuras contariam s suas netas, menos
ainda nos livros de crnicas, escritos e impressos neste outro sculo. Santos
no tinha a imaginao da posteridade. Via o presente e suas maravilhas.

J lhe no bastava o que era. A
casa de Botafogo, posto que bela, no era um palcio, e depois, no estava to
exposta como aqui no Catete, passagem obrigada de toda a gente, que olharia
para as grandes janelas, as grandes portas, as grandes guias no alto, de asas
abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palcio, os jardins e
os lagos... Oh! gozo infinito! Santos imaginava os bronzes, mrmores, luzes,
flores, danas, carruagens, msicas, ceias... Tudo isso foi pensado depressa,
porque a vitria, embora no corresse (os cavalos tinham ordem de moderar a
andadura), todavia, no atrasava as rodas para que os sonhos de Santos
acabassem. Assim foi que, antes de chegar  Praia da Glria, a vitria avistou
o coup da famlia, e as duas carruagens pararam, a curta distncia uma
da outra, como ficou dito.

CAPTULO X

O JURAMENTO

Tambm ficou dito que o marido
saiu da vitria e caminhou para o coup, onde a mulher e a cunhada,
adivinhando que ele vinha ter com elas, sorriam de antemo.

 No lhe digas nada, aconselhou
Perptua.

A cabea de Santos apareceu logo,
com as suas curtas, o cabelo rente, o bigode rapado. Era homem simptico.
Quieto, no ficava mal. A agitao com que chegou, parou e falou, tirou-lhe a
gravidade com que ia no carro, as mos postas sobre o casto de ouro da
bengala, e a bengala entre os joelhos.

 Ento? ento? perguntou.

 Logo digo.

 Mas que foi?

 Logo.

 Bem ou mal? Dize s se bem.

 Bem. Coisas futuras.

  pessoa sria?

 Sria, sim; at logo, repetiu
Natividade estendendo-lhe os dedos.

Mas o marido no podia despegar-se
do coup; queria saber ali mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a
gente que l estava  espera, e se era o mesmo destino para os dois, ou se cada
um tinha o seu. Nada disso foi escrito como aqui vai, devagar, para que a ruim
letra do autor no faa mal  sua prosa. No, senhor; as palavras de Santos
saram de atropelo, umas sobre outras, embrulhadas, sem princpio ou sem fim. A
bela esposa tinha j as orelhas to afeitas ao falar do marido, mormente em
lances de emoo ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que no. A
cabea e o dedo sublinhavam a negativa. Santos no teve remdio e despediu-se.

Em caminho, advertiu que, no
crendo na cabocla, era ocioso instar pela predio. Era mais; era dar razo 
mulher. Prometeu no indagar nada quando voltasse. No prometeu esquecer, e da
a teima com que pensou muitas vezes no orculo. De resto, elas lhe diriam tudo
sem que ele perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.

No concluas daqui que os
fregueses do banco padecessem alguma desateno aos seus negcios. Tudo correu
bem, como se ele no tivesse mulher nem filhos ou no houvesse Castelo nem
cabocla. No era s a mo que fazia o seu ofcio, assinando; a boca ia falando,
mandando, chamando e rindo, se era preciso. No obstante, a nsia existia e as
figuras passavam e repassavam diante dele; no intervalo de duas letras, Santos
resolvia uma coisa ou outra, se no eram ambas a um tempo. Entrando no carro, 
tarde, agarrou-se inteiramente ao orculo. Trazia as mos sobre o casto, a
bengala entre os joelhos, como de manh, mas vinha pensando no destino dos
filhos.

Quando chegou a casa, viu
Natividade a contemplar os meninos, ambos nos beros, as amas ao p, um pouco
admiradas da insistncia com que ela os procurava desde manh. No era s
fit-los, ou perder os olhos no espao e no tempo; era beij-los tambm e
apert-los ao corao. Esqueceu-me dizer que, de manh, Perptua mudou primeiro
de roupa que a irm e foi ach-la diante dos beros, vestida como viera do
Castelo.

 Logo vi que voc estava com os
grandes homens, disse ela.

 Estou, mas no sei em que  que
eles sero grandes.

 Seja em que for, vamos almoar.

Ao almoo e durante o dia, falaram
muita vez da cabocla e da predio. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade
leu-lhe a dissimulao nos olhos. Quis calar e esperar, mas estava to ansiosa
de lhe dizer tudo, e era to boa, que resolveu o contrrio. Unicamente no teve
o tempo de cumpri-lo; antes mesmo de comear, j ele acabava de perguntar o que
era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; descreveu a
cabocla e o pai.

 Mas ento grandes destinos?

 Coisas futuras, repetiu ela.

 Seguramente futuras. S a
pergunta da briga  que no entendo. Brigar por qu? E brigar como? E teriam
deveras brigado?

Natividade recordou os seus
padecimentos do tempo da gestao, confessando que no falou mais deles para o
no afligir; naturalmente  o que a outra adivinhou que fosse briga.

 Mas briga por qu?

 Isso no sei, nem creio que
fosse nada mau.

 Vou consultar...

 Consultar a quem?

 Uma pessoa.

 J sei, o seu amigo Plcido.

 Se fosse s amigo no
consultava, mas ele  o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida,
dada pelo Cu... Consulto s por hiptese, no digo os nossos nomes...

 No! no! no!

 S por hiptese.

 No, Agostinho, no fale disto.
No interrogue ningum a meu respeito, ouviu? Ande, prometa que no falar
disto a ningum, espritas nem amigos. O melhor  calar. Basta saber que tero
sorte feliz. Grandes homens, coisas futuras... Jure, Agostinho.

 Mas voc no foi em pessoa 
cabocla?

 No me conhece, nem de nome;
viu-me uma vez, no me tornar a ver. Ande, jure!

 Voc  esquisita. V l,
prometo. Que tem que falasse, assim, por acaso?

 No quero. Jure!

 Pois isto  coisa de juramento?

 Sem isso, no confio, disse ela
sorrindo.

 Juro.

 Jure por Deus Nosso Senhor!

 Juro por Deus Nosso Senhor!

CAPTULO XI

UM CASO NICO!

Santos cria na santidade do
juramento; por isso, resistiu, mas enfim cedeu e jurou. Entretanto, o
pensamento no lhe saiu mais da briga uterina dos filhos. Quis esquec-la.
Jogou essa noite, como de costume; na seguinte, foi ao teatro; na outra a uma
visita; e tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com ele. Era um
mistrio. Talvez fosse um caso nico... nico! Um caso nico! A singularidade
do caso f-lo agarrar-se mais  idia, ou a idia a ele; no posso explicar
melhor este fenmeno ntimo, passado l onde no entra olho de homem, nem
bastam reflexes ou conjeturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro
domingo, Santos pegou em si, e foi  casa do Doutor Plcido, Rua do Senador
Vergueiro, uma casa baixa, de trs janelas, com muito terreno para o lado do
mar. Creio que j no exista: datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho,
para diferenar do Caminho Novo.

Perdoa estas mincias. A ao
podia ir sem elas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo
que ali havia uma espcie de clube, templo ou que quer que era esprita.
Plcido fazia de sacerdote e presidente a um tempo. Era um velho de grandes barbas,
olho azul e brilhante, enfiado em larga camisola de seda. Pe-lhe uma vara na
mo, e fica um mgico, mas, em verdade, as barbas e a camisola no as trazia
por lhe darem tal aspecto. Ao contrrio de Santos, que teria trocado dez vezes
a cara, se no fora a oposio da mulher, Plcido usava as barbas inteiras
desde moo e a camisola h dez anos.

 Venha, venha, disse ele, ande
ajudar-me a converter o nosso amigo Aires; h meia hora que procuro incutir-lhe
as verdades eternas, mas ele resiste.

 No, no, no resisto, acudiu um
homem de cerca de quarenta anos, estendendo a mo ao recm-chegado.

CAPTULO XII

ESSE AIRES

Esse Aires que a aparece conserva
ainda agora algumas das virtudes daquele tempo, e quase nenhum vcio. No
atribuas tal estado a qualquer propsito. Nem creias que vai nisto um pouco de
homenagem  modstia da pessoa. No, senhor,  verdade pura e natural efeito.
Apesar dos quarenta anos, ou quarenta e dois, e talvez por isso mesmo, era um
belo tipo de homem. Diplomata de carreira, chegara dias antes do Pacfico, com
uma licena de seis meses.

No me demoro em descrev-lo. Imagina s que trazia o calo do ofcio, o sorriso aprovador, a fala brande e
cautelosa, o ar da ocasio, a expresso adequada, tudo to bem distribudo que
era um gosto ouvi-lo e v-lo. Talvez a pele da cara rapada estivesse prestes a
mostrar os primeiros sinais do tempo. Ainda assim o bigode, que era moo na cor
e no apuro com que acabava em ponta fina e rija, daria um ar de frescura ao
rosto, quando o meio sculo chegasse. O mesmo faria o cabelo, vagamente
grisalho, apartado ao centro. No alto da cabea havia um incio de calva. Na
botoeira uma flor eterna.

Tempo houve,  foi por ocasio da
anterior licena, sendo ele apenas secretrio de legao,  tempo houve em que
tambm ele gostou de Natividade. No foi propriamente paixo; no era homem
disso. Gostou dela, como de outras jias e raridades, mas to depressa viu que
no era aceito, trocou de conversao. No era frouxido ou frieza. Gostava
assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questo para ele  que nem as
queria  fora, nem curava de as persuadir. No era general para escala 
vista, nem para assdios demorados; contentava-se de simples passeios
militares,  longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em suma,
extremamente cordato.

Coincidncia interessante: foi por
esse tempo que Santos pensou em cas-lo com a cunhada, recentemente viva. Esta
parece que queria. Natividade ops-se, nunca se soube por qu. No eram cimes;
invejas no creio que fossem. O simples desejo de o no ver entrar na famlia
pela porta lateral  apenas uma figura, que vale qualquer das primeiras
hipteses negadas. O desgosto de ced-lo a outra, ou t-los felizes ao p de
si, no podia ser, posto que o corao seja o abismo dos abismos. Suponhamos
que era com o fim de o punir por hav-la amado.

Pode ser; em todo caso, o maior
obstculo viria dele mesmo. Posto que vivo, Aires no foi propriamente casado.
No amava o casamento. Casou por necessidade do ofcio; cuidou que era melhor
ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moa que lhe pareceu
adequada ao seu destino. Enganou-se; a diferena de temperamento e de esprito
era tal que ele, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse s. No se
afligiu com a perda; tinha o feitio do solteiro.

Era cordato, repito, embora esta
palavra no exprima exatamente o que quero dizer. Tinha o corao disposto a
aceitar tudo, no por inclinao  harmonia, seno por tdio  controvrsia.
Para conhecer esta averso, bastava t-lo visto entrar, antes, em visita ao
casal Santos. Pessoas de fora e da famlia conversavam da cabocla do Castelo.

 Chega a propsito, conselheiro,
disse Perptua. Que pensa o senhor da cabocla do Castelo?

Aires no pensava nada, mas
percebeu que os outros pensavam alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos.
Como insistissem, no escolheu nenhuma das duas opinies, achou outra, mdia,
que contentou a ambos os lados, coisa rara em opinies mdias. Sabes que o
destino delas  serem desdenhadas. Mas este Aires,  Jos da Costa Marcondes
Aires,  tinha que nas controvrsias uma opinio dbia ou mdia pode trazer a
oportunidade de uma plula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo, se
no sarava, no morria, e  o mais que fazem plulas. No lhe queiras mal por
isso; a droga amarga engole-se com acar. Aires opinou com pausa, delicadeza,
circunlquios, limpando o monculo ao leno de seda, pingando as palavras a
graves e obscuras, fitando os olhos no ar, como quem busca uma lembrana, e
achava a lembrana, e arredondava com ela o parecer. Um dos ouvintes aceitou-o
logo, outro divergiu um pouco e acabou de acordo, assim terceiro, e quarto, e a
sala toda.

No cuides que no era sincero,
era-o. Quando no acertava de ter a mesma opinio, e valia a pena escrever a
sua, escrevia-a. Usava tambm guardar por escrito as descobertas, observaes,
reflexes, crticas e anedotas, tendo para isso uma srie de cadernos, a que
dava o nome de Memorial. Naquela noite escreveu estas linhas:

Noite em casa da famlia Santos,
sem voltarete. Falou-se na cabocla do Castelo. Desconfio que Natividade ou a
irm quer consult-la; no ser decerto a meu respeito.

Natividade e um Padre Guedes que
l estava, gordo e maduro, eram as nicas pessoas interessantes da noite. O
resto inspido, mas inspido por necessidade, no podendo ser outra coisa mais
que inspido. Quando o padre e Natividade me deixavam entregue  insipidez dos
outros, eu tentava fugir-lhe pela memria, recordando sensaes, revivendo
quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi, a quem vi hoje
pelas costas, na Rua da Quitanda. Conheci-a aqui no finado Hotel de D. Pedro,
l vo anos. Era danarina; eu mesmo j a tinha visto danar em Veneza. Pobre Capponi! Andando, o p esquerdo saa-lhe do sapato e mostrava no calcanhar da
meia um buraquinho de saudade.

Afinal tornei  eterna insipidez
dos outros. No acabo de crer como  que esta senhora, alis to fina, pode
organizar noites como a de hoje. No  que os outros no buscassem ser
interessantes, e, se intenes valessem, nenhum livro os valeria; mas no o
eram, por mais que tentassem. Enfim, l vo; esperemos outras noites que tragam
melhores sujeitos sem esforo algum. O que o bero d s a cova o tira, diz um
velho adgio nosso. Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever de tais
inspidos:

Dico, che quando l'anima mal
nata...

CAPTULO XIII

A EPGRAFE

Ora, a est justamente a epgrafe
do livro, se eu lhe quisesse pr alguma, e no me ocorresse outra. No 
somente um meio de completar as pessoas da narrao com as idias que deixarem,
mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos
claro ou totalmente escuro.

Por outro lado, h proveito em
irem as pessoas da minha histria colaborando nela, ajudando o autor, por uma
lei de solidariedade, espcie de troca de servios, entre o enxadrista e os
seus trabalhos.

Se aceitas a comparao,
distinguirs o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer
de torre, nem a torre de peo. H ainda a diferena da cor, branca e preta, mas
esta no tira o poder da marcha de cada pea, e afinal umas e outras podem
ganhar a partida, e assim vai o mundo. Talvez conviesse pr aqui, de quando em
quando, como nas publicaes do jogo, um diagrama das posies belas ou
difceis. No havendo tabuleiro,  um grande auxlio este processo para
acompanhar os lances, mas tambm pode ser que tenhas viso bastante para
reproduzir na memria as situaes diversas. Creio que sim. Fora com diagramas!
Tudo ir como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou
mais claramente, entre Deus e o Diabo.

CAPTULO XIV

A LIO DO DISCPULO

 Fique, fique, conselheiro, disse Santos apertando a
mo ao diplomata. Aprenda as verdades eternas.

 Verdades eternas pedem horas
eternas, ponderou este, consultando o relgio.

Um tal Aires no era fcil de
convencer. Plcido falou-lhe de leis cientficas para excluir qualquer mcula
de seita, e Santos foi com ele. Toda a terminologia esprita saiu fora, e mais
os casos, fenmenos, mistrios, testemunhos, atestados verbais e escritos...
Santos acudiu com um exemplo: dois espritos podiam tornar juntos a este mundo;
e, se brigassem antes de nascer?

 Antes de nascer, crianas no
brigam, replicou Aires, temperando o sentido afirmativo com a entonao
dubitativa.

 Ento nega que dois
espritos?... Essa c me fica, conselheiro! Pois que impede que dois
espritos?...

Aires viu o abismo da
controvrsia, e forrou-se  vertigem por uma concesso, dizendo:

 Esa e Jac brigaram no seio
materno, isso  verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado
que briguem tambm, tudo est em saber a causa do conflito, e no a sabendo,
porque a Providncia a esconde da notcia humana... Se fosse uma causa
espiritual, por exemplo...

 Por exemplo?

 Por exemplo, se as duas crianas
quiserem ajoelhar-se ao mesmo tempo para adorar o Criador. A est um caso de
conflito, mas de conflito espiritual, cujos processos escapam  sagacidade
humana. Tambm poderia ser um motivo temporal. Suponhamos a necessidade de se
acotovelarem para ficar melhor acomodados;  uma hiptese que a cincia
aceitaria; isto , no sei... H ainda o caso de quererem ambos a
primogenitura.

 Para qu? perguntou Plcido.

 Conquanto este privilgio esteja
hoje limitado s famlias rgias,  Cmara dos lordes e no sei se mais,
tem todavia um valor simblico. O simples gosto de nascer primeiro, sem outra
vantagem social ou poltica, pode dar-se por instinto, principalmente se as
crianas se destinarem a galgar os altos deste mundo.

Santos afiou o ouvido neste ponto,
lembrando-se das 'coisas futuras'. Aires disse ainda algumas palavras
bonitas, e acrescentou outras feias, admitindo que a briga podia ser prenncio
de graves conflitos na Terra; mas logo temperou esse conceito com este outro:

 No importa; no esqueamos o
que dizia um antigo, que 'a guerra  a me de todas as coisas'. Na
minha opinio, Empdocles, referindo-se  guerra, no o fez s no sentido
tcnico. O amor, que  a primeira das artes da paz, pode-se dizer que  um
duelo, no de morte, mas de vida,  concluiu Aires sorrindo leve, como falava
baixo, e despediu-se.

CAPTULO XV

TESTE DAVID CUM SIBYLLA

 E ento? disse Santos. No  que
o conselheiro, em vez de aprender, ensina-nos? Eu acho que ele deu algumas
razes boas.

 Quando menos, plausveis,
completou mestre Plcido.

 Foi pena que se despedisse,
continuou Santos, mas felizmente o meu caso  com o senhor. Venho consult-lo,
e as suas luzes so as verdadeiras do mundo.

Plcido agradeceu sorrindo. No
era novo o elogio, ao contrrio; mas ele estava to acostumado a ouvi-lo que o
sorriso era j agora um sestro. No podia deixar de pagar com essa moeda aos
seus discpulos.

 Trata-se...

 Trata-se disto. Aquela histria
que eu formulei  um fato real; sucedeu com os meus filhos...

 Como?

  o que me parece, e vim
justamente para que me explique. Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo,
mas tenho pensado, e suspeito que tal briga se deu, e que  um caso
extraordinrio.

Santos exps ento a consulta,
gravemente, com um gesto particular que tinha de arregalar os olhos para
arregalar a novidade. No esqueceu nem escondeu nada; contou a prpria ida da
mulher ao Castelo, com desdm,  verdade, mas ponto por ponto. Plcido ouvia
atento, perguntando, voltando atrs, e acabou por meditar alguns minutos.
Enfim, declarou que o fenmeno, caso se houvesse dado, era raro, se no nico,
mas possvel. J o fato de se chamarem Pedro e Paulo indicava alguma
rivalidade, porque esses dois apstolos brigaram tambm.

 Perdo, mas o batismo...

 Foi posterior, sei, mas os nomes
podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veio, como o
senhor me disse, por inspirao  tia dos meninos.

 Justamente.

 D. Perptua  muito devota.

 Muito.

 Creio que os prprios espritos
de So Pedro e So Paulo houvessem escolhido aquela senhora para inspirar os
nomes que esto no Credo; advirta que ela reza muitas vezes o Credo, mas foi
naquela ocasio que se lembrou deles.

 Exato, exato!

O doutor foi  estante e tirou uma
Bblia, encadernada em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epstola de
So Paulo aos Glatas, e leu a passagem do captulo II, versculo 11, em
que o apstolo conta que, indo a Antioquia, onde estava So Pedro,
'resistiu-lhe na cara'.

Santos leu e teve uma idia. As
idias querem-se festejadas, quando so belas, e examinadas, quando novas; a
dele era a um tempo nova e bela. Deslumbrado, ergueu a mo e deu uma palmada na
folha, bradando:

 Sem contar que este nmero onze
do versculo, composto de dois algarismos iguais, 1 e 1,  um nmero gmeo, no
lhe parece?

 Justamente. E mais: o captulo 
o segundo, isto , dois, que  o prprio nmero dos irmos gmeos.

Mistrio engendra mistrio. Havia
mais de um elo ntimo, substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e
Paulo, irmos gmeos, nmeros gmeos, tudo eram guas de mistrio que eles
agora rasgavam, nadando e bracejando com fora. Santos foi mais ao fundo; no
seriam os dois meninos os prprios espritos de So Pedro e de So Paulo, que
renasciam agora, e ele, pai dos dois apstolos?... A f transfigura; Santos
tinha um ar quase divino, trepou em si mesmo, e os olhos, ordinariamente sem
expresso, pareciam entornar a chama da vida. Pai de apstolos! e que apstolos!
Plcido esteve quase, quase a crer tambm, achava-se dentro de um mar torvo,
soturno, onde as vozes do infinito se perdiam, mas logo lhe acudia que os
espritos de So Pedro e So Paulo tinham chegado  perfeio; no tornariam
c. No importa; seriam outros, grandes e nobres. Os seus destinos podiam ser
brilhantes; tinha razo a cabocla, sem saber o que dizia.

 Deixe s senhoras as suas
crenas da meninice, concluiu; se elas tm f na tal mulher do Castelo, e acham
que  um veculo de verdade, no as desminta por hora. Diga-lhes que eu estou
de acordo com o seu orculo. Teste David cum Sibylla.

 Digo, digo! escreva a frase.

Plcido foi  secretria, escreveu
o verso, e deu-lhe o papel, mas j ento Santos advertira que mostr-lo 
mulher era confessar a consulta esprita, e naturalmente o perjrio. Referiu ao
amigo os escrpulos de Natividade e pediu que calassem tudo.

 Estando com ela, no lhe diga o
que se passou entre ns.

Saiu logo depois, arrependido da
indiscrio, mas deslumbrado da revelao. Ia cheio de nmeros da Escritura, de
Pedro e Paulo, de Esa e Jac. O ar da rua no espanou a poeira do mistrio; ao
contrrio, o cu azul, a praia sossegada, os montes verdes como que o cercavam
e cobriam de um vu mais transparente e infinito. A rixa dos meninos, fato raro
ou nico, era uma distino divina. Contrariamente  esposa, que cuidava
somente da grandeza futura dos filhos, Santos pensava no conflito passado.

Entrou em casa, correu aos
pequenos, e acarinhou-os com to estranha expresso, que a me desconfiou
alguma coisa, e quis saber o que era.

 No  nada, respondeu ele rindo.

  alguma coisa, anda, acaba.

 Que h de ser?

 Seja o que for, Agostinho,
acaba.

Santos pediu-lhe que se no
zangasse, e contou tudo, a sorte, a rixa, a Escritura, os apstolos, o smbolo,
tudo to espalhadamente, que ela mal pde entender, mas entendeu ao final, e
replicou com os dentes cerrados:

 Ah! voc! voc!

 Perdoa, amiguinha; estava to
ansioso de saber a verdade... E nota que eu creio na cabocla, e o doutor
tambm; ele at me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o
papelzinho: Teste David cum Sibylla.

CAPTULO XVI

PATERNALISMO

Da a pouco, Santos pegou na mo
da mulher, que a deixou ir  toa, sem apertar a dele; ambos fitavam os meninos,
tendo esquecido a zanga para s ficarem pais.

J no era espiritismo, nem outra
religio nova; era a mais velha de todas, fundada por Ado e Eva,  qual chama,
se queres, paternalismo. Rezavam sem palavras, persignavam-se sem dedos, uma
espcie de cerimnia quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual
deles era o padre, qual o sacristo, no sei, nem  preciso. A missa  que era
a mesma, e o evangelho comeava como o de So Joo (emendado): 'No princpio
era o amor, e o amor se fez carne'. Mas venhamos aos nossos gmeos.

CAPTULO XVII

TUDO O QUE RESTRINJO

Os gmeos, no tendo que fazer,
iam mamando. Nesse ofcio portavam-se sem rivalidade, a no ser quando as amas
estavam s boas, e eles mamavam ao p um do outro; cada qual ento parecia
querer mostrar que mamava mais e melhor, passeando os dedos pelo seio amigo, e
chupando com alma. Elas,  sua parte, tinham glria dos peitos e os comparavam
entre si; os pequenos, fartos, soltavam afinal os bicos e riam para elas.

Se no fosse a necessidade de pr
os meninos em p, crescidos e homens, espraiava este captulo. Realmente, o
espetculo, posto que comum, era belo. Os peraltas nutriam-se ao contrrio dos
pais, sem as artes do cozinheiro, nem a vista das comidas e bebidas, todas
postas em cristais e porcelanas para emendar ou colorir a dura necessidade de
comer. A eles nem se lhes via a comida; a boca ligada ao peito no deixava
aparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso ou pelo sono. Quando
era o sono, cada uma levava o seu menino ao bero, e ia cuidar de outra coisa.
Este cotejo dar-me-ia trs ou quatro pginas slidas.

Uma pgina bastava para os
chocalhos que embelezavam os pequenos, como se fosse a prpria msica do Cu.
Eles sorriam, estendiam as mos, alguma vez zangavam-se com as negaas, mas
tanto que lhos davam, calavam-se, e se no podiam tocar no se zangavam por
isso. A propsito de chocalhos, diria que esses instrumentos no deixam memria
de si; algum que os veja em mos de crianas, se parecer que lhe lembram os
seus, cai logo no engano, e adverte que a recordao h de ser mais recente,
alguma arenga do ano passado, se no foi a vaca de leite da vspera.

A operao de desmamar podia
fazer-se em meia linha, mas as lstimas das amas, as despedidas, as bichas de
ouro que a me deu a cada uma delas, como um presente final, tudo isso exigia
uma boa pgina ou mais. Poucas linhas bastariam para as amas-secas, porquanto
no diria se eram altas nem baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do
ofcio, amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavalinhos de pau,
bandeirolas, teatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia da
infncia ocuparia muito mais que o lugar de seus nomes.

Tudo isso restrinjo s para no
enfadar a leitora curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos
v-los, querida. Com pouco, esto crescidos e fortes. Depois, entrego-os a si
mesmos; eles que abram a ferro ou lngua, ou simples cotovelos, o caminho da
vida e do mundo.

CAPTULO XVIII

DE COMO VIERAM
CRESCENDO

Ei-los que vm crescendo. A
semelhana, sem os confundir j, continuava a ser grande. Os mesmos olhos
claros e atentos, a mesma boca cheia de graa, as mos finas, e uma cor viva
nas faces que as fazia crer pintadas de sangue. Eram sadios; excetuada a crise
dos dentes, no tiveram molstia alguma, porque eu no conto uma ou outra
indigesto de doces, que os pais lhes davam, ou eles tiravam s escondidas.
Eram ambos gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ningum.

Aos sete anos eram duas
obras-primas, ou antes uma s em dois volumes, como quiseres. Em verdade, no
havia por toda aquela praia, nem por Flamengos ou Glrias, Cajus e outras
redondezas, no havia uma, quanto mais duas crianas to graciosas. Nota que
eram tambm robustos. Pedro com um murro derrubava Paulo; em compensao, Paulo
com um pontap deitava Pedro ao cho. Corriam muito na chcara por aposta.
Alguma vez quiseram trepar s rvores, mas a me no consentia; no era bonito.
Contentavam-se de espiar c de baixo a fruta.

Paulo era mais agressivo, Pedro
mais dissimulado, e, como ambos acabavam por comer a fruta das rvores, era um
moleque que a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro.
A promessa no se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado, cumpria-se
sempre, e s vezes com repetio depois do servio. No digo com isto que um e
outro dos gmeos no soubessem agredir e dissimular; a diferena  que cada um
sabia melhor o seu gosto, coisa to bvia que custa escrever.

Obedeciam aos pais sem grande
esforo, posto fossem teimosos. Nem mentiam mais que outros meninos da cidade.
Ao cabo, a mentira  alguma vez meia virtude. Assim  que, quando eles disseram
no ter visto furtar um relgio da me, presente do pai, quando eram noivos,
mentiram conscientemente, porque a criada que o tirou foi apanhada por eles em
plena ao de furto. Mas era to amiga deles! e com tais lgrimas lhes pediu
que no dissessem a ningum, que os gmeos negaram absolutamente ter visto
nada. Contavam sete anos. Aos nove, quando j a moa ia longe,  que
descobriram, no sei a que propsito, o caso escondido. A me quis saber por
que  que eles calaram outrora; no souberam explicar-se, mas  claro que o
silncio de l878 foi obra da afeio e da piedade, e da a meia virtude, porque
 alguma coisa pagar amor com amor. Quanto  revelao de 1880 s se pode
explicar pela distncia do tempo. J no estava presente a boa Miquelina;
talvez j estivesse morta. Demais, veio to naturalmente a referncia...

 Mas, por que  que vocs at
agora no me disseram? teimava a me.

No sabendo mais que razo dessem,
um deles, creio que Pedro, resolveu acusar o irmo:

 Foi ele, mame!

 Eu? redargiu Paulo. Foi ele,
mame, ele  que no disse nada.

 Foi voc!

 Foi voc! No minta!

 Mentiroso  ele!

Cresceram um para o outro.
Natividade acudiu prestemente, no tanto que impedisse a troca dos primeiros
murros. Segurou-lhe os braos a tempo de evitar outros, e, em vez de os
castigar ou ameaar, beijou-os com tamanha ternura que eles no acharam melhor
ocasio de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram tambm um passeio,  tarde, no
carrinho do pai.

Na volta estavam amigos ou
reconciliados. Contaram  me o passeio, a gente da rua, as outras crianas que
olhavam para eles com inveja, uma que metia o dedo na boca, outra no nariz, e
as moas que estavam s janelas, algumas que os acharam bonitos. Neste ltimo
ponto divergiam, porque cada um deles tomava para si s as admiraes, mas a
me interveio:

 Foi para ambos. Vocs so to
parecidos, que no podia ser seno para ambos. E sabem por que  que as moas
elogiaram vocs? Foi por ver que iam amigos, chegadinhos um ao outro. Meninos
bonitos no brigam, ainda menos sendo irmos. Quero v-los quietos e amigos,
brincando juntos sem rusga nem nada. Esto entendendo?

Pedro respondeu que sim; Paulo
esperou que a me repetisse a pergunta, e deu igual resposta. Enfim, porque
esta mandasse, abraaram-se, mas foi um abraar sem gosto, sem fora, quase sem
braos; encostaram-se um ao outro, estenderam as mos s costas do irmo, e
deixaram-nas cair.

De noite, na alcova, cada um deles
concluiu para si que devia os obsquios daquela tarde, o doce, os beijos e o
carro,  briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais. Sem
palavras, como um romance ao piano, resolveram ir  cara um do outro, na
primeira ocasio. Isto que devia ser um lao armado  ternura da me, trouxe ao
corao de ambos uma sensao particular, que no era s consolo e desforra do
soco recebido naquele dia, mas tambm satisfao de um desejo ntimo, profundo,
necessrio. Sem dio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama, riram de
uma ou outra lembrana da rua, at que o sono entrou com os seus ps de l e
bico calado, e tomou conta da alcova inteira.

CAPTULO XIX

APENAS DUAS.  QUARENTA
ANOS. TERCEIRA CAUSA

Um dos meus propsitos neste livro
 no lhe pr lgrimas. Entretanto, no posso calar as duas que rebentaram
certa vez dos olhos de Natividade, depois de uma rixa dos pequenos. Apenas
duas, e foram morrer-lhe aos cantos da boca. To depressa as verteu como as
engoliu, renovando s avessas e por palavras mudas o fecho daquelas histrias
de crianas: 'entrou por uma porta, saiu pela outra, manda el-rei nosso
senhor que nos conte outra'. E a segunda criana contava segunda histria,
a terceira terceira, a quarta quarta, at que vinha o fastio ou o sono. Pessoas
que datam do tempo em que se contavam tais histrias afirmam que as crianas
no punham naquela frmula nenhuma f monrquica, fosse absoluta, fosse
constitucional; era um modo de ligar o seu Decameron delas, herdado do
velho reino portugus, quando os reis mandavam o que queriam, e a nao dizia
que era muito bem.

Engolidas as duas lgrimas,
Natividade riu da prpria fraqueza. No se chamou tola, porque esses desabafos
raramente se usam, ainda em particular; mas no secreto do corao, l muito ao
fundo, onde no penetra olho de homem, creio que sentiu alguma coisa parecida
com isso. No tendo prova clara, limito-me a defender a nossa dama.

Em verdade, qualquer outra viveria
a tremer pela sorte dos filhos, uma vez que houvera a rixa anterior e interior.
Agora as lutas eram mais freqentes, as mos cada vez mais aptas, e tudo fazia
recear que eles acabassem estripando-se um ao outro... Mas aqui surgia a idia
da grandeza e da prosperidade,  coisas futuras!  e esta esperana era como um
leno que enxugasse os olhos da bela senhora. As Sibilas no tero dito s do
mal, nem os Profetas, mas ainda do bem, e principalmente dele.

Com esse leno verde enxugou ela
os olhos, e teria outros lenos, se aquele ficasse roto ou enxovalhado; um, por
exemplo, no verde como a esperana, mas azul, como a alma dela. Ainda lhes no
disse que a alma de Natividade era azul. A fica. Um azul celeste, claro e
transparente, que alguma vez se embruscava, raro tempestuava, e nunca a noite
escurecia.

No, leitor, no me esqueceu a idade
da nossa amiga; lembra-me como se fosse hoje. Chegou assim aos quarenta anos.
No importa; o cu  mais velho e no trocou de cor. Uma vez que lhe no
atribuas ao azul da alma nenhuma significao romntica, ests na conta. Quando
muito, no dia em que perfez aquela idade, a nossa dona sentiu um calafrio. Que
passara? Nada, um dia mais que na vspera, algumas horas apenas. Toda uma
questo de nmero, menos que nmero, o nome do nmero, esta palavra quarenta,
eis o mal nico. Da a melancolia com que ela disse ao marido, agradecendo o
mimo do aniversrio: 'Estou velha, Agostinho!' Santos quis esgan-la
brincando.

Pois faria mal se a esganasse.
Natividade ainda tinha as formas do tempo anterior  concepo, a mesma
flexibilidade, a mesma graa mida e viva. Conservava o donaire dos trinta. A
costureira punha em relevo todos os pensamentos restantes da figura, e ainda
lhe emprestava alguns do seu bolsinho. A cintura teimava em no querer
engrossar, e os quadris e o colo eram do mesmo estofador antigo.

H dessas regies em que o vero
se confunde com o outono, como se d na nossa terra, onde as duas estaes s
diferem pela temperatura. Nela nem pela temperatura. Maio tinha o calor de
janeiro. Ela, aos quarenta anos, era a mesma senhora verde, com a mesmssima
alma azul.

Esta cor vinha-lhe do pai e do
av, mas o pai morreu cedo, antes do av, que chegara aos oitenta e quatro.
Nessa idade cria sinceramente que todas as delcias deste mundo, desde o caf
de manh at os sonos sossegados, haviam sido inventados somente para ele. O
melhor cozinheiro da Terra nascera na China, para o nico fim de deixar
famlia, ptria, lngua, religio, tudo, e vir assar-lhe as costeletas e
fazer-lhe o ch. As estrelas davam s suas noites um aspecto esplndido,
o luar tambm, e a chuva, se chovia, era para que ele descansasse do sol. L
est agora no cemitrio de So Francisco Xavier; se algum pudesse ouvir a voz
dos mortos, dentro das sepulturas, ouviria a ele, bradando que  tempo de
fechar a porta ao cemitrio e no deixar entrar ningum, uma vez que ele j l
descansa para todo sempre. Morreu azul; se chegasse aos cem anos, no teria
outra cor.

Ora, se a natureza queria poupar
esta senhora, a riqueza dava a mo  natureza, e de uma e de outra saa a mais
bela cor que alma de gente pode ter. Tudo concorria assim para lhe secarem os
olhos depressa, como vimos atrs. Se ela bebeu aquelas duas lgrimas
solitrias, pudera ter bebido outras pela idade adiante, e isto  ainda uma
prova daquele matiz espiritual; mostrar assim que as tem poucas, e engole-as
para poup-las.

Mas h ainda uma terceira causa
que dava a esta senhora o sentimento da cor azul, causa to particular que
merecia ir em captulo seu, mas no vai, por economia. Era a iseno, era o ter
atravessado a vida intacta e pura. O Cabo das Tormentas converteu-se em Cabo da
Boa Esperana, e ela venceu a primeira e a segunda mocidade, sem que os ventos
lhe derribassem a nau, nem as ondas a engolissem. No negaria que alguma lufada
mais rija pudera levar-lhe a vela do traquete, como no caso de Joo de Melo, ou
ainda pior, no de Aires, mas foram bocejos de Adamastor. Consertou a vela
depressa e o gigante ficou atrs cercado de Ttis, enquanto ela seguiu o
caminho da ndia. Agora lembrava-se da viagem prspera. Honrava-se dos ventos
inteis e perdidos. A memria trazia-lhe o sabor do perigo passado. Es aqui a
terra encoberta, os dois filhos nados, criados e amados da fortuna.

CAPTULO XX

A JIA

Os quarenta e um anos no lhe
trouxeram arrepio. J estava acostumada  casa dos quarenta. Sentiu sim, um
grande espanto; acordou e no viu o presente do costume, a 'surpresa'
do marido ao p da cama. No o achou no toucador; abriu gavetas, espiou, nada.
Creu que o marido esquecera a data e ficou triste; era a primeira vez! Desceu olhando;
nada. No gabinete estava o marido, calado, metido consigo, a ler jornais, mal
lhe estendeu a mo. Os rapazes, apesar de ser domingo, estudavam a um canto;
vieram dar-lhe o beijo do costume e tornaram aos livros. A me ainda relanceou
os olhos pelo gabinete, a ver se achava algum mimo, um painel, um vestido, foi
tudo vo. Embaixo de uma das folhas do dia que estava na cadeira fronteira  do
marido podia ser que... Nada. Ento sentou-se, e, abrindo a folha, ia dizendo
consigo: 'Ser possvel que no se lembre do dia de hoje? Ser
possvel?' Os olhos entraram a ler  toa, saltando as notcias, tornando
atrs...

Defronte o marido espreitava a
mulher, sem absolutamente importar-lhe o que parecia ler. Assim se passaram
alguns minutos. De repente, Santos viu uma expresso nova no rosto de
Natividade; os olhos dela pareciam crescer, a boca entreabriu-se, a cabea
ergueu-se, a dele tambm, ambos deixaram a cadeira, deram dois passos e caram
nos braos um do outro, como dois namorados desesperados de amor. Um, dois,
trs, muitos beijos. Pedro e Paulo, espantados, estavam ao canto, de p. O pai,
quando pde falar, disse-lhes:

 Venham beijar a mo da Senhora
Baronesa de Santos.

No entenderam logo. Natividade
no sabia que fizesse; dava a mo aos filhos, ao marido, e tornava ao jornal
para ler e reler que no despacho imperial da vspera o Sr. Agostinho Jos dos
Santos fora agraciado com o ttulo de Baro de Santos. Compreendeu tudo. O
presente do dia era aquele; o ourives desta vez foi o imperador.

 Vo, vo, agora podem ir
brincar, disse o pai aos filhos.

E os rapazes saram a espalhar a
notcia pela casa. Os criados ficaram felizes com a mudana dos amos. Os
prprios escravos pareciam receber uma parcela de liberdade e condecoravam-se
com ela: 'Nh Baronesa!' exclamavam saltando. E Joo puxava Maria,
batendo castanholas com os dedos: 'Gente, quem  esta crioula? Sou escrava
de Nh Baronesa!

Mas o imperador no foi o nico
ourives; Santos tirou do bolso uma caixinha, com um broche em que a coroa nova
rutilava de brilhantes. Natividade agradeceu-lhe a jia e consentiu em p-la,
para que o marido a visse. Santos sentia-se autor da jia, inventor da forma e
das pedras; mas deixou logo que ela a tirasse e guardasse, e pegou das gazetas,
para lhe mostrar que em todas vinha a notcia, algumas com adjetivo, conceituado
aqui, ali distinto, etc.

Quando Perptua entrou no
gabinete, achou-os andando de um lado para outro, com os braos passados pela
cintura, conversando, calando, mirando os ps. Tambm ela deu e recebeu
abraos.

Toda a casa estava alegre. Na
chcara as rvores pareciam mais verdes que nunca, os botes do jardim
explicavam as folhas, e o sol cobria a terra de uma claridade infinita. O cu,
para colaborar com o resto, ficou azul o dia inteiro. Logo cedo entraram a vir
cartes e cartas de parabns. Mais tarde visitas. Homens do foro, homens do
comrcio, homens de sociedade, muitas senhoras, algumas titulares tambm,
vieram ou mandaram. Devedores de Santos acudiram depressa, outros preferiram
continuar o esquecimento. Nomes houve que eles s puderam reconhecer  fora de
grande pesquisa e muito almanaque.

CAPTULO XXI

UM PONTO ESCURO

Sei que h um ponto escuro no
captulo que passou; escrevo este para esclarec-lo.

Quando a esposa inquiriu dos
antecedentes e circunstncias do despacho, Santos deu as explicaes pedidas.
Nem todas seriam estritamente exatas; o tempo  um rato roedor das coisas, que
as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto. Demais, a matria
era to propcia ao alvoroo, que facilmente traria confuso  memria. H, nos
mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a
imaginao inventa para suprir os perdidos, e nem por isso a histria morre.

Resta saber ( o ponto escuro)
como  que Santos pde calar por longos dias um negcio to importante para ele
e para a esposa. Em verdade, esteve mais de uma vez a dizer por palavra ou por
gesto, se achasse algum, aquele segredo de poucos; mas, sempre havia uma fora
maior que lhe tapava a boca. Ao que parece, foi a expectao de uma alegria
nova e inesperada que lhe deu a alma de pacientar. Naquela cena do gabinete
tudo foi composto de antemo, o silncio, a indiferena, os filhos que ele ps
ali, estudando ao domingo, s para efeito daquela frase: 'Venham beijar a
mo da Senhora Baronesa de Santos!

CAPTULO XXII

AGORA UM SALTO

Que os dois gmeos participassem
da lua-de-mel nobiliria dos pais no  coisa que se precise escrever. O amor
que lhes tinham bastava a explic-lo, mas acresce que, havendo o ttulo
produzido em outros meninos dois sentimentos opostos, um de estima, outro de
inveja, Pedro e Paulo concluram ter recebido com ele um mrito especial.
Quando, mais tarde, Paulo adotou a opinio republicana nunca envolveu aquela
distino da famlia na condenao das instituies. Os estados de alma que
daqui nasceram davam matria a um captulo especial, se eu no preferisse agora
um salto, e ir a 1886. O salto  grande, mas o tempo  um tecido invisvel em
que se pode bordar tudo, uma flor, um pssaro, uma dama, um castelo, um tmulo.
Tambm se pode bordar nada. Nada em cima de invisvel  a mais sutil obra deste
mundo, e acaso do outro.

CAPTULO XXIII

QUANDO TIVEREM BARBAS

Naquele ano, uma noite de agosto,
como estivessem algumas pessoas na casa de Botafogo, sucedeu que uma delas, no
sei se homem ou mulher, perguntou aos dois irmos que idade tinham.

Paulo respondeu:

 Nasci no aniversrio do dia em que Pedro I caiu do trono.

E Pedro:

 Nasci no aniversrio do dia em que Sua Majestade subiu ao trono.

As respostas foram simultneas,
no sucessivas, tanto que a pessoa pediu-lhes que falasse cada um por sua vez.
A me explicou:

 Nasceram no dia 7 de abril de
1870.

Pedro repetiu vagarosamente:

 Nasci no dia em que Sua Majestade subiu ao trono.

E Paulo, em seguida:

 Nasci no dia em que Pedro I caiu do trono.

Natividade repreendeu a Paulo a
sua resposta subversiva. Paulo explicou-se, Pedro contestou a explicao e deu
outra, e a sala viraria clube, se a me no os acomodasse por esta maneira:

 Isto ho de ser grupos de
colgio; vocs no esto em idade de falar em poltica. Quando tiverem barbas.

As barbas no queriam vir, por
mais que eles chamassem o buo com os dedos, mas as opinies polticas e outras
vinham e cresciam. No eram propriamente opinies, no tinham razes grandes
nem pequenas. Eram (mal comparando) gravatas de cor particular, que eles atavam
ao pescoo,  espera que a cor cansasse e viesse outra. Naturalmente cada um
tinha a sua. Tambm se pode crer que a de cada um era, mais ou menos, adequada
 pessoa. Como recebiam as mesmas aprovaes e distines nos exames,
faltava-lhes matria a invejas; e, se a ambio os dividisse algum dia, no era
por ora guia nem condor, ou sequer filhote; quando muito, um ovo. No colgio
de Pedro II todos lhe queriam bem. As barbas  que no queriam vir. Que  que
se lhes h de fazer quando as barbas no querem vir? Esperar que venham por seu
p, que apaream, que cresam, que embranqueam, como  seu costume delas,
salvo as que no embranquecem nunca, ou s em parte e temporariamente. Tudo
isto  sabido e banal, mas d ensejo a dizer de duas barbas do ltimo gnero, clebres
naquele tempo, e ora totalmente esquecidas. No tendo outro lugar em que fale
delas, aproveito este captulo, e o leitor que volte a pgina, se prefere ir
atrs da histria. Eu ficarei durante algumas linhas, recordando as duas barbas
mortas, sem as entender agora, como no as entendemos ento, as mais
inexplicveis barbas do mundo.

A primeira daquelas barbas era de
um amigo de Pedro, um capucho, um italiano, frei ***. Podia escrever-lhe o
nome,  ningum mais o conheceria,  mas prefiro esse sinal trino, nmero de
mistrio, expresso por estrelas, que so os olhos do Cu. Trata-se de um frade.
Pedro no lhe conheceu a barba preta, mas j grisalha, longa e basta, adornando
uma cabea mscula e formosa. A boca era risonha, os olhos rtilos. Ria por ela
e por eles, to docemente que metia a gente no corao. Tinha o peito largo, as
espduas fortes. O p nu, atado  sandlia, mostrava agentar um corpo de
Hrcules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma pgina evanglica. A f era
viva, a afeio segura, a pacincia infinita.

Frei *** despediu-se um dia de
Pedro. Ia ao interior, Minas, Rio de Janeiro, So Paulo,  creio que ao Paran
tambm,  viagem espiritual, como a de outros confrades, e l ficou por um
semestre ou mais. Quando voltou trouxe-nos a todos grande alegria e maior
espanto. A barba estava negra, no sei se tanto ou mais que dantes, mas
negrssima e brilhantssima. No explicou a mudana, nem ningum lhe perguntou
por ela; podia ser milagre ou capricho da natureza; tambm podia ser correo
de homem, posto que o ltimo caso fosse mais difcil de crer que o primeiro.
Durou nove meses esta cor; feita outra viagem por trinta dias, a barba apareceu
de prata ou de neve, como vos parecer mais branca.

Quanto  segunda de tais barbas,
foi ainda mais espantosa. No era de frade, mas de maltrapilho, um sujeito que
vivia de dvidas, e na mocidade corrigira um velho rifo da nossa lngua por
esta maneira: 'Paga o que deves, v o que te no fica'. Chegou
aos cinqenta anos sem dinheiro, sem emprego, sem amigos. A roupa teria a mesma
idade, os sapatos no menor que ela. A barba  que no chegou aos cinqenta;
ele pintava-a de negro e mal, provavelmente por no ser a tinta de primeira
qualidade e no possuir espelho. Andava s, descia ou subia muita vez a mesma
rua. Um dia dobrou a esquina da Vida e caiu na praa da Morte, com as barbas
enxovalhadas, por no haver quem lhas pintasse na Santa Casa.

Or, bene, para falar como o
meu capucho, por que  que este e o maltrapilho voltaram do grisalho ao negro?
A leitora que adivinhe, se pode: dou-lhe vinte captulos para alcan-lo.
Talvez eu, por essas alturas, lobrigue alguma explicao, mas por ora no sei
nem aventuro nada. V que malignos atribuam a frei *** alguma paixo profana;
ainda assim no se compreende que ele se descobrisse por aquele modo. Quanto ao
maltrapilho, a que damas queria ele agradar, a ponto de trocar algumas vezes o
po pela tinta? Que um e outro cedessem ao desejo de prender a mocidade
fugitiva, pode ser. O frade, lido na Escritura, sabendo que Israel chorou pelas
cebolas do Egito, teria tambm chorado, e as suas lgrimas caram negras. Pode
ser, repito. Este desejo de capturar o tempo  uma necessidade da alma e dos
queixos; mas ao tempo d Deus habeas corpus.

CAPTULO XXIV

ROBESPIERRE E LUS XVI

Tanto cresceram as opinies de
Pedro e Paulo que, um dia, chegaram a incorporar-se em alguma coisa. Iam
descendo pela Rua da Carioca. Havia ali uma loja de vidraceiro, com espelhos de
vrio tamanho, e, mais que espelhos, tambm tinha retratos velhos e gravuras
baratas, com e sem caixilho. Pararam alguns instantes, olhando  toa. Logo
depois, Pedro viu pendurado um retrato de Lus XVI, entrou e comprou-o por
oitocentos ris; era uma simples gravura atada ao mostrador por um barbante. Paulo
quis ter igual fortuna, adequada s suas opinies, e descobriu um Robespierre.
Como o lojista pedisse por este mil e duzentos, Pedro exaltou-se um pouco.

 Ento o senhor vende mais barato
um rei, e um rei mrtir?

 H de perdoar, mas  que esta outra
gravura custou-me mais caro, redargiu o velho lojista. Ns vendemos conforme o
preo da compra. Veja; est mais nova.

 L isso, no, acudiu Paulo. So
do mesmo tempo; mas  que este vale mais que aquele.

 Ouvi dizer que tambm era rei...

 Qual rei! responderam os dois.

 Ou quis s-lo, no sei bem...
Que eu de histrias, apenas conheo a dos mouros que aprendi na minha terra com
a av, alguns bocados em verso. E ele ainda h mouras lindas; por exemplo,
esta; apesar do nome, creio que era moura, ou ainda , se vive... Mal lhe saiba
ao marido!

Foi a um canto e trouxe um retrato
de Madame de Stal, com o famoso turbante na cabea.  efeito da beleza! Os
rapazes esqueceram por um instante as opinies polticas e ficaram a olhar
longamente a figura de Corina. O lojista, apesar dos seus setenta anos, tinha
os olhos babados. Cuidou de sublinhar as formas, a cabea, a boca um tanto
grossa, mas expressiva, e dizia que no era caro. Como nenhum quisesse
compr-la, talvez por ser s uma, disse-lhes que ainda tinha outro, mas esse
era 'uma pouca-vergonha', frase que os deuses lhe perdoariam, quando
soubessem que ele no quis mais que abrir o apetite aos fregueses. E foi a um
armrio, tirou de l, e trouxe uma Diana, nua como vivia c embaixo, outrora, nos
matos. Nem por isso a vendeu. Teve de contentar-se com os retratos polticos.

Quis ainda ver se colhia algum
dinheiro, vendendo-lhes um retrato de Pedro I, encaixilhado, que pendia da
parede; mas, Pedro recusou por no ter dinheiro disponvel, e Paulo disse que
no daria um vintm pela 'cara de traidores'. Antes no dissesse
nada! O lojista, to depressa lhe ouviu a resposta como despiu as formas
obsequiosas, vestiu outras indignadas, e bradou que sim, senhor, que o moo
tinha razo.

 Tem muita razo. Foi um traidor,
mau filho, mau irmo, mau tudo. Fez todo o mal que pde a este mundo; e no
Inferno, onde est, se a religio no mente, deve ainda fazer mal ao Diabo.
Este moo falou h pouco em rei mrtir,  continuou mostrando-lhes um retrato
de D. Miguel de Bragana, meio perfil, sobrecasaca, mo ao peito,  este  que
foi um verdadeiro mrtir daquele, que lhe roubou o trono, que no era seu, para
d-lo a quem no pertencia; e foi morrer  mngua o meu pobre rei e senhor,
dizem que na Alemanha, ou no sei onde. Ah! malhados! Ah! filhos do
Diabo! Os senhores no podem imaginar o que era aquela canalha de liberais.
Liberais! Liberais do alheio!

  tudo a mesma farinha,
reflexionou Paulo.

 Eu no sei se eles eram de
farinha, sei que levaram muita pancada. Venceram, mas apanharam deveras. Meu
pobre rei!

Pedro quis responder ao remoque do
irmo, e props comprar o retrato de Pedro I. Quando o lojista tornou a si,
comeou a negociar a venda, mas no puderam entender-se no preo; Pedro dava os
mesmos oitocentos ris do outro, o lojista pedia dois mil-ris. Notava-lhe que
estava encaixilhado, e Lus XVI no; alm disso, era mais novo. E vinha 
porta, a buscar melhor luz, chamava-lhe a ateno para o rosto, os olhos
principalmente, que bela expresso que tinham! E o manto imperial...

 Que lhe custa dar dois mil-ris?

 Dou-lhe dez tostes; serve?

 No serve. Mais que isso me
custou ele.

 Pois ento...

 Veja sempre. Pois isto no vale
at trs mil-ris? O papel no est encardido; a gravura  fina.

 Dez tostes, j disse.

 No, senhor. Olhe, por dez
tostes leve este de D. Miguel; o papel est bem conservado, e, com pouco
dinheiro, manda-lhe pr um caixilho. V; dez tostes.

 Se eu j estou arrependido...
Dez tostes pelo imperador.

 Ah! isso no! Custou-me mil e
setecentos, h trs semanas; ganho uns trezentos ris, quase nada. Ganho menos
com o Senhor D. Miguel, mas tambm concordo que  menos procurado. Este de D.
Pedro I, se passar amanh, talvez j o no ache. V, sim?

 Eu passo depois.

Paulo j ia andando e mirando
Robespierre; Pedro alcanou-o.

 Olhe, leve por sete tostes o
senhor D. Miguel.

Pedro abanou a cabea.

 Seis tostes serve?

Pedro, ao lado do irmo,
desenrolara a sua gravura. O velho lojista quis ainda bradar: 'Cinco
tostes!' mas iam j longe, e ficava mal negociar assim.

CAPTULO XXV

D. MIGUEL

 Assim como assim, ficou pensando
o velho, no h de ser enrolado e guardado que o hei de vender; vou mand-lo
encaixilhar; pem-se-lhe aqui umas tabuinhas velhas...

D. Miguel voltou para ele os olhos
turvos de tristeza e reproche; assim lhe pareceu ao vidraceiro, mas podia ter
sido iluso. Em todo caso, pareceu tambm que os olhos tornavam ao seu lugar,
fitando  direita, ao longe... Para onde? Para onde h justia eterna, cuidou
naturalmente o dono. Como estivesse a contempl-lo,  porta, parou um homem,
entrou, e olhou com interesse para o retrato. O lojista reparou na expresso;
podia ser algum miguelista, mas tambm podia ser um colecionador...

 Quanto pede o senhor por isto?

 Isto? H de perdoar; quer saber
quanto peo pelo meu rico Senhor D. Miguel? No peo muito, est um tanto
encardido, mas ainda se lhe aprecia bem a figura. Que soberba que ela ! No 
caro; dou-lhe pelo custo; se estivesse encaixilhado, valeria uns quatro
mil-ris. Leve-o por trs.

O fregus tirou tranqilamente o
dinheiro do bolso, enquanto o velho enrolava o retrato, e, trocados um por
outro, despediram-se corteses e satisfeitos; o lojista, depois de ir at 
porta, tornou  cadeira do costume. Talvez pensasse no mal a que escapara, se
vendesse o retrato por dez tostes. Em todo caso, ficou a olhar para fora, para
longe, para onde h justia eterna... Trs mil-ris!

CAPTULO XXVI

A LUTA DOS RETRATOS

Quase que no  preciso dizer o
destino dos retratos do rei e do convencional. Cada um dos pequenos pregou o
seu  cabeceira da cama. Pouco durou esta situao, porque ambos faziam
pirraas s pobres gravuras, que no tinham culpa de nada. Eram orelhas de
burro, nomes feios, desenhos de animais, at que um dia Paulo rasgou a de
Pedro, e Pedro a de Paulo. Naturalmente, vingaram-se a murro; a me ouviu rumor
e subiu apressada. Conteve os filhos, mas j os achou arranhados e recolheu-se
triste. Nunca mais acabaria aquela maldio de rivalidade? Fez esta pergunta
calada, atirada  cama, a cara metida no travesseiro, que desta vez ficou seco,
mas a alma chorou.

Natividade confiava na educao,
mas a educao, por mais que ela a apurasse, apenas quebrava as arestas ao
carter dos pequenos, o essencial ficava; as paixes embrionrias trabalhavam
por viver, crescer, romper, tais quais ela sentira os dois no prprio seio,
durante a gestao... E recordava a crise de ento, acabando por maldizer da
cabocla do Castelo. Realmente, a cabocla devia ter calado; o mal calado no se
muda, mas no se sabe. Agora, pode ser que isto de no calar confirme a opinio
de que a cabocla era mandada por Deus para dizer a verdade aos homens. E afinal
o que  que ela disse a Natividade? No fez mais que uma pergunta misteriosa; a
predio  que foi luminosa e clara... E outra vez as palavras do Castelo
ressoaram aos ouvidos da me, e a imaginao fez o resto. Coisas futuras!
Ei-los grandes e sublimes. Algumas brigas em pequenos, que importa? Natividade
sorriu, ergueu-se, foi  porta, deu com o filho Pedro, que vinha explicar-se.

 Mame, Paulo  mau. Se mame
ouvisse os horrores que ele solta pela boca fora, mame morria de medo.
Custa-me muito no ir  cara dele; ainda lhe no tirei um olho...

 Meu filho, no fales assim, 
teu irmo.

 Pois que no se meta comigo, no
me aborrea. Que blasfmias que ele dizia! Como eu rezava por alma de Lus XVI,
ele, para machucar-me bem, rezava a Robespierre; comps uma ladainha chamando
santo ao outro e cantarolava baixinho para que papai nem mame ouvissem. Eu
sempre lhe dei alguns cascudos...

 A est!

 Mas  que ele  que me dava
primeiro, porque eu punha orelhas de burro em Robespierre... Ento, eu havia de apanhar calado?

 Nem calado, nem falando.

 Ento, como? Apanhar sempre, no
?

 No, senhor; no quero pancadas;
o melhor  que esqueam tudo e se queiram bem. Voc no v como seus pais se
querem? As brigas acabaram de todo. No quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal
que tm vocs com um sujeito mau que morreu h tantos anos?

  o que eu digo, mas ele no se
emenda.

 H de emendar-se; os estudos fazem
esquecer criancices. Voc tambm quando for mdico tem muito que brigar com as
molstias e a morte;  melhor que andar dando pancada em seu irmo... Que  l
isso? No quero arremessos, Pedro! Sossegue, oua-me.

 Mame  sempre contra mim.

 No sou contra nenhum, sou por
ambos, ambos so meus filhos. E demais gmeos. Anda c, Pedro. No penses que
eu desaprovo as tuas opinies polticas. At gosto; so as minhas, so as
nossas. Paulo h de t-las tambm. Na idade dele aceita-se quanta tolice h,
mas o tempo corrige. Olha, Pedro, a minha esperana  que vocs sejam grandes
homens, mas com a condio de serem tambm grandes amigos.

 Estou pronto a ser grande homem,
assentiu Pedro com ingenuidade, quase com resignao.

 E grande amigo tambm.

 Se ele for, serei.

 Grandes homens! exclamou
Natividade, dando-lhe dois abraos, um para ele, outro para o irmo quando
viesse.

Mas Paulo veio logo, e recebeu o
abrao inteiro e de verdade. Vinha tambm queixar-se, e sempre resmungou alguma
coisa, mas a me no quis ouvi-lo, e falou outra vez a linguagem das grandezas.
Paulo consentiu tambm em ser grande.

 Voc ser mdico, disse
Natividade a Pedro, e voc advogado. Quero ver quem faz as melhores curas, e
ganha as piores demandas.

 Eu, disseram ambos a um tempo.

 Patetas! Cada um ter a sua
carreira especial, a sua cincia diferente. J esto curados do nariz? J; no
h mais sangue. Agora o primeiro que ferir seu irmo ser degradado.

Foi um recurso hbil separ-los;
um ficava no Rio, estudando Medicina, outro ia para So Paulo, estudar Direito.
O tempo faria o resto, no contando que cada um casava e iria com a mulher para
o seu lado. Era a paz perptua; mais tarde viria a perptua amizade.

CAPTULO XXVII

DE UMA REFLEXO
INTEMPESTIVA

Eis aqui entra uma reflexo da
leitora: 'mas se duas velhas gravuras os levam a murro e sangue,
contentar-se-o eles com a sua esposa? No querero a mesma e nica mulher?

O que a senhora deseja, amiga
minha,  chegar j ao captulo do amor ou dos amores, que  o seu interesse
particular nos livros. Da a habilidade da pergunta, como se dissesse:
'Olhe que o senhor ainda nos no mostrou a dama ou damas que tm de ser
amadas ou pleiteadas por estes dois jovens inimigos. J estou cansada de saber
que os rapazes no se do ou se do mal;  a segunda ou terceira vez que
assisto s blandcias da me ou aos seus ralhos amigos. Vamos depressa ao amor,
s duas, se no  uma s a pessoa...'

Francamente, eu no gosto de gente
que venha adivinhando e compondo um livro que est sendo escrito com mtodo. A
insistncia da leitora em falar de uma s mulher chega a ser impertinente.
Suponha que eles deveras gostem de uma s pessoa; no parecer que eu conto o
que a leitora me lembrou, quando a verdade  que eu apenas escrevo o que
sucedeu e pode ser confirmado por dezenas de testemunhas? No, senhora minha,
no pus a pena na mo,  espreita do que me vissem sugerindo. Se quer compor o
livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador; mas, se quer ler
somente, deixe-se estar quieta, v de linha em linha; dou-lhe que boceje entre
dois captulos, mas espere o resto, tenha confiana no relator destas
aventuras.

CAPTULO XXVIII

O RESTO  CERTO

Sim, houve uma pessoa, mais moa
que eles, um a dois anos, que os agrilhoou,  fora de costume ou de natureza,
se no foi de ambas as coisas. Antes dessa, pode ser que houvesse outras e mais
velhas que eles, mas de tais no rezam as notas que servem a este livro. Se
brigaram por elas, no ficou memria disso, mas  possvel, dado que tivessem
tido as mesmas preferncias; no caso contrrio tambm, como sucedia aos
cavaleiros que defendiam a sua dama.

Conjeturas tudo. Era natural que,
assim bonitos, iguais, elegantes, dados  vida e ao passeio,  conversao e 
dana, finalmente herdeiros, era natural que mais de uma menina gostasse deles.
As que os viam passar a cavalo, praia fora ou rua acima, ficavam namoradas
daquela ordem perfeita de aspecto e de movimento. Os prprios cavalos eram iguaizinhos,
quase gmeos, e batiam as patas com o mesmo ritmo, a mesma fora, e a mesma
graa. No creias que o gesto da cauda e das crinas fosse simultneo nos dois
animais; no  verdade e pode fazer duvidar do resto. Pois o resto  certo.

CAPTULO XXIX

A PESSOA MAIS MOA

A pessoa mais moa no entra j
neste captulo por uma razo valiosa, que  a convenincia de apresentar
primeiro os pais. No  que se no possa v-la bem sem eles; pode-se, os trs
so diversos, acaso contrrios, e, por mais especial que a acheis, no 
preciso que os pais estejam presentes. Nem sempre os filhos reproduzem os pais.
Cames afirmou que de certo pai s se podia esperar tal filho, e a cincia
confirma esta regra potica. Pela minha parte creio na cincia como na poesia, mas
h excees, amigo. Sucede, s vezes, que a natureza faz outra coisa, e nem por
isso as plantas deixam de crescer e as estrelas de luzir. O que se deve crer
sem erro  que Deus  Deus; e, se alguma rapariga rabe me estiver lendo,
ponha-lhe Al. Todas as lnguas vo dar ao Cu.

CAPTULO XXX

A GENTE BATISTA

A gente batista conheceu a gente
Santos em no sei que fazenda da Provncia do Rio. No foi Maric, embora ali
tivesse nascido o pai dos gmeos; seria em qualquer outro municpio. Fosse qual
fosse, ali  que se conheceram as duas famlias, e como morassem prximas em
Botafogo, a assiduidade e a simpatia vieram ajudando o caso fortuito.

Batista, o pai da donzela, era
homem de quarenta e tantos anos, advogado do cvel, ex-presidente de provncia
e membro do Partido Conservador. A ida  fazenda tivera por objeto exatamente
uma conferncia poltica para fins eleitorais, mas to estril que ele tornou
de l sem, ao menos, um ramo de esperana. Apesar de ter amigos no governo, no
alcanara nada, nem deputao nem presidncia. Interrompera a carreira desde
que foi exonerado daquele cargo 'a pedido', disse o decreto, mas as
queixas do exonerado fariam crer outra coisa. De fato, perdera as eleies, e
atribua a esse desastre poltico a demisso do cargo.

 No sei o que  que ele queria
que eu fizesse mais, dizia Batista falando do ministro. Cerquei igrejas; nenhum
amigo pediu polcia que eu no mandasse; processei talvez umas vinte pessoas, outras
foram para a cadeia sem processo. Havia de enforcar gente? Ainda assim houve
duas mortes no Ribeiro das Moas.

O final era excessivo, porque as
mortes no foram obra dele; quando muito, ele mandou abafar o inqurito, se se
pode chamar inqurito a uma simples conversao sobre a ferocidade dos dois
defuntos. Em suma, as eleies foram incruentas.

Batista dizia que por causa das
eleies perdera a presidncia, mas corria outra verso, um negcio de guas,
concesso feita a um espanhol, a pedido do irmo da esposa do presidente. O
pedido era verdadeiro, a imputao de scio  que era falsa. No importa; tanto
bastou para que a folha da oposio dissesse que houve naquilo um bom
'arranjo de famlia', acrescentando que, como era de guas, devia ser
negcio limpo. A folha da administrao retorquiu que, se guas havia, no eram
bastantes para lavar o sujo do carvo deixado pela ltima presidncia liberal,
um fornecimento de palcio. No era exato; a folha da oposio reviveu o
processo antigo e mostrou que a defesa fora cabal. Podia parar aqui, mas
continuou que, 'como agora estvamos em Espanha', o presidente
emendou o poeta espanhol, autor daquele epitfio:

Cuados y juntos:

Es cierto que estn
difuntos;

e emendou-o por no ser obrigado a
matar ningum, antes deu vida a si e aos seus, dizendo pela nossa lngua:

Cunhados e
cunhadssimos;

 certo que so
vivssimos!

Batista acudiu depressa ao mal,
declarando sem efeito a concesso, mas isso mesmo serviu  oposio para novos
arremessos: 'Temos a confisso do ru!' foi o ttulo do primeiro
artigo que rendeu  folha da oposio o ato do presidente. Os correspondentes
tinham j escrito para o Rio de Janeiro falando da concesso, e o governo
acabou por demitir o seu delegado. Em verdade, s os polticos cuidaram do
negcio. D. Cludia apenas aludia  campanha da imprensa, que foi
violentssima.

 No valia a pena sair daqui,
disse Natividade.

 L isso no, baronesa!

E D. Cludia afirmou que valia.
Sofre-se, mas pacincia. Era to bom chegar  provncia! Tudo anunciado, as
visitas a bordo, o desembarque, a posse, os cumprimentos... Ver a magistratura,
o funcionalismo, a oficialidade, muito calva, muito cabelo branco, a flor da
terra, enfim, com as suas cortesias longas e demoradas, todas em ngulo ou em
curva, e os louvores impressos. As mesmas descomposturas da oposio eram
agradveis. Ouvir chamar tirano ao marido, que ela sabia ter um corao de
pomba, ia bem  alma dela. A sede de sangue que se lhe atribua, ele que nem
bebia vinho, o guante de ferro de um homem que era uma luva de pelica, a
imoralidade, a desfaatez, a falta de brio, todos os nomes injustos, mas
fortes, que ela gostava de ler, como verdades eternas, onde iam eles agora? A
folha da oposio era a primeira que D. Cludia lia em palcio. Sentia-se vergastada tambm e tinha nisso uma grande volpia, como se fosse na
prpria pele; almoava melhor. Onde iam os ltegos daquele tempo? Agora mal
podia ler o nome dele impresso no fim de algumas razes do foro, ou ento na
lista das pessoas que iam visitar o imperador.

 Nem sempre, explicou D. Cludia;
Batista  muito acanhado; vai de longe em longe a So Cristvo, para no
parecer que se faz lembrado, como se isto fosse crime; ao contrrio, no ir
nunca  que pode parecer arrufo. Note que o imperador nunca deixou de receb-lo
com muita benevolncia, e a mim tambm. Nunca esqueceu o meu nome. J deixei de
l ir dois anos, e quando apareci, perguntou-me logo: 'Como vai, D.
Cludia?

Afora essas saudades do poder,
Dona Cludia era uma criatura feliz. A viveza das palavras e das maneiras, os
olhos que pareciam no ver nada  fora de no pararem nunca, e o sorriso
benvolo, e a admirao constante, tudo nela era ajustado a curar as
melancolias alheias. Quando beijava ou mirava as amigas era como se as quisesse
comer vivas, comer de amor, no de dio, met-las em si, muito em si, no mais
fundo de si.

Batista no tinha as mesmas
expanses. Era alto, e o ar sossegado dava um bom aspecto de governo. S lhe
faltava ao, mas a mulher podia inspirar-lha; nunca deixou de consult-la nas
crises da presidncia. Agora mesmo, se lhe desse ouvidos, j teria ido pedir
alguma coisa ao governo, mas neste ponto era firme, de uma firmeza que nascia
da fraqueza: 'Ho de chamar-me, deixa estar', dizia ele a D. Cludia,
quando aparecia alguma vaga de governo provincial. Certo  que ele sentia a
necessidade de tornar  vida ativa. Nele a poltica era menos uma opinio que
uma sarna; precisava coar-se a mido e com fora.

CAPTULO XXXI

FLORA

Tal era aquele casal de polticos.
Um filho, se eles tivessem um filho varo, podia ser a fuso das suas
qualidades opostas, e talvez um homem de Estado. Mas o Cu negou-lhes essa
consolao dinstica.

Tinham uma filha nica, que era
tudo o contrrio deles. Nem a paixo de D. Cludia, nem o aspecto governamental
de Batista distinguia a alma ou a figura da jovem Flora. Quem a conhecesse por
esses dias, poderia compar-la a um vaso quebradio ou  flor de uma s manh,
e teria matria para uma doce elegia. J ento possua os olhos grandes e
claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular, que no era o
espalhado da me, nem o apagado do pai, antes mavioso e pensativo, to cheio de
graa que faria amvel a cara de um avarento. Pe-lhe o nariz aquilino, rasga-lhe
a boca meio risonha, formando tudo um rosto comprido, alisa-lhe os cabelos
ruivos, e a tens a moa Flora.

Nasceu em agosto de 1871. A me, que datava por ministrios, nunca negou a idade da filha:

 Flora nasceu no Ministrio Rio
Branco, e foi sempre to fcil de aprender, que j no Ministrio Sinimbu sabia
ler e escrever correntemente.

Era retrada e modesta, avessa a
festas pblicas, e dificilmente consentiu em aprender a danar. Gostava de msica,
e mais do piano que do canto. Ao piano, entregue a si mesma, era capaz de no
comer um dia inteiro. H a o seu tanto de exagerado, mas a hiprbole  deste
mundo, e as orelhas da gente andam j to entupidas que s  fora de muita
retrica se pode meter por elas um sopro de verdade.

At aqui nada h que
extraordinariamente distinga esta moa das outras, suas contemporneas, desde
que a modstia vai com a graa, e em certa idade  to natural o devaneio como
a travessura. Flora, aos quinze anos, dava-lhe para se meter consigo. Aires,
que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade, acreditava que a moa
viria a ser uma inexplicvel.

 Como diz? inquiriu a me.

 Verdadeiramente, no digo nada,
emendou Aires; mas, se me permite dizer alguma coisa, direi que esta moa
resume as raras prendas de sua me.

 Mas eu no sou inexplicvel,
replicou D. Cludia sorrindo.

 Ao contrrio, minha senhora.
Tudo est, porm, na definio que dermos a esta palavra. Talvez no haja
nenhuma certa. Suponhamos uma criatura para quem no exista perfeio na terra,
e julgue que a mais bela alma no passa de um ponto de vista; se tudo muda com
o ponto de vista, a perfeio...

 A perfeio  copas, insinuou
Santos.

Era um convite ao voltarete. Aires
no teve nimo de aceitar, to inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nele,
interrogativos, curiosos de saber por que  que ela era ou viria a ser
inexplicvel. Alm disso, preferia a conversao das mulheres.  dele esta
frase do Memorial: 'Na mulher, o sexo corrige a banalidade; no
homem, agrava'.

No foi preciso aceitar nem
recusar o convite de Santos; chegaram dois habituados do jogo, e com eles
Batista, que estava na saleta prxima, Santos foi ao recreio de todas as
noites. Um daqueles era o velho Plcido, doutor em espiritismo; o segundo era
um corretor da praa, chamado Lopes, que amava as cartas pelas cartas, e sentia
menos perder dinheiro que partidas. L se foram ao voltarete, enquanto Aires
ficava no salo, a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se
despegassem dele.

CAPTULO XXXII

O APOSENTADO

J ento este ex-ministro estava
aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro, depois de um ltimo olhar s coisas
vistas, para aqui viver o resto dos seus dias. Podia faz-lo em qualquer
cidade, era homem de todos os climas, mas tinha particular amor  sua terra, e
porventura estava cansado de outras. No atribua a estas tantas calamidades. A
febre amarela, por exemplo,  fora de a desmentir l fora, perdeu-lhe a f, e
c dentro, quando via publicados alguns casos, estava j corrompido por aquele
credo que atribui todas as molstias a uma variedade de nomes. Talvez porque
era homem sadio.

No mudara inteiramente; era o
mesmo ou quase. Encalveceu mais,  certo, ter menos carnes, algumas rugas; ao
cabo, uma velhice rija de sessenta anos. Os bigodes continuam a trazer as
pontas finas e agudas. O passo  firme, o gesto grave, com aquele toque de
galanteria, que nunca perdeu. Na botoeira, a mesma flor eterna.

Tambm a cidade no lhe pareceu
que houvesse mudado muito. Achou algum movimento mais, alguma pera menos,
cabeas brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A prpria
casa dele no Catete estava bem conservada. Aires despediu o inquilino, to
polidamente como se recebesse o ministro dos negcios estrangeiros, e meteu-se
nela a si e a um criado, por mais que a irm teimasse em lev-lo para Andara.

 No, mana Rita, deixe-me ficar
no meu canto.

 Mas eu sou a sua ltima parenta,
disse ela.

 De sangue e de corao, isso ,
concordou ele; pode acrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde esto
aqueles cabelos?... No precisa baixar os olhos. Voc os cortou para meter no
caixo de seu finado marido. Os que a esto embranqueceram; mas os que l
ficaram eram pretos, e mais de uma viva os teria guardado todos para as
segundas npcias.

Rita gostou de ouvir aquela
referncia. Outrora, no; pouco depois de viva, tinha vexame de um ato to
sincero; achava-se quase ridcula. Que valia cortar os cabelos por haver
perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou a ver que fizera
bem, a aprovar que lho dissessem, e, na intimidade, a lembr-lo. Agora serviu a
aluso para replicar:

 Pois se eu sou isso, por que 
que voc prefere viver com estranhos?

 Que estranhos? No vou viver com
ningum. Viverei com o Catete, o Largo do Machado, a Praia de Botafogo e a do
Flamengo, no falo das pessoas que l moram, mas das ruas, das casas, dos
chafarizes e das lojas. H l coisas esquisitas, mas sei eu se venho achar em
Andara uma casa de pernas para o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que
sabemos. L os meus ps andam por si. H ali coisas petrificadas e pessoas
imortais, como aquele Custdio da confeitaria, lembra-se?

 Lembra-me, a Confeitaria do
Imprio.

 H quarenta anos que a
estabeleceu; era ainda no tempo em que os carros pagavam imposto de passagem.
Pois o diabo est velho, mas no acaba; ainda me h de enterrar. Parece rapaz;
aparece-me l todas as semanas.

 Voc tambm parece rapaz.

 No brinque, mana; eu estou
acabado. Sou um velho gamenho, pode ser; mas no  por agradar a moas, 
porque me ficou este jeito... E a propsito, por que no vai voc morar comigo?

 Ah!  para saber que tambm eu
gosto de estar comigo. Irei l de vez em quando, mas j no saio daqui, seno
para o cemitrio.

Ajustaram visitar um ao outro;
Aires viria jantar s quintas-feiras. D. Rita ainda lhe falou dos casos de
molstia dele, ao que Aires replicou que no adoecia nunca, mas se adoecesse
viria para Andara; o corao dela era o melhor dos hospitais. Talvez que em
todas essas recusas houvesse tambm a necessidade de fugir  contradio,
porque a irm sabia inventar ocasies de dissidncia. Naquele mesmo dia (era ao
almoo) ele achou o caf delicioso, mas a irm disse que era ruim, obrigando-o
a um grande esforo para tornar atrs e ach-lo detestvel.

A princpio, Aires cumpriu a
solido, separou-se da sociedade, meteu-se em casa, no aparecia a ningum ou a
raros e de longe em longe. Em verdade estava cansado de homens e de mulheres,
de festas e de viglias. Fez um programa. Como era dado a letras clssicas,
achou no Padre Bernardes esta traduo daquele salmo: 'Alonguei-me fugindo
e morei na soedade'. Foi a sua divisa. Santos, se lha dessem, f-la-ia
esculpir,  entrada do salo, para regalo dos seus numerosos amigos. Aires
deixou-a estar em si. Alguma vez gostava de a recitar calado, parte pelo
sentido, parte pela linguagem velha: 'Alonguei-me fugindo e morei na
soedade.

Assim foi a princpio. s
quintas-feiras ia jantar com a irm. s noites passeava pelas praias, ou pelas
ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compor o Memorial
ou rever o composto, para relembrar as coisas passadas. Estas eram muitas e de
feio diversa, desde a alegria at a melancolia, enterramentos e recepes
diplomticas, uma braada de folhas secas, que lhe pareciam verdes agora.
Alguma vez as pessoas eram designadas por um X ou ***, e ele no acertava logo
quem fossem, mas era um recreio procur-las, ach-las e complet-las.

Mandou fazer um armrio
envidraado, onde meteu as relquias da vida, retratos velhos, mimos de
governos e de particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memrias
femininas, medalhas e medalhes, camafeus, pedaos de runas gregas e romanas,
uma infinidade de coisas que no nomeio, para no encher papel. As cartas no
estavam l, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras, por cidades, por
lnguas, por sexos. Quinze ou vinte davam para outros tantos captulos e seriam
lidas com interesse e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete
encardido e sem data, moo como os bilhetes velhos, assinado por iniciais, um M
e um P, que ele traduzia com saudades. No vale a pena dizer o nome.

CAPTULO XXXIII

A SOLIDO TAMBM CANSA

Mas tudo cansa, at a solido.
Aires entrou a sentir uma ponta de aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha
sede de gente viva, estranha, qualquer que fosse, alegre ou triste. Metia-se
por bairros excntricos, trepava aos morros, ia s igrejas velhas, s ruas
novas,  Copacabana e  Tijuca. O mar ali, aqui o mato e a vista acordavam nele
uma infinidade de ecos, que pareciam as prprias vozes antigas. Tudo isso
escrevia, s noites, para se fortalecer no propsito da vida solitria. Mas no
h propsito contra a necessidade.

A gente estranha tinha a vantagem
de lhe tirar a solido, sem lhe dar a conversao. As visitas de rigor que ele
fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso foram os primeiros
passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes velhos, a nostalgia das
salas, a saudade do riso, e no tardou que o aposentado da diplomacia fosse
reintegrado no emprego da recreao. A solido, tanto no texto bblico como na
traduo do padre, era arcaica. Aires trocou-lhe uma palavra e o sentido:
'Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente'.

Assim se foi o programa da vida
nova. No  que ele j a no entendesse nem amasse, ou que a no praticasse
ainda alguma vez, a espaos, como se faz uso de um remdio que obriga a ficar
na cama ou na alcova; mas, sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a
outra gente, ouvi-la, cheir-la, gost-la, apalp-la, aplicar todos os sentidos
a um mundo que podia matar o tempo, o imortal tempo.

CAPTULO XXXIV

INEXPLICVEL

Assim o deixamos, h apenas dois
captulos, a um canto da sala da gente Santos, em conversao com as senhoras.
Hs de lembrar-te que Flora no despegava os olhos dele, ansiosa de saber por
que  que a achava inexplicvel. A palavra rasgava-lhe o crebro, ferindo sem
penetrar. Inexplicvel que era? Que se no explica, sabia; mas que se no
explica por qu?

Quis pergunt-lo ao conselheiro,
mas no achou ocasio, e ele saiu cedo. A primeira vez, porm, que Aires foi a
So Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obsquio de uma definio mais
desenvolvida. Aires sorriu e pegou na mo da mocinha, que estava de p. Foi s
o tempo de inventar esta resposta:

 Inexplicvel  o nome que
podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais
tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece
que a rvore  rvore, nem a choupana choupana. Se se trata ento de gente,
adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que
eles no dizem nada. E retocam com tanta pacincia, que alguns morrem entre
dois olhos, outros matam-se de desespero.

Flora achou a explicao obscura;
e tu, amiga minha leitora, se acaso s mais velha e mais fina que ela, pode ser
que a no aches mais clara. Ele  que no acrescentou nada, para no ficar
includo entre os artistas daquela espcie. Bateu paternalmente na palma da mo
de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem; como  que no iriam
bem os estudos? E sentando-se ao p dele, a mocinha confessou que tinha idia
justamente de aprender desenho e pintura, mas se havia de pr tinta de mais ou
de menos, e acabar no pintando nada, melhor seria ficar s na msica. A msica
ia bem com ela, o francs tambm, e o ingls.

 Pois s a msica, o ingls e o
francs, concordou Aires.

 Mas o senhor promete que no me
achar inexplicvel? perguntou ela com doura.

Antes que ele respondesse, entraram
na sala os dois gmeos. Flora esqueceu um assunto por outro, e o velho pelos
rapazes. Aires no se demorou mais que o tempo de a ver rir com eles, e sentir
em si alguma coisa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer,creio.

CAPTULO XXXV

EM VOLTA DA MOA

J ento os dois gmeos cursavam,
um a Faculdade de Direito, em So Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. No tardaria muito que sassem formados e prontos, um para defender o Direito
e o torto da gente, outro para ajud-la a viver e a morrer. Todos os contrastes
esto no homem.

No era tanta a poltica que os
fizesse esquecer Flora, nem tanta Flora que os fizesse esquecer a poltica.
Tambm no eram tais as duas que prejudicassem estudos e recreios. Estavam na
idade em que tudo se combina sem quebra de essncia de cada coisa. L que
viessem a amar a pequena com igual fora  o que se podia admitir desde j, sem
ser preciso que ela os atrasse de vontade. Ao contrrio, Flora ria com ambos,
sem rejeitar nem aceitar especialmente nenhum; pode ser at que nem percebesse
nada. Paulo vivia mais tempo ausente. Quando tornava pelas frias, como que a
achava mais cheia de graa. Era ento que Pedro multiplicava as suas finezas
para se no deixar vencer do irmo, que vinha prdigo delas. E Flora recebia-as
todas com o mesmo rosto amigo.

Note-se  e este ponto deve ser
tirado  luz,  note-se que os dois gmeos continuavam a ser parecidos e eram
cada vez mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhana
diminua em cada um deles a feio pessoal. Demais, Flora simulava s vezes
confundi-los, para rir com ambos. E dizia a Pedro:

 Dr. Paulo!

E dizia a Paulo:

 Dr. Pedro!

Em vo eles mudavam da esquerda
para a direita e da direita para a esquerda. Flora mudava os nomes tambm, e os
trs acabavam rindo. A familiaridade desculpava a ao e crescia com ela. Paulo
gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com o
piano que com a conversa; Flora tocava. Ou ento fazia ambas as coisas, e
tocava falando, soltava a rdea aos dedos e  lngua.

Tais artes, postas ao servio de
tais graas, eram realmente de acender os gmeos, e foi o que sucedeu pouco a
pouco. A me dela cuido que percebeu alguma coisa; mas a princpio no lhe deu
grande cuidado. Tambm ela foi menina e moa, tambm se dividiu a si sem se dar
nada a ningum. Pode ser at que, a seu parecer, fosse um exerccio necessrio
aos olhos do esprito e da cara. A questo  que estes se no corrompessem, nem
se deixassem ir atrs de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os
feitios de Orfeu. Ao contrrio, Flora  que fazia de Orfeu, ela  que era a
cantiga. Oportunamente, escolheria a um deles, pensava a me.

A intimidade tinha intervalos
grandes, alm das ausncias obrigadas de Paulo. Apesar de no sair, Pedro no a
buscava sempre, nem ela ia muita vez  casa da praia. No se viam dias e dias.
Que pensassem um no outro,  possvel; mas no possuo o menor documento disto.
A verdade  que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua e
de aventura, os partidos de teatro, os passeios  Tijuca e outros arrabaldes.
Ao demais, os dois gmeos estavam ainda no ponto de falar dela nas cartas,
louv-la, descrev-la, dizer mil coisas doces, sem cime.

CAPTULO XXXVI

A DISCRDIA NO  TO
FEIA COMO SE PINTA

A discrdia no  to feia como se
pinta, meu amigo. Nem feia, nem estril. Conta s os livros que tem produzido,
desde Homero at c, sem excluir... Sem excluir qual? Ia dizer que este, mas a
Modstia acena-me de longe que pare aqui. Paro aqui; e viva a Modstia, que mal
suporta a letra capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas h de ir com ela
e com eles. Viva a Modstia, e excluamos este livro; fiquem s os grandes
livros picos e trgicos, a que a Discrdia deu vida, e digam-me se tamanhos
efeitos no provam a grandeza da causa. No, a discrdia no  to feia como se
pinta.

Teimo nisto para que as almas
sensveis no comecem de tremer pela moa ou pelos rapazes. No h mister
tremer, tanto mais que a discrdia dos dois comeou por um simples acordo,
naquela noite. Costeavam a praia, calados, pensando s, at que ambos, como se
falassem para si, soltaram esta frase nica:

 Est ficando bem bonita.

E voltando-se um para outro:

 Quem?

Ambos sorriram; acharam pico ao
simultneo da reflexo e da pergunta. Sei que este fenmeno  tal qual o do
captulo XXV, quando eles disseram da idade, mas no me culpem a mim; eram
gmeos, podiam ter o falar gmeo. O principal  que no se amofinaram; no era
ainda amor o que sentiam. Cada um exps a sua opinio acerca das graas da
pequena, o gesto, a voz, os olhos e as mos, tudo com to boa sombra, que
exclua a idia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha da melhor
prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura; mas como acabavam
achando um total harmnico, era visto que no brigavam por isso. Nenhum deles
atribua ao outro a coisa vaga ou o que quer que era que principiavam a sentir,
e mais pareciam estetas que enamorados. Alis, a mesma poltica os deixou em
paz essa noite: no brigaram por ela. No  que no sentissem alguma coisa
oposta,  vista da praia e do cu, que estavam deliciosos. Lua cheia, gua
quieta, vozes confusas e esparsas, algum tlburi a passo ou a trote, segundo ia
vazio ou com gente. Tal ou qual brisa fresca.

A imaginao os levou ento ao
futuro, a um futuro brilhante, com ele  em tal idade. Botafogo teria um papel
histrico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza republicana para Paulo,
sem doge, nem conselho dos dez, ou ento um doge com outro ttulo, um simples
presidente, que se casaria em nome do povo com este pequenino Adritico. Talvez
o doge fosse ele mesmo. Esta possibilidade, apesar dos anos verdes, enfunou a
alma do moo. Paulo viu-se  testa de uma repblica, em que o antigo e o
moderno, o futuro e o passado se mesclassem, uma Roma nova, uma Conveno
Nacional, a Repblica Francesa e os Estados Unidos da Amrica.

Pedro,  sua parte, construa a
meio caminho como um palcio para a representao nacional, outro para o
imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho. Falava,
dominava o tumulto e as opinies, arrancava um voto  Cmara dos Deputados ou
ento expedia um decreto de dissoluo.  uma mincia, mas merece inseri-la
aqui: Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente nos decretos de
dissoluo. Via-se em casa, com o ato assinado, referendado, copiado, mandado
aos jornais e s Cmaras, lido pelos secretrios, arquivado na secretaria, e os
deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados. S ele estava
tranqilo, no gabinete, recebendo os amigos que iam cumpriment-lo e pedir os
recados para a provncia.

Tais eram as grandes pinceladas da
imaginao dos dois. As estrelas recebiam no cu todos os pensamentos dos
rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a preguia do
costume. Voltaram a si ao p de casa. Tal ou qual impulso quis lev-los a
discutir acerca do tempo e da noite, da temperatura e da enseada. Algum
murmrio vago pode ser que lhes fizesse mover os beios e comear a quebrar o
silncio, mas o silncio era to augusto que concordaram em respeit-lo. E logo acharam de si para si, que a lua era esplndida, a enseada bela e a
temperatura divina.

CAPTULO XXXVII

DESACORDO NO ACORDO

No esquea dizer que, em 1888,
uma questo grave e gravssima os fez concordar tambm, ainda que por diversa
razo. A data explica o fato: foi a emancipao dos escravos. Estavam ento
longe um do outro, mas a opinio uniu-os.

A diferena nica entre eles dizia
respeito  significao da reforma, que para Pedro era um ato de justia, e
para Paulo era o incio da revoluo. Ele mesmo o disse, concluindo um discurso
 em So Paulo, no dia 20 de maio: 'A abolio  a aurora da liberdade;
esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco'.

Natividade ficou atnita quando
leu isto; pegou da pena e escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu
com trinta mil expresses de ternura, declarando no fim que tudo lhe poderia
sacrificar, inclusive a vida e at a honra; as opinies  que no. 'No,
mame; as opinies  que no'.

 As opinies  que no, repetiu
Natividade acabando de ler a carta.

Natividade no acabava de entender
os sentimentos do filho, ela que sacrificara as opinies aos princpios, como
no caso de Aires, e continuou a viver sem mcula. Como ento no sacrificar?...
No achava explicao. Relia a frase da carta e a do discurso; tinha medo de o
ver perder a carreira poltica, se era a poltica que o faria grande homem.
'Emancipado o preto, resta emancipar o branco', era uma ameaa ao
imperador e ao imprio.

No atinou... Nem sempre as mes
atinam. No atinou que a frase do discurso no era propriamente do filho; no
era de ningum. Algum a proferiu um dia, em discurso ou conversa, em gazeta ou
em viagem de terra ou de mar. Outrem a repetiu, at que muita gente a fez sua.
Era nova, era enrgica, era expressiva, ficou sendo patrimnio comum.

H frases assim felizes. Nascem
modestamente, como a gente pobre; quando menos pensam, esto governando o
mundo,  semelhana das idias. As prprias idias nem sempre conservam o nome
do pai; muitas aparecem rfs, nascidas de nada e de ningum. Cada um pega
delas, verte-as como pode, e vai lev-las  feira, onde todos as tm por suas.

CAPTULO XXXVIII

CHEGADA A PROPSITO

Quando, s duas horas da tarde do
dia seguinte, Natividade se meteu no bonde, para ir a no sei que compras na
Rua do Ouvidor, levava a frase consigo. A vista da enseada no a distraiu, nem
a gente que passava, nem os incidentes da rua, nada; a frase ia diante e dentro
dela, com o seu aspecto e tom de ameaa. No Catete, algum entrou de salto, sem
fazer parar o veculo. Adivinha que era o conselheiro; adivinha tambm que, posto
o p no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou para l rpido e
aceitou a ponta do banco que ela lhe ofereceu. Depois dos primeiros
cumprimentos:

 Pareceu-me v-la olhar
assustada, disse Aires.

 Naturalmente, no imaginei que
fosse capaz deste ato de ginstica.

 Questo de costume. As pernas
saltam por si mesmas. Um dia, deixam-me cair, as rodas passam por cima...

 Fosse como fosse, chegou a
propsito.

 Chego sempre a propsito. J lhe
ouvi isso, uma vez, h muitos anos, ou foi a sua irm... Ora, espere, no me
esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do Castelo. No se lembra de
uma tal ou qual cabocla que morava no Castelo, e adivinhava a sorte da gente?
Eu estava aqui de licena, e ouvi dizer coisas do arco-da-velha. Como sempre
tive f em Sibilas, acreditei na cabocla. Que fim levou ela?

Natividade olhou para ele, como
receando se teria adivinhado ento a consulta que ela fez  cabocla.
Pareceu-lhe que no, sorriu e chamou-lhe incrdulo. Aires negou que fosse
incrdulo; ao contrrio, sendo tolerante, professava virtualmente todas as
crenas deste mundo. E concluiu:

 Mas, enfim, por que  que chego
a propsito?

Ou o passado, ou a pessoa, com as
suas maneiras discretas e esprito repousado, ou tudo isso junto, dava a este
homem, relativamente a esta senhora, uma confiana que ela no achava agora em
ningum, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidncia, um papel que no
mostraria ao marido.

 Quero um conselho, conselheiro;
e demais, para que incomodar a meu marido? Quando muito, contarei o negcio a
mana Perptua. Acho melhor no dizer nada a Agostinho.

Aires concordou que no valia a
pena aborrec-lo, se era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da
cabocla, contou primeiro a rivalidade dos filhos, j manifesta em poltica, e
tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a frase da carta e perguntou o que
cumpria fazer mais til. Aires entendeu que eram ardores da mocidade. Que no
teimasse; teimando, ele mudaria de palavras, mas no de sentimentos.

 Ento cr que Paulo ser sempre
isto?

 Sempre, no digo; tambm no
digo o contrrio. Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me
o que  que h definitivo neste mundo, a no ser o voltarete de seu marido?
Esse mesmo falha. H quantos dias no sei o que  uma licena?  verdade que
no tenho aparecido. E depois, o prazer da conversao paga bem o das cartas.
Aposto que os homens casados que l vo so de outro parecer?

 Talvez.

 S os solteires podem avaliar
as idias das mulheres. Um vivo sem filhos, como eu, vale por um solteiro;
minto, aos sessenta anos, como eu, vale por dois ou trs. Quanto ao jovem
Paulo, no pense mais no discurso. Tambm eu discursei em rapaz.

 J cuidei em cas-los.

 Casar  bom, assentiu Aires.

 No digo casar j, mas daqui a
dois ou trs anos. Talvez faa antes uma viagem com eles. Que lhe parece? Vamos
l, no me responda repetindo o que eu digo. Quero o seu pensamento verdadeiro.
Acha que uma viagem?...

 Acho que uma viagem...

 Acabe.

 As viagens fazem bem, mormente
na idade deles. Formam-se para o ano, no ? Pois ento! Antes de comear
qualquer carreira, casados ou no,  til ver outras terras... Mas que
necessidade tem a senhora de ir com eles?

 As mes...

 Mas eu tambm (desculpe
interromp-la) mas eu tambm sou seu filho. No acha que o costume, o bom
rosto, a graa, a afeio e todas as prendas grisalhas que a adornam compem
uma espcie de maternidade? Eu confesso-lhe que ficaria rfo.

 Pois venha conosco.

 Ah! baronesa, para mim j no h
mundo que valha um bilhete de passagem. Vi tudo por vrias lnguas. Agora o
mundo comea aqui no Cais da Glria ou na Rua do Ouvidor e acaba no cemitrio
de So Joo Batista. Ouo que h uns mares tenebrosos para os lados da Ponta do
Caju, mas eu sou um velho incrdulo, como a senhora dizia h pouco, e no
aceito essas notcias sem prova cabal e visual, e para ir averigu-las,
faltam-me pernas.

 Sempre gracioso! No as vi
treparem agora? Sua irm disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta
anos.

 Rita exagera. Mas, voltando 
viagem, a senhora ainda no comprou os bilhetes?

 No.

 No os encomendou sequer?

 Tambm no.

 Ento, pensemos em outra coisa.
Cada dia traz a sua ocupao, quanto mais as semanas e os meses. Pensemos em
outra coisa, e deixe l o Paulo pedir a repblica.

Natividade achou consigo que ele
tinha razo; depois, pensou em outra coisa, e esta foi a idia do princpio.
No disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. No era difcil
com este sujeito. Uma das suas qualidades era falar com mulheres, sem descair
na banalidade nem subir s nuvens; tinha um modo particular, que no sei se
estava na idia, se no gesto, se na palavra. No  que falasse mal de ningum,
e alis seria uma distrao. Quero crer que no dissesse mal por indiferena ou
cautela; provisoriamente, ponhamos caridade.

 Mas, a senhora ainda me no
disse o que queria de mim, alm do conselho. Ou no quer mais nada?

 Custa-me pedir-lhe.

 Pea sempre.

 Sabe que os meus dois gmeos no
combinam em nada, ou s em pouco, por mais esforos que eu tenha feito para os
trazer a certa harmonia. Agostinho no me ajuda; tem outros cuidados. Eu mesma
j no me sinto com foras, e ento pensei que um amigo, um homem moderado, um
homem de sociedade, hbil, fino, cauteloso, inteligente, instrudo...

 Eu, em suma?

 Adivinhou.

 No adivinhei;  o meu retrato em pessoa. Mas ento que lhe parece que possa fazer?

 Pode corrigi-los por boas
maneiras, faz-los unidos, ainda quando discordem, e que discordem pouco ou
nada. No imagina; parece at propsito. No discordam da cor da lua, por
exemplo, mas aos onze anos Pedro descobriu que as sombras da Lua eram nuvens, e
Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se; eu  que os separei.
Imagine em poltica...

 Imagine em amores, diga logo;
mas no  propriamente para esse caso...

 Oh! no!

 Para os outros  igualmente
intil, mas eu nasci para servir, ainda inutilmente. Baronesa, o seu pedido
equivale a nomear-me aio ou preceptor... No faa gestos; no me dou por
diminudo. Contanto que me pague os ordenados... E no se assuste; peo pouco,
pague-me em palavras; as suas palavras so de ouro. J lhe disse que toda a
minha ao  intil.

 Por qu?

  intil.

 Uma pessoa de autoridade, como o
senhor, pode muito, contanto que os ame, porque eles so bons, creia.
Conhece-os bem?

 Pouco.

 Conhea-os mais e ver.

Aires concordou rindo. Para
Natividade valia por uma tentativa nova. Confiava na ao do conselheiro, e
para dizer tudo... No sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga
inclinao do velho diplomata. As cs no lhe tirariam o desejo de a servir.
No sei quem me l nesta ocasio. Se  homem, talvez no entenda logo, mas se 
mulher creio que entender. Se ningum entender, pacincia; basta saber que ele
prometeu o que ela quis, e tambm prometeu calar-se; foi a condio que a outra
lhe ps. Tudo isso polido, sincero e incrdulo.

CAPTULO XXXIX

UM GATUNO

Chegaram ao Largo da Carioca,
apearam-se e despediram-se; ela entrou pela Rua Gonalves Dias, ele enfiou pela
da Carioca. No meio desta, Aires encontrou um magote de gente parada, logo
depois andando em direo ao largo. Aires quis arrepiar caminho, no de medo,
mas de horror. Tinha horror  multido. Viu que a gente era pouca, cinqenta ou
sessenta pessoas, e ouviu que bradava contra a priso de um homem. Entrou num
corredor,  espera que o magote passasse. Duas praas de polcia traziam o
preso pelo brao. De quando em quando, este resistia, e ento era preciso
arrast-lo ou for-lo por outro mtodo. Tratava-se, ao que parece, do furto de
uma carteira.

 No furtei nada!  bradava o
preso detendo o passo.  falso! Larguem-me! sou um cidado livre! Protesto!
protesto!

 Siga para a estao!

 No sigo!

 No siga! bradava a gente
annima. No siga! no siga!

Uma das praas quis convencer a multido
que era verdade, que o sujeito furtara uma carteira, e o desassossego pareceu
minorar um pouco; mas, indo a praa a andar com a outra e o preso,  cada uma
pegando-lhe um dos braos, a multido recomeou a bradar contra a violncia. O
preso sentiu-se animado, e ora lastimoso, ora agressivo, convidava a defesa.
Foi ento que a outra praa desembainhou a espada para fazer um claro. A gente
voou, no airosamente, como a andorinha ou a pomba, em busca do ninho ou do
alimento, voou de atropelo, pula aqui, pula ali, pula acol, para todos os
lados. A espada entrou na bainha, e o preso seguiu com as praas. Mas logo os
peitos tomaram vingana das pernas, e um clamor ingente, largo, desafrontando,
encheu a rua e a alma do preso. A multido fez-se outra vez compacta e caminhou
para a estao policial. Aires seguiu caminho.

A vozeira morreu pouco a pouco, e
Aires entrou na Secretaria do Imprio. No achou o ministro, parece, ou a
conferncia foi curta. Certo  que, saindo  praa, encontrou partes do magote
que tornavam comentando a priso e o ladro. No diziam ladro, mas gatuno,
fiando que era mais doce, e tanto bradavam h pouco contra a ao das praas,
como riam agora das lstimas do preso.

 Ora o sujeito!

Mas ento?... perguntars tu.
Aires no perguntou nada. Ao cabo havia um fundo de justia naquela
manifestao dupla e contraditria; foi o que ele pensou. Depois, imaginou que
a grita da multido protestante era filha de um velho instinto de resistncia 
autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador,
que alis lhe dera um paraso para viver; mas no h paraso que valha o gosto
da oposio. Que o homem se acostume s leis, v; que incline o colo  fora e
ao bel-prazer, v tambm;  o que se d com a planta, quando sopra o vento. Mas
que abenoe a fora e cumpra as leis sempre, sempre, sempre,  violar a
liberdade primitiva, a liberdade do velho Ado. Ia assim cogitando o
conselheiro Aires.

No lhe atribuam todas essas idias.
Pensava assim, como se falasse alto,  mesa ou na sala de algum. Era um
processo de crtica mansa e delicada, to convencida em aparncia, que algum
ouvinte,  cata de idias, acabava por lhe apanhar uma ou duas...

Ia a descer pela Rua Sete de Setembro,
quando a lembrana da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.

CAPTULO XL

RECUERDOS

Essa outra vozeria maior e mais
remota no caberia aqui, se no fosse a necessidade de explicar o gesto
repentino com que Aires parou na calada. Parou, tornou a si e continuou a
andar com os olhos no cho e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde ele servira na qualidade de adido de legao. Estava em casa, de palestra com uma atriz da
moda, pessoa chistosa e garrida. De repente, ouviram um clamor grande, vozes
tumultuosas, vibrantes, crescentes...

 Que rumor  este, Crmen?
perguntou ele entre duas carcias.

 No se assuste, amigo meu;  o
governo que cai.

 Mas eu ouo aclamaes...

 Ento  o governo que sobe. No
se assuste. Amanh  tempo de ir cumpriment-lo.

Aires deixou-se ir rio abaixo
daquela memria velha, que lhe surdia agora do alarido de cinqenta ou sessenta
pessoas. Essa espcie de lembranas tinha mais efeito nele que outras. Recomps
a hora, o lugar e a pessoa da sevilhana. Crmen era de Sevilha. O ex-rapaz
ainda agora recordava a cantiga popular que lhe ouvia,  despedida, depois de
retificar as ligas, compor as saias, e cravar o pente no cabelo,  no momento
em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graa:

Tienen las sevillanas,

En la mantilla,

Un letrero que dice:

Viva Sevilla!

No posso dar a toada, mas Aires
ainda a trazia de cor, e vinha a repeti-la consigo, vagarosamente, como ia
andando. Outrossim, meditava na ausncia de vocao diplomtica. A ascenso de um
governo,  de um regime que fosse,  com as suas idias novas, os seus homens
frescos, leis e aclamaes, valia menos para ele que o riso da jovem
comediante. Onde iria ela? A sombra da moa varreu tudo o mais, a rua, a gente,
o gatuno, para ficar s diante do velho Aires, dando aos quadris e cantarolando
a trova andaluza:

Tienen las sevillanas,

En la mantilla...

CAPTULO XLI

CASO DO BURRO

Se Aires obedecesse ao seu gosto,
e eu a ele, nem ele continuaria a andar, nem eu comearia este captulo; ficaramos
no outro, sem nunca mais acab-lo. Mas no h na memria que dure, se outro
negcio mais forte puxa pela ateno, e um simples burro fez desaparecer Crmen
e a sua trova.

Foi o caso que uma carroa estava
parada, ao p da Travessa de So Francisco, sem deixar passar um carro, e o
carroceiro dava muita pancada no burro da carroa. Vulgar embora, este
espetculo fez parar o nosso Aires, no menos condodo do asno que do homem. A
fora despendida por este era grande, porque o asno ruminava se devia ou no
sair do lugar; mas, no obstante esta superioridade, apanhava que era o Diabo.
J havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta
situao; finalmente o burro preferiu a marcha  pancada, tirou a carroa do
lugar e foi andando.

Nos olhos redondos do animal viu
Aires uma expresso profunda de ironia e pacincia. Pareceu-lhe o gesto largo
de esprito invencvel. Depois leu neles este monlogo: 'Anda, patro,
atulha a carroa de carga para ganhar o capim de que me alimentas. Vive de p
no cho para comprar as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirs que te
chame um nome feio, mas eu no te chamo nada; ficas sendo sempre o meu querido
patro. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida, eu vou pensando que o teu
domnio no vale muito, uma vez que me no tiras a liberdade de teimar...

 V-se, quase que se lhe ouve a
reflexo, notou Aires consigo.

Depois riu de si para si, e foi
andando. Inventara tanta coisa no servio diplomtico, que talvez inventasse o
monlogo do burro. Assim foi; no lhe leu nada nos olhos, a no ser a ironia e
a pacincia, mas no se pde ter que lhes no desse uma forma de palavra, com
as suas regras de sintaxe. A prpria ironia estava acaso na retina dele. O olho
do homem serve de fotografia ao invisvel, como o ouvido serve de eco ao
silncio. Tudo  que o dono tenha um lampejo de imaginao para ajudar a
memria a esquecer Caracas e Crmen, os seus beijos e experincia poltica.

CAPTULO XLII

UMA HIPTESE

Vises e reminiscncias iam assim
comendo o tempo e o espao ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o
pedido de Natividade; mas no o esqueceu de todo, e as palavras trocadas h
pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que no perdia muito em estudar
os rapazes. Chegou a apanhar uma hiptese, espcie de andorinha, que avoaa
entre rvores, abaixo e acima, pousa aqui, pousa ali, arranca de novo um surto
e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hiptese vaga e colorida, a saber,
que se os gmeos tivessem nascido dele talvez no divergissem tanto nem nada,
graas ao equilbrio do seu esprito. A alma do velho entrou a ramalhar no sei
que desejos retrospectivos, e a rever essa hiptese, outra Caracas, outra Crmen,
ele pai, estes meninos seus, toda a andorinha que se dispersava num farfalhar
calado de gestos.

CAPTULO XLIII

O DISCURSO

Natividade  que no teve
distraes de espcie alguma. Toda ela estava nos filhos, e agora especialmente
na carta e no discurso. Comeou por no dar resposta s efuses polticas de
Paulo; foi um dos conselhos do conselheiro. Quando o filho tornou pelas frias
tinha esquecido a carta que escrevera.

O discurso  que ele no esqueceu,
mas quem  que esquece os discursos que faz? Se so bons, a memria os grava em
bronze; se ruins, deixam tal ou qual amargor que dura muito. O melhor dos
remdios, no segundo caso,  sup-los excelentes, e, se a razo no aceita esta
imaginao, consultar pessoas que a aceitem, e crer nelas. A opinio  um velho
leo incorruptvel.

Paulo tinha talento. O discurso
daquele dia podia pecar aqui ou ali por alguma nfase, e uma ou outra idia
vulgar e exausta. Tinha talento Paulo. Em suma, o discurso era bom. Santos
achou-o excelente, leu-o aos amigos e resolveu transcrev-lo nos jornais.
Natividade no se ops, mas entendia que algumas palavras deviam ser cortadas.

 Cortadas, por qu? perguntou
Santos; e ficou esperando a resposta.

 Pois voc no v, Agostinho?
Estas palavras tm sentido republicano, explicou ela relendo a frase que a
afligira.

Santos ouviu-as ler, leu-as para
si, e no deixou de lhe achar razo. Entretanto, no havia de as suprimir.

 Pois no se transcreve o
discurso.

 Ah! isso no! O discurso 
magnfico, e no h de morrer em So Paulo;  preciso que a Corte o leia, e as provncias tambm, e at no se me daria faz-lo traduzir em francs. Em francs, pode ser que fique ainda melhor.

 Mas, Agostinho, isto pode fazer
mal  carreira do rapaz; o imperador pode ser que no goste...

Pedro, que assistia desde alguns
instantes ao debate, interveio docemente para dizer que os receios da me no
tinham base; era bom pr a frase toda, e, a rigor, no diferia muito do que os
liberais diziam em 1848.

 Um monarquista liberal pode
muito bem assinar esse trecho, concluiu ele depois de reter as palavras do
irmo.

 Justamente! assentiu o pai.

Natividade, que em tudo via a
inimizade dos gmeos, suspeitou que o intuito de Pedro fosse justamente
comprometer Paulo. Olhou para ele a ver se lhe descobria essa inteno torcida,
mas a cara do filho tinha ento o aspecto do entusiasmo. Pedro lia trechos do
discurso, acentuando as belezas, repetindo as frases mais novas, cantando as mais
redondas, revolvendo-as na boca, tudo com to boa sombra que a me perdeu a
suspeita, e a impresso do discurso foi resolvida. Tambm se tirou uma edio
em folheto, e o pai mandou encadernar ricamente sete exemplares, que levou aos
ministros, e um ainda mais rico para a Regente.

 Voc diga-lhe, aconselhou
Natividade, que o nosso Paulo  liberal ardente...

 Liberal de 1848, completou
Santos lembrando as palavras de Pedro.

Santos cumpriu  risca. A entrega
se fez naturalmente, e, no palcio Isabel, a definio do 'liberal de
1848' saiu mais viva que as outras palavras, ou para diminuir o cheiro
revolucionrio da frase condenada pela mulher, ou porque trazia valor
histrico. Quando ele voltou a casa, a primeira coisa que lhe disse foi que a
Regente perguntara por ela, mas apesar de lisonjeada com a lembrana,
Natividade quis saber da impresso que lhe fizera o discurso, se j o lera.

 Parece que foi boa. Disse-me que
j havia lido o discurso. Nem por isso deixei de lhe dizer que os sentimentos de
Paulo eram bons; que, se lhe notvamos certo ardor, compreendamos sempre que
eles eram os de um liberal de 1848...

 Papai disse isso? perguntou
Pedro.

 Por que no, se  verdade? Paulo
 o que se pode chamar um liberal de 1848, repetiu Santos querendo convencer o
filho.

CAPTULO XLIV

O SALMO

Pelas frias  que Paulo soube da
interpretao que o pai dera  Regente daquele trecho do discurso. Protestou
contra ela, em casa; quis faz-lo tambm em pblico, mas Natividade interveio a
tempo. Aires ps gua na fervura, dizendo ao futuro bacharel:

 No vale a pena, moo; o que
importa  que cada um tenha as suas idias e se bata por elas, at que elas
venam. Agora que outros as interpretem mal  coisa que no deve afligir o
autor.

 Afligir, sim, senhor; pode
parecer que  assim mesmo... Vou escrever um artigo a propsito de qualquer
coisa, e no deixarei dvidas...

 Para qu? inquiriu Aires.

 No quero que suponham...

 Mas quem duvida dos seus sentimentos?

 Podem duvidar.

 Ora, qual! Em todo caso, v
primeiro almoar comigo um dia destes... Olhe, v domingo, e seu irmo Pedro
tambm. Seremos trs  mesa, um almoo de rapazes. Beberemos certo vinho que me
deu o ministro da Alemanha...

No domingo foram os dois ao
Catete, menos pelo almoo que pelo anfitrio. Aires era amado dos dois;
gostavam de ouvi-lo, de interrog-lo, pediam-lhe anedotas polticas de outro
tempo, descrio de festas, notcias de sociedade.

 Vivam os meus dois jovens, disse
o conselheiro, vivam os meus dois jovens que no esqueceram o amigo velho.
Papai como est? E mame?

 Esto bons, disse Pedro.

Paulo acrescentou que ambos lhe
mandavam lembranas.

 E tia Perptua?

 Tambm est boa, disse Paulo.

 Sempre com a homeopatia e as
suas histrias do Paraguai, acrescentou Pedro.

Pedro estava alegre, Paulo
preocupado. Depois das primeiras saudaes e notcias, Aires notou essa
diferena, e achou que era bom para tirar a monotonia da semelhana; mas,
enfim, no queria caras fechadas, e indagou do estudante de Direito o que  que
ele tinha.

 Nada.

 No pode ser; acho-lhe um ar
meio sorumbtico. Pois eu acordei disposto a rir, e desejo que ambos riam
comigo.

Paulo rosnou uma palavra que
nenhum deles entendeu e sacou do bolso um mao de folhas de papel. Era um
artigo...

 Um artigo?

 Um artigo em que tiro todas as
dvidas a meu respeito, e peo ao senhor que me oua,  pequeno. Escrevi-o a
noite passada.

Aires props ouvi-lo depois do
almoo, mas o rapaz pediu que fosse logo, e Pedro concordou com este alvitre,
alegando que, sobre o almoo, podia perturbar a digesto, como ruim droga que
devia ser, naturalmente. Aires meteu o caso  bulha e aceitou ouvir o artigo.

  pequeno, sete tiras.

 Letra mida?

 No, senhor; assim, assim.

Paulo leu o artigo. Tinha por
epgrafe isto de Ams: 'Ouvi esta palavra, vacas gordas que estais no
monte de Samaria...' As vacas gordas eram o pessoal do regime, explicou
Paulo. No atacava o imperador, por ateno  me, mas com o princpio e o
pessoal era violento e spero. Aires sentiu-lhe aquilo que, em tempo, se chamou
'a bossa da combatividade'. Quando Paulo acabou, Pedro disse em ar de
mofa:

 Conheo tudo isso, so idias
paulistas.

 As tuas so idias coloniais,
replicou Paulo.

Deste intrito podiam nascer
piores palavras, mas felizmente um criado chegou  porta anunciando que o
almoo estava na mesa. Aires ergueu-se e disse que  mesa daria a sua opinio.

 Primeiro o almoo, tanto mais
que temos um salmo, coisa especial! Vamos a ele.

Aires queria cumprir deveras o
ofcio que aceitara de Natividade. Quem sabe se a idia de pai espiritual dos
gmeos, pai de desejo somente, pai que no foi, que teria sido, no lhe dava
uma afeio particular e um dever mais alto que o de simples amigo? Nem  fora
de propsito que ele buscasse somente matria nova para as pginas nuas do seu Memorial.

Ao almoo, ainda se falou do
artigo, Paulo com amor, Pedro com desdm, Aires sem uma nem outra coisa. O
almoo ia fazendo o seu ofcio. Aires estudava os dois rapazes e suas opinies.
Talvez estas no passassem de uma erupo de pele da idade. E sorria, fazia-os
comer e beber, chegou a falar de moas, mas aqui os rapazes, vexados e
respeitosos, no acompanharam o ex-ministro. A poltica veio morrendo. Na
verdade, Paulo ainda se declarou capaz de derrubar a monarquia com dez homens,
e Pedro de extirpar o grmen republicano com um decreto. Mas o ex-ministro, sem
mais decreto que uma caarola, nem mais homens que o seu cozinheiro, envolveu
os dois regimes no mesmo salmo delicioso.

CAPTULO XLV

MUSA, CANTA...

No fim do almoo, Aires deu-lhes
uma citao de Homero, alis duas, uma para cada um, dizendo-lhes que o velho
poeta as cantara separadamente, Paulo no comeo da Ilada:

 'Musa, canta a clera de
Aquiles, filho de Peleu, clera funesta aos gregos, que precipitou  estncia
de Pluto tantas almas vlidas de heris, entregues os corpos s aves e aos
ces...

Pedro estava no comeo da Odissia:

 'Musa, canta aquele heri
astuto, que errou por tantos tempos, depois de destruda a santa lion...

Era um modo de definir o carter
de ambos, e nenhum deles levou a mal a aplicao. Ao contrrio, a citao
potica valia por um diploma particular. O fato  que ambos sorriam de f, de
aceitao, de agradecimento, sem que achassem uma palavra ou slaba com que
desmentissem o adequado dos versos. Que ele, o conselheiro, depois de os citar
em prosa nossa, repetiu-os no prprio texto grego e os dois gmeos sentiram-se
ainda mais picos, to certo  que tradues no valem originais. O que eles
fizeram foi dar um sentido deprimente ao que era aplicvel ao irmo:

 Tem razo, Sr. Conselheiro, 
disse Paulo,  Pedro  um velhaco...

 E voc  um furioso...

 Em grego, meninos, em grego e em
verso, que  melhor que a nossa lngua e a prosa do nosso tempo.

CAPTULO XLVI

ENTRE UM ATO E OUTRO

Aqueles almoos repetiram-se, os
meses passaram, vieram frias, acabaram-se frias, e Aires penetrava bem os
gmeos. Escrevia-os no Memorial, onde se l que a consulta ao velho
Plcido dizia respeito aos dois, e mais a ida  cabocla do Castelo e a briga
antes de nascer, casos velhos e obscuros que ele relembrou, ligou e decifrou.

Enquanto os meses passam, faze de
conta que ests no teatro, entre um ato e outro, conversando. L dentro
preparam a cena, e os artistas mudam de roupa. No vs l; deixa que a dama, no
camarim, ria com os seus amigos o que chorou c fora com os espectadores.
Quanto ao jardim que se est fazendo, no te exponhas a v-lo pelas costas; 
pura lona velha sem pintura, porque s a parte do espectador  que tem verdes e
flores. Deixa-te estar c fora no camarote desta senhora. Examina-lhe os olhos;
tm ainda as lgrimas que lhe arrancou a dama da pea. Fala-lhe da pea e dos
artistas. Que  obscura. Que no sabem os papis; ou ento que  tudo sublime.
Depois percorre os camarotes com o binculo, distribui justia, chama belas s
belas e feias s feias, e no te esqueas de contar anedotas que desfeiem as
belas, e virtudes que componham as feias. As virtudes devem ser grandes e as
anedotas engraadas. Tambm as h banais, mas a mesma banalidade na boca de um
bom narrador faz-se rara e preciosa. E vers como as lgrimas secam
inteiramente, e a realidade substitui a fico. Falo por imagem; sabes que tudo
aqui  verdade pura e sem choro.

CAPTULO XLVII

SO MATEUS, IV, 1-10

Se h muito riso quando um partido
sobe, tambm h muita lgrima do outro que desce, e do riso e da lgrima se faz
o primeiro dia da situao, como no Gnesis. Venhamos ao evangelista que serve
de ttulo ao captulo. Os liberais foram chamados ao poder, que os
conservadores tiveram de deixar. No  mister dizer que o abatimento de Batista
foi enorme.

 Justamente agora que eu tinha
esperanas, disse ele  mulher.

 De qu?

 Ora de qu! de uma presidncia.
No disse nada, porque podiam falhar, mas  quase certo que no. Tive duas
conferncias, no com ministros, mas com pessoa influente que sabia, e era
negcio de esperar um ms ou dois...

 Presidncia boa?

 Boa.

 Se voc tinha trabalhado bem...

 Se tivesse trabalhado bem, podia
estar j de posse, mas vnhamos agora a toque de caixa.

 Isso  verdade, concordou D.
Cludia olhando para o futuro.

Batista passeava, as mos nas
costas, os olhos no cho, suspirando, sem prever o tempo em que os
conservadores tornariam ao poder. Os liberais estavam fortes e resolutos. As
mesmas idias pairavam na cabea de D. Cludia. Este casal s no era igual na
vontade; as idias eram muitas vezes tais que, se aparecessem c fora, ningum
diria quais eram as dele, nem quais as dela, pareciam vir de um crebro nico.
Naquele momento nenhum achava esperana imediata ou remota. Uma s idia
vaga... E foi aqui que a vontade de D. Cludia fincou os ps no cho e cresceu.
No falo s por imagem; D. Cludia levantou-se da cadeira, rpida, e disparou
esta pergunta ao marido:

 Mas, Batista, voc o que  que
espera mais dos conservadores?

Batista parou com um ar digno e
respondeu com simplicidade:

 Espero que subam.

 Que subam? Espera oito ou dez
anos, o fim do sculo, no ? E nessa ocasio voc sabe se ser aproveitado?
Quem se lembrar de voc?

 Posso fundar um jornal.

 Deixe-se de jornais. E se
morrer?

 Morro no meu posto de honra.

D. Cludia olhou fixa para ele. Os
seus olhos midos enterravam-se pelos dele abaixo, como duas verrumas
pacientes. Sbito, levantando as mos abertas:

 Batista, voc nunca foi
conservador!

O marido empalideceu e recuou,
como se ouvira a prpria ingratido de um partido. Nunca fora conservador? Mas
que era ele ento, que podia ser neste mundo? Que  que lhe dava a estima dos
seus chefes? No lhe faltava mais nada... D. Cludia no atendeu a explicaes,
repetiu-lhe as palavras, e acrescentou:

 Voc estava com eles, como a
gente est num baile, onde no  preciso ter as mesmas idias para danar a
mesma quadrilha.

Batista sorriu leve e rpido;
amava as imagens graciosas e aquela pareceu-lhe graciosssima, tanto que
concordou logo; mas a sua estrela inspirou-lhe uma refutao pronta.

 Sim, mas a gente no dana com
idias, dana com pernas.

 Dance com que for, a verdade 
que todas as suas idias iam para os liberais; lembre-se que os dissidentes na
provncia acusavam a voc de apoiar os liberais...

 Era falso; o governo  que me
recomendava moderao. Posso mostrar cartas.

 Qual moderao! Voc  liberal.

 Eu liberal?

 Um liberalo, nunca foi outra
coisa.

 Pense no que diz, Cludia. Se
algum a ouvir  capaz de crer, e da a espalhar...

 Que tem que espalhe? Espalha a
verdade, espalha a justia, porque os seus verdadeiros amigos no o ho de
deixar na rua, agora que tudo se organiza. Voc tem amigos pessoais no
ministrio; por que  que os no procura?

Batista recuou com horror. Isto de
subir as escadas do poder e dizer-lhe que estava s ordens no era concebvel
sequer. D. Cludia admitiu que no, mas um amigo faria tudo, um amigo ntimo do
governo que dissesse ao Ouro Preto: Visconde, voc por que  que no convida o
Batista? Foi sempre liberal nas idias. D-lhe uma presidncia, pequena que
seja, e...

Batista fez um gesto de ombros,
outro de mo que se calasse. A mulher no se calou; foi dizendo as mesmas
coisas, agora mais graves pela insistncia e pelo tom. Na alma do marido a
catstrofe era j tremenda. Pensando bem, no recusaria passar o Rubicon; s
lhe faltava a fora necessria. Quisera querer. Quisera no ver nada, nem
passado, nem presente, nem futuro, no saber de homens nem de coisas, e
obedecer aos dados da sorte, mas no podia.

E faamos justia ao homem. Quando
ele pensava s na fidelidade aos amigos sentia-se melhor; a mesma f existia, o
mesmo costume, a mesma esperana. O mal vinha de olhar para o lado de l; e era
D. Cludia que lhe mostrava com o dedo a carreira, a alegria, a vida, a marcha
certa e longa, a presidncia, o ministrio... Ele torcia os olhos e ficava.

A ss consigo, Batista pensou
muita vez na situao pessoal e poltica. Apalpava-se moralmente. Cludia podia
ter razo. Que  que havia nele propriamente conservador, a no ser esse
instinto de toda criatura, que a ajuda a levar este mundo? Viu-se conservador
em poltica, porque o pai o era, o tio, os amigos da casa, o vigrio da
parquia, e ele comeou na escola a execrar os liberais. E depois no era
propriamente conservador, mas saquarema, como os liberais eram luzias.
Batista agarrava-se agora a estas designaes obsoletas e deprimentes que
mudavam o estilo aos partidos; donde vinha que hoje no havia entre eles o
grande abismo de 1842 e 1848. E lembrava-se do Visconde de Albuquerque ou de
outro senador que dizia em discurso no haver nada mais parecido com um
conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o Partido
Progressista, Olinda, Nabuco, Zacarias. Que foram eles seno conservadores que
compreenderam os tempos novos e tiraram s idias liberais aquele sangue das
revolues, para lhes pr uma cor viva, sim, mas serena? Nem o mundo era dos
emperrados... Neste ponto passou-lhe um frio pela espinha. Justamente nessa
ocasio apareceu Flora. O pai abraou-a com amor, e perguntou-lhe se queria ir
para alguma provncia, sendo ele presidente.

 Mas os conservadores no caram?

 Caram, sim, mas supe que...

 Ah! no, papai!

 No, por qu?

 No desejo sair do Rio de
Janeiro.

Talvez o Rio de Janeiro para ela
fosse Botafogo, e propriamente a casa de Natividade. O pai no apurou as causas
da recusa; sup-las polticas, e achou novas foras para resistir s tentaes
de D. Cludia: 'Vai-te, Satans; porque escrito est: Ao Senhor teu Deus
adorars, e a ele servirs'. E seguiu-se como na Escritura: 'Ento o
deixou o Diabo; e eis que chegaram os anjos e o serviram'. Os anjos foram
s um, que valia por muitos; e o pai lhe disse beijando-a carinhosamente:

 Muito bem, muito bem, minha
filha.

 No , papai?

No, no foi a filha que tolheu a
desero do pai. Ao contrrio. Batista, se tivesse de ceder, cederia  mulher
ou ao Diabo, sinnimos neste captulo. No cedeu de fraqueza. No tinha a fora
precisa de trair os amigos, por mais que estes parecessem hav-lo abandonado.
H dessas virtudes feitas de acanho e timidez, e nem por isso menos lucrativas,
moralmente falando. No valem s esticos e mrtires. Virtudes meninas tambm
so virtudes.  certo, porm, que a linguagem dele, em relao aos liberais,
no era j de dio ou impacincia; chegava  tolerncia, roava pela justia.
Concordava que a alternao dos partidos era um princpio de necessidade
pblica. O que fazia era animar os amigos. Tornariam cedo ao poder. Mas D.
Cludia opinava o contrrio; para ela, os liberais iriam ao fim do sculo.
Quando muito, admitiu que na primeira entrada no dessem lugar a um converso da
ltima hora; era preciso esperar um ano ou dois, uma vaga na cmara, uma
comisso, a vice-presidncia do Rio...

CAPTULO XLVIII

TERPSCORE

Nenhuma dessas coisas preocupava
Natividade. Mais depressa cuidaria do baile da ilha Fiscal, que se realizou em
novembro para honrar os oficiais chilenos. No  que ainda danasse, mas
sabia-lhe bem ver danar os outros, e tinha agora a opinio de que a dana  um
prazer dos olhos. Esta opinio  um dos efeitos daquele mau costume de
envelhecer. No pegues tal costume, leitora. H outros, tambm ruis, nenhum
pior, este  o pssimo. Deixa l dizerem filsofos que a velhice  um estado
til pela experincia e outras vantagens. No envelheas, amiga minha, por mais
que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito, aceita o estio. O
estio  bom, clido, as noites so breves,  certo, mas as madrugadas no
trazem neblina, e o cu aparece logo azul. Assim danars sempre.

Bem sei que h gente para quem a
dana  antes um prazer dos olhos. Nem as bailadeiras so outra coisa mais que
mulheres de ofcio. Tambm eu, se  lcito citar algum a si mesmo, tambm eu
acho que a dana  antes prazer dos olhos que dos ps, e a razo no  s dos
anos longos e grisalhos, mas tambm outra que no digo, por no valer a pena.
Ao cabo, no estou contando a minha vida, nem as minhas opinies, nem nada que
no seja das pessoas que entram no livro. Estas  que preciso pr aqui
integralmente com as suas virtudes e imperfeies, se as tm. Entende-se isto,
sem ser preciso not-lo, mas no se perde nada em repeti-lo.

Por exemplo, D. Cludia. Tambm
ela pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor idia de danar, nem a razo
esttica da outra. Para ela, o baile da ilha era um fato poltico, era o baile
do ministrio, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma
presidncia. Via-se j com a famlia imperial. Ouvia a princesa:

 Como vai, D. Cludia?

 Perfeitamente bem, Serenssima
senhora.

E Batista conversaria com o
imperador, a um canto, diante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o
dilogo,  fora de os fitarem de longe. O marido  que... No sei que diga do
marido relativamente ao baile da ilha. Contava l ir, mas no se acharia a
gosto; pode ser que traduzissem esse ato por meia converso. No  que s
fossem liberais ao baile, tambm iriam conservadores, e aqui cabia bem o
aforismo de D. Cludia que no  preciso ter as mesmas idias para danar a
mesma quadrilha.

Santos  que no precisava de
idias para danar. No danaria sequer. Em moo danou muito, quadrilhas,
polcas, valsas, a valsa arrastada e a valsa pulada, como diziam ento, sem que
eu possa definir melhor a diferena; presumo que na primeira os ps no saam
do cho, e na segunda no caam do ar. Tudo isso at os vinte e cinco anos.
Ento os negcios pegaram dele e o meteram naquela outra contradana, em que
nem sempre se volta ao mesmo lugar ou nunca se sai dele. Santos saiu e j
sabemos onde est. Ultimamente teve a fantasia de ser deputado. Natividade
abanou a cabea, por mais que ele explicasse que no queria ser orador nem
ministro, mas to somente fazer da Cmara um degrau para o Senado, onde possua
amigos, pessoas de merecimento, e que era eterno.

 Eterno? interrompeu ela com um
sorriso fino e descorado.

 Vitalcio, quero dizer.

Natividade teimou que no, que a
posio dele era comercial e bancria. Acrescentou que poltica era uma coisa e
indstria outra. Santos replicou, citando o Baro de Mau, que as fundiu ambas.
Ento a mulher declarou por um modo seco e duro que aos sessenta anos ningum
comea a ser deputado.

 Mas  de passagem; os senhores
so idosos.

 No, Agostinho, concluiu a
baronesa com um gesto definitivo.

No conto Aires, que provavelmente
danaria, a despeito dos anos; tambm no falo de D. Perptua, que nem iria l.
Pedro iria, e  natural que danasse, e muito, no obstante o afinco e paixo
dos seus estudos. Vivia enfeitiado pela medicina. No quarto de dormir, alm do
busto de Hipcrates, tinha os retratos de algumas sumidades mdicas da Europa,
muito esqueleto gravado, muita molstia pintada, peitos cortados verticalmente
para se lhes verem os vasos, crebros descobertos, um cancro de lngua, alguns
aleijes, coisas todas que a me, por seu gosto, mandaria deitar fora, mas era
a cincia do filho, e bastava. Contentava-se de no olhar para os quadros.

Quanto a Flora, ainda verde para
os meneios de Terpscore, era acanhada ou arrepiada, como dizia a me. E isto
era o menos; o mais era que com pouco se enfadaria, e, se no pudesse vir logo
para casa, ficaria adoentada o resto do tempo. Note-se que, estando na ilha,
teria o mar em volta, e o mar era um dos seus encantos; mas, se lhe lembrasse o
mar, e se consolasse com a esperana de o mirar, advertiria tambm que a noite
escura tolheria a consolao. Que multido de dependncias na vida, leitor!
Umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se,
e o tempo vai andando sem se perder a si.

Mas donde viria o tdio a Flora,
se viesse? Com Pedro no baile, no; este era, como sabes, um dos dois que lhe
queriam bem. Salvo se ela queria principalmente ao que estava em So Paulo. Concluso duvidosa, pois no  certo que preferisse um a outro. Se j a vimos
falar a ambos com a mesma simpatia, o que fazia agora a Pedro na ausncia de
Paulo, e faria a Paulo na ausncia de Pedro, no me faltar leitora que presuma
um terceiro... Um terceiro explicaria tudo, um terceiro que no fosse ao baile,
algum estudante pobre, sem outro amigo nem mais casaca que o corao verde e
quente. Pois nem esse, leitora curiosa, nem terceiro, nem quarto, nem quinto,
ningum mais. Uma esquisitona, como lhe chamava a me.

No importa; a esquisitona foi ao
baile da ilha Fiscal com a me e o pai. Assim tambm Natividade, o marido e
Pedro, assim Aires, assim a demais gente convidada para a grande festa. Foi uma
bela idia do governo, leitor. Dentro e fora, do mar e de terra, era como um
sonho veneziano; toda aquela sociedade viveu algumas horas suntuosas, novas
para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos,  ou, quando menos,
para a nossa amiga Natividade  e para o conservador Batista.

Aquela considerava o destino dos
filhos,  coisas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o sculo XX
e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquela mesma
ilha. Compunha a ornamentao, via as pessoas e as danas, toda uma festa magna
que entraria na histria. Tambm ela ali estaria, sentada a um canto, sem se
lhe dar do peso dos anos, uma vez que visse a grandeza e a prosperidade dos
filhos. Era assim que enfiara os olhos pelo tempo adiante, descontando no
presente a felicidade futura, caso viesse a morrer antes das profecias. Tinha a
mesma sensao que ora lhe dava aquela cesta de luzes no meio da escurido
tranqila do mar.

A imaginao de Batista era menos
longa que a de Natividade. Quero dizer que ia antes do princpio do sculo,
Deus sabe se antes do fim do ano. Ao som da msica,  vista das galas, ouvia
umas feiticeiras cariocas, que se pareciam com as escocesas; pelo menos, as
palavras eram anlogas s que saudaram Macbeth:  'Salve, Batista,
ex-presidente de provncia!'  'Salve, Batista, prximo presidente de
provncia!'  'Salve, Batista, tu sers ministro um dia!' A
linguagem dessas profecias era liberal, sem sombra de solecismo. Verdade  que
ele se arrependia de as escutar, e forcejava por traduzi-las no velho idioma
conservador, mas j lhe iam faltando dicionrios. A primeira palavra ainda
trazia o sotaque antigo: 'Salve, Batista, ex-presidente de
provncia!' mas a segunda e a ltima eram ambas daquela outra lngua
liberal, que sempre lhe pareceu lngua de preto. Enfim, a mulher, como lady
Macbeth, dizia nos olhos o que esta dizia pela boca, isto , que j sentia em
si aquelas futuraes. O mesmo lhe repetiu na manh seguinte, em casa. Batista, com um sorriso disfarado, descria das feiticeiras, mas a memria guardava as
palavras da ilha: 'Salve, Batista, prximo presidente!' Ao que ele
respondia com um suspiro: No, no, filhas do Diabo...

Ao contrrio do que ficou dito
atrs, Flora no se aborreceu na ilha. Conjeturei mal, emendo-me a tempo. Podia
aborrecer-se pelas razes que l ficam, e ainda outras que poupei ao leitor
apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a
vizinhana do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus
lampies de gs, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis a aspectos
novos que a encantaram durante aquelas horas rpidas.

No lhe faltavam pares, nem
conversao, nem alegria alheia e prpria. Toda ela compartia da felicidade dos
outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Tambm
invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto
poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar s, no mais
recndito do pao, fartando-se de contemplao ou de msica. Era assim que Flora
definia o ofcio de governar. Tais idias passavam e tornavam. De uma vez
algum lhe disse, como para lhe dar fora: 'Toda alma livre  imperatriz!

No foi outra voz, semelhante 
das feiticeiras do pai nem s que falavam interiormente a Natividade, acerca
dos filhos. No; seria pr aqui muitas vozes de mistrio, coisa que, alm do
fastio da repetio, mentiria  realidade dos fatos. A voz que falou a Flora
saiu da boca do velho Aires, que se fora sentar ao p dela e lhe perguntara:

 Em que  que est pensando?

 Em nada, respondeu Flora.

Ora, o conselheiro tinha visto no
rosto da moa a expresso de alguma coisa e insistia por ela. Flora disse como
pde a inveja que lhe metia a vista da princesa, no para brilhar um dia, mas
para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quisesse ficar sdita de si mesma.
Foi ento que ele lhe murmurou, como acima:

 Toda alma livre  imperatriz.

A frase era boa, sonora, parecia
conter a maior soma de verdade que h na Terra e nos planetas. Valia por uma
pgina de Plutarco. Se algum poltico a ouvisse poderia guard-la para os seus
dias de oposio ao governo, quando viesse o terceiro reinado. Foi o que ele
mesmo escreveu no Memorial. Com esta nota: 'A meiga criatura
agradeceu-me estas cinco palavras'.

CAPTULO XLIX

TABULETA VELHA

Toda a gente voltou da ilha com o
baile na cabea, muita sonhou com ele, alguma dormiu mal ou nada. Aires foi dos
que acordaram tarde; eram onze horas. Ao meio-dia almoou; depois escreveu no Memorial
as impresses da vspera, notou vrias espduas, fez reparos polticos e acabou
com as palavras que l ficam no cabo do outro captulo. Fumou, leu, at que
resolveu ir  Rua do Ouvidor. Como chegasse  vidraa de uma das janelas da
frente, viu  porta da confeitaria uma figura inesperada, o velho Custdio,
cheio de melancolia. Era to novo o espetculo que ali se deixou estar por
alguns instantes; foi ento que o confeiteiro, levantando os olhos, deu com ele
entre as cortinas, e enquanto Aires voltava para dentro, Custdio atravessou a
rua e entrou-lhe em casa.

 Que suba, disse o conselheiro ao
criado.

Custdio foi recebido com a
benevolncia de outros dias e um pouco mais de interesse. Aires queria saber o
que  que o entristecia.

 Vim para cont-lo a V. Excia.; 
a tabuleta.

 Que tabuleta?

 Queira V. Excia.ver por seus
olhos, disse o confeiteiro, pedindo-lhe o favor de ir  janela.

 No vejo nada.

 Justamente,  isso mesmo. Tanto
me aconselharam que fizesse reformar a tabuleta que afinal consenti, e fi-la
tirar por dois empregados. A vizinhana veio para a rua assistir ao trabalho e
parecia rir de mim. J tinha falado a um pintor da Rua da Assemblia; no
ajustei o preo porque ele queria ver primeiro a obra. Ontem,  tarde, l foi
um caixeiro, e sabe V. Excia.o que me mandou dizer o pintor? Que a tbua est
velha, e precisa outra; a madeira no agenta tinta. L fui s carreiras. No
pude convenc-lo de pintar na mesma madeira; mostrou-me que estava rachada e
comida de bichos. Pois c de baixo no se via. Teimei que pintasse assim mesmo;
respondeu-me que era artista e no faria obra que se estragasse logo.

 Pois reforme tudo. Pintura nova
em madeira velha no vale nada. Agora ver que dura pelo resto da nossa vida.

 A outra tambm durava; bastava
s avivar as letras.

Era tarde, a ordem fora expedida,
a madeira devia estar comprada, serrada e pregada, pintando o fundo para ento
se desenhar e pintar o ttulo. Custdio no disse que o artista lhe perguntara
pela cor das letras, se vermelha, se amarela, se verde em cima de branco ou
vice-versa, e que ele, cautelosamente, indagara do preo de cada cor para
escolher as mais baratas. No interessa saber quais foram.

Quaisquer que fossem as cores,
eram tintas novas, tbuas novas, uma reforma que ele, mais por economia que por
afeio, no quisera fazer; mas a afeio valia muito. Agora que ia trocar de
tabuleta sentia perder algo do corpo,  coisa que outros do mesmo ou diverso
ramo de negcio no compreenderiam, tal gosto acham em renovar as caras e fazer
crescer com elas a nomeada. So naturezas. Aires ia pensando em escrever uma
Filosofia das Tabuletas, na qual poria tais e outras observaes, mas nunca deu
comeo  obra.

 V. Excia.h de me perdoar o
incmodo que lhe trouxe, vindo contar-lhe isto, mas V. Excia. sempre to bom
comigo, fala-me com tanta amizade, que eu me atrevi... Perdoa-me, sim?

 Sim, homem de Deus.

 Conquanto V. Excia.aprove a
reforma da tabuleta, sentir comigo a separao da outra, a minha amiga velha,
que nunca me deixou, que eu, nas noites de luminrias, por So Sebastio e
outras, fazia aparecer aos olhos da gente. V. Excia., quando se aposentou, veio
ach-la no mesmo lugar em que a deixou por ocasio de ser nomeado. E tive alma
para me separar dela!

 Est bom, l vai; agora 
receber a nova, e ver como daqui a pouco so amigos.

Custdio saiu recuando, como era o
seu costume, e desceu trpego as escadas. Diante da confeitaria deteve-se um
instante, para ver o lugar onde estivera a tabuleta velha. Deveras, tinha
saudades.

CAPTULO L

O TINTEIRO DE EVARISTO

...Este caso prova que tudo se
pode amar muito bem, ainda um pedao de madeira velha. Creiam que no era s a
despesa que ele naturalmente sentia, eram tambm saudades. Ningum se despega
assim de um objeto to ntimo, que faz parte integral da casa e da pele, porque
a tabuleta no foi sequer arriada um dia. Custdio no teve ocasio de ver se
estava estragada. Vivia ali como as portadas e a parede.

Era ao jantar, em Botafogo. S quatro pessoas, as duas irms, Santos e Aires. Pedro fora jantar a So Clemente,
com a famlia Batista.

D. Perptua aprovou os sentimentos
do confeiteiro. Citou, a propsito, o tinteiro de Evaristo. A irm sorriu para
o marido, e este para a mulher, como se dissessem: 'l vem ele!' Era
um tinteiro que servira ao famoso jornalista do primeiro reinado e da Regncia,
obra simples, feita de barro, igual aos tinteiros que a gente ch comprava nas
lojas de papel daquele e deste tempo. O sogro de D. Perptua, que lho dera em
lembrana, tivera um da mesma idade, massa e feio.

 Veio assim de mo em mo parar
s minhas. No chega aos tinteiros do mano Agostinho nem de Natividade, que so
luxuosos, mas tem grande valor para mim.

 Sem dvida, concordou Aires,
valor histrico e poltico.

 Meu sogro dizia que dele saram
os grandes artigos da Aurora. A falar verdade, eu nunca li tais artigos,
mas meu sogro era homem de verdade. Conhecia a vida de Evaristo, por ouvi-la a
outros, e fazia-lhe louvores que no acabavam mais...

Natividade buscou desviar a
conversao para o baile da vspera. Tinham j falado dele, mas no achou outro
derivativo. Entretanto, o tinteiro ainda ficou algum tempo. No era s uma das
lembranas de D. Perptua, relquia de famlia, era tambm uma de suas idias.
Prometeu mostr-lo ao conselheiro. Ele prometeu v-lo com muito gosto.
Confessou que tinha venerao aos objetos de uso dos grandes homens. Enfim, o
jantar acabou, e eles passaram ao salo. Aires, falando da enseada:

 Aqui est uma obra, que  mais
velha que o tinteiro do Evaristo e a tabuleta do Custdio, e, no obstante,
parece mais moa, no  verdade, D. Perptua? A noite  clara e quente; podia
ser escura e fria, e o efeito seria o mesmo. A enseada no difere de si. Talvez
os homens venham algum dia a atulh-la de terra e pedras para levantar casas em
cima, um bairro novo, com um grande circo destinado a corridas de cavalos. Tudo
 possvel debaixo do sol e da lua. A nossa felicidade, baro,  que morreremos
antes.

 No fale em morte, conselheiro.

 A morte  uma hiptese,
redargiu Aires, talvez uma lenda. Ningum morre de uma boa digesto, e os seus
charutos so deliciosos.

 Estes so novos. Parecem-lhe
bons?

 Deliciosos.

Santos estimou ouvir este louvor;
achava-lhe uma inteno direta  sua pessoa, aos seus mritos, ao seu nome, 
posio que tinha na sociedade,  casa,  chcara, ao Banco, aos coletes. 
talvez muito; seria um modo enftico de explicar a fora da ligao dele aos
charutos. Valiam pela tabuleta e pelo tinteiro, com a diferena que estes
significavam s afeio e venerao, e aqueles, valendo pelo sabor e pelo
preo, tinham a superioridade do milagre, pela reproduo de todos os dias.

Tais eram as suspeitas que vagavam
no crebro de Aires, enquanto ele olhava mansamente para o anfitrio. Aires no
podia negar a si mesmo a averso que este lhe inspirava. No lhe queria mal,
decerto; podia at querer-lhe bem, se houvesse um muro entre ambos. Era a
pessoa, eram as sensaes, os dizeres, os gestos, o riso, a alma toda que lhe fazia
mal.

CAPTULO LI

AQUI PRESENTE

Perto das nove horas ou logo
depois, chegou Pedro com o casal Batista e Flora.

 Vimos trazer o seu menino, disse
Batista a Natividade.

 Obrigado, doutor, acudiu Santos,
mas ele j no est em idade de se perder por essas ruas e, se se perder,
acha-se logo, acrescentou sorrindo.

Natividade no gostou da graa,
tratando-se do filho e ao p dela. Era talvez excesso de pudor. H muito
excesso nesse sentido, e o acertado  perdo-lo. H tambm excessos contrrios,
condescendncias fceis, pessoas que entram com prazer na troca de aluses
picantes. Tambm se devem perdoar. Em suma, o perdo chega ao Cu. Perdoai-vos
uns aos outros,  a lei do Evangelho.

Ele, o rapaz,  que no ouvia
nada; interrompeu a conversa que trazia com Flora, e trocadas algumas palavras,
os dois foram reatar o fio a um canto. Aires reparou na atitude de ambos;
ningum mais lhes prestava ateno. Ao cabo, a conversa era em voz surda; no
os poderiam ouvir. Ela escutava, ele falava; depois era o contrrio, ela  que
falava, ele  que ouvia, to absortos que pareciam no atender a ningum, mas
atendiam. Possuam o sexto sentido dos conspiradores e dos namorados. Que
conversassem de amores,  possvel; mas que conspiravam,  certo. Quanto  matria
da conspirao, podereis sab-la depois, brevemente, daqui a um captulo. O
prprio Aires no descobriu nada, por mais que quisesse fartar os olhos naquele
dilogo de mistrios. Persuadiu-se que no era grave, porque eles sorriam com
freqncia; mas podia ser ntimo, escondido, pessoal, e acaso estranho. Supe
um fio de anedotas ou uma histria comprida, coisa alheia; ainda assim podia
ser deles semente, porque h estados da alma em que a matria da narrao 
nada, o gosto de a fazer e de a ouvir  que  tudo. Tambm podia ser isto.

Vede, porm, como a natureza
encaminha as coisas mnimas ou mximas, mormente se a fortuna a ajuda. A
conversao to doce, ao que parecia, comeou por um enfado. A causa foi uma
carta de Paulo, escrita ao irmo, e que este se lembrou de mostrar a Flora,
dizendo-lhe que tambm a mostrara  me, e a me se zangara muito.

 Com o senhor?

 Com Paulo.

 Mas que dizia a carta?

Pedro leu-lhe o ponto principal,
que era quase toda a carta; falava da questo militar. J havia a 'questo
militar', um conflito de generais e ministros, e a linguagem de Paulo era
contra os ministros.

 Mas por que  que o senhor foi
mostrar essa carta a sua me?

 Mame quis saber o que  que ele
me dizia.

 E sua me zangou-se, a est;
vai talvez repreend-lo.

 Tanto melhor; Paulo precisa ser
emendado; mas, diga-me, por que  que a senhora defende sempre a meu irmo?

 Para ter o direito de defender
tambm ao senhor.

 Ento ele j lhe tem falado mal
de mim?

Flora quis dizer que sim, depois
que no, afinal calou. Desconversou, perguntando por que eles se davam mal.
Pedro negou que se dessem mal. Ao contrrio, viviam bem. No teriam as mesmas
opinies, e tambm podia ser que tivessem o mesmo gosto... Daqui a dizer que
ambos a amavam era uma vrgula; Pedro pintou o ponto final. Esse astuto era
tambm tmido. Mais tarde, compreendeu que, calando, andou melhor, e deu a si
mesmo o aplauso da escolha; mas era falso, no escolhera nada. No digo isto
para faz-lo desmerecer; sim, porque o medo acerta muitas vezes, e  mister
deixar aqui esta reflexo.

Veio a zanga. Flora no replicou
mais nada, e, por seu gosto, no teria jantado, a tal ponto sentia piedade do
outro. Felizmente, o outro era este mesmo, aqui presente, com os olhos
presentes, as mos presentes, as palavras presentes. No tardou que a zanga
fugisse diante da graa, da brandura e da adorao. Bem-aventurados os que
ficam, porque eles sero compensados.

CAPTULO LII

UM SEGREDO

Eis agora a matria da
conspirao. Na rua, ao virem de So Clemente, foi que Pedro, gastado o melhor
do tempo com a carta e o jantar, pde revelar  moa um segredo:

 Titia disse l em casa que D.
Cludia lhe contara em segredo (no diga nada) que seu pai vai ser nomeado
presidente de provncia.

 No sei nada disso, mas no
creio, porque papai  conservador.

 D. Cludia disse a titia que ele
 liberal, quase radical. Parece que a presidncia  certa; ela pediu segredo,
e titia, quando nos contou, tambm pediu segredo. Eu tambm lhe peo que no
diga nada, mas  verdade.

 Verdade como? Papai no vai com
liberais; o senhor no sabe como papai  conservador. Se ele defende os
liberais  porque  tolerante.

 Se a provncia fosse a do Rio de
Janeiro, eu gostaria, porque no era preciso ir morar na Praia Grande, e se ele
fosse, a viagem  s de meia hora, eu podia ir l todos os dias.

 Era capaz?

 Apostemos.

Flora, depois de um instante:

 Para que, se no h presidncia?

 Suponha que h.

  preciso supor muito,  que h
presidncia e que a provncia  a do Rio. No, no h nada.

 Ento suponha s metade,  que
h presidncia e que  Mato Grosso.

Flora teve um calafrio. Sem
admitir a nomeao, tremeu ao nome da provncia. Pedro lembrou ainda o
Amazonas, Par, Piau... Era o infinito, mormente se o pai fizesse boa
administrao, porque no voltaria to cedo. J agora a moa resistia menos,
achava possvel e abominvel, mas dizia isto para si, dentro do corao. De
repente, Pedro, quase estacando o passo:

 Se ele for, eu peo ao governo o
lugar de secretrio e vou tambm.

A luz intermitente das lojas,
refletindo no rosto da moa,  medida que eles iam passando por elas, ajudava a
dos lampies da rua, e mostrava a emoo daquela promessa. Sentia-se que o
corao de Flora devia estar batendo muito. Em breve, porm, comeou ela a
pensar em outra coisa. Natividade no consentiria nunca; depois, um
estudante... No podia ser. Pensou em algum escndalo. Que ele fugisse,
embarcasse, fosse atrs dela...

Tudo isto era visto ou pensado em silncio. Flora no se admirava de pensar tanto e to atrevidamente; era como o peso do
corpo, que no sentia: andava, pensava, como transpirava. No calculou sequer o
tempo que ia gastando em imaginar e desfazer idias. Que isto lhe desse mais
prazer que desprazer,  certo. Ao p dela, Pedro ia naturalmente cuidando, com
os olhos nos ps, e os ps nas nuvens. No sabia que dissesse no meio de to
longo silncio. Entretanto, a soluo parecia-lhe nica. J no pensava na
presidncia do Rio. Queria-se com ela, no ponto mais remoto do imprio, sem o
irmo. A esperana de se desterrarem assim de Paulo verdejou na alma de Pedro.
Sim, Paulo no iria tambm; a me no se deixaria ficar desamparada. Que
perdesse um filho, v; mas ambos...

A quem quer que este final de
monlogo parea egosta, peo-lhe pelas almas dos seus parentes e amigos, que
esto no Cu, peo-lhe que considere bem as causas. Considere o estado da alma
do rapaz, a contigidade da moa, as razes e as flores da paixo, a prpria
idade de Pedro, o mal da terra, o bem da mesma Terra. Considere mais a vontade
do Cu, que vela por todas as criaturas que se querem, salvo se um s  que
quer a outra, porque ento o Cu  um abismo de iniqidades, e no lhe importa
esta imagem. Considere tudo, amigo; deixe-me ir contando s e contando mal o
que se passou naquele curto trnsito entre as duas casas. Quando l chegaram,
falavam de boca.

Em cima, como viste, continuaram a
falar, at que o assunto da presidncia voltou. Flora notou ento a cautelosa
insistncia com que Aires olhava para eles, como se buscasse adivinhar a
matria da conversao. Sentia que no estivesse ali tambm, ouvindo e falando,
finalmente prometendo fazer alguma coisa por ela. Aires podia, sim,  era seu
amigo e todos o tinham em grande conta,  podia intervir e destruir o projeto
da presidncia.

Sem querer nem saber, diria isto
mesmo com os olhos ao velho diplomata. Retirava-os, mas eles iam de si mesmos
repetir o monlogo, e acaso perguntar alguma coisa que Aires no percebia e
devia ser interessante. Pode ser que refletissem a angstia ou o que quer que
era que lhe doa dentro. Pode ser; a verdade  que Aires comeou a ficar
curioso, e to depressa Pedro deixou o lugar, para acudir ao chamado da me,
deixou ele Natividade para ir falar  moa.

Flora, j de p, mal teve tempo de
trocar duas palavras, dessas que se no podem interromper sem dor ou prurido,
ao menos. Aires perguntava-lhe se nunca lhe dissera que sabia adivinhar.

 No, senhor.

 Pois sei; adivinhei agora mesmo
que me quer dizer um segredo.

Flora ficou espantada. No
querendo negar nem confessar, respondeu-lhe que s adivinhara metade.

 A outra ?...

 A outra  pedir-lhe um obsquio
de amizade.

 Pea.

 No, agora no, j nos vamos
embora; mame e papai esto fazendo as despedidas. S se for na rua. Quer vir
conosco a So Clemente?

 Com o maior prazer.

CAPTULO LIII

DE CONFIDNCIAS

Entenda-se que no. No era com
prazer maior nem menor. Era imposio de sociedade, desde que Flora o pedira,
no sei se discretamente. Que a isto ligasse tal ou qual desejo de saber algum
segredo, no serei eu que o negue, nem tu, nem ele mesmo. Ao cabo de alguns
instantes, Aires ia sentindo como esta pequena lhe acordava umas vozes mortas,
falhadas ou no nascidas, vozes de pai. Os gmeos no lhe deram um dia a mesma
sensao, seno porque eram filhos de Natividade. Aqui no era a me, era a
mesma Flora, o seu gesto, a sua fala, e porventura a sua fatalidade.

 Mas quer-me parecer que desta
vez ela est presa; escolheu enfim, pensou Aires.

Flora falou-lhe da presidncia,
mas no lhe pediu segredo, como as outras pessoas; confessou-lhe que no queria
ir daqui, fosse para onde fosse, e acabou dizendo que tudo estava nas mos
deles. S ele podia despersuadir o pai de aceitar a presidncia. Aires achou
to absurdo este pedido que esteve quase a rir, mas susteve-se bem. A palavra
de Flora era grave e triste. Aires respondeu, com brandura, que no podia nada.

 Pode muito, todos atendem aos
seus conselhos.

 Mas eu no dou conselhos a
ningum, acudiu Aires. Conselheiro  um ttulo que o imperador me conferiu, por
achar que o merecia, mas no obriga a dar conselhos; a ele mesmo s lhos darei
se mos pedir. Imagine agora se eu vou  casa de um homem ou mando cham-lo 
minha para lhe dizer que no seja presidente de provncia. Que razo lhe daria?

No tinha razes a moa; tinha
necessidade. Apelou para os talentos do ex-ministro, que acharia uma razo boa.
Nem se precisavam razes, bastava o falar dele, a arte que Deus lhe dera de
agradar a toda a gente, de a arrastar, de influir, de obter o que quisesse.
Aires viu que ela exagerava para o atrair, e no lhe pareceu mal. No obstante,
contestou tais mritos e virtudes. Deus no lhe dera arte nenhuma, disse ele,
mas a moa ia sempre afirmando, em tal maneira que Aires suspendeu a
contestao, e fez uma promessa.

 Vou pensar; amanh ou depois, se
achar algum recurso, tentarei o negcio.

Era um paliativo. Era tambm um
modo de fazer cessar a conversao, estando a casa prxima. No contava com o
pai de Flora, que  fina fora lhe quis mostrar, quela hora, uma novidade,
alis uma velharia, um documento de valor diplomtico. 'Venha, suba, cinco
minutos apenas, conselheiro.

Aires suspirou em segredo, e
curvou a cabea ao Destino. No se luta contra ele, dirs tu; o melhor  deixar
que pegue pelos cabelos e nos arraste at onde queira alar-nos ou despenhar-nos.
Batista nem lhe deu tempo de refletir; era todo desculpas.

 Cinco minutos e est livre de
mim, mas ver que lhe pago o sacrifcio.

O gabinete era pequeno; poucos
livros e bons, os mveis graves, um retrato de Batista com a farda de
presidente, um almanaque sobre a mesa, um mapa na parede, algumas lembranas do
governo da provncia. Enquanto Aires circulava os olhos, Batista foi buscar o
documento. Abriu uma gaveta, tirou uma pasta, abriu a pasta, tirou o documento,
que no estava s, mas com outros. Conhecia-se logo, por ser um papel velho,
amarelo, em partes rodo. Era uma carta do Conde de Oeiras, escrita ao ministro
de Portugal na Holanda.

  o dia das antiguidades, pensou
Aires; a tabuleta, o tinteiro, este autgrafo...

 A carta  importante, mas longa,
disse Batista, no podemos l-la agora. Quer lev-la?

No lhe deu tempo de responder;
pegou de uma sobrecarta grande e meteu dentro o manuscrito, com esta nota por
fora: 'Ao meu excelentssimo amigo Conselheiro Aires'. Enquanto ele
fazia isto, Aires passava os olhos pela lombada de alguns livros. Entre eles
havia dois Relatrios da presidncia de Batista, ricamente encadernados.

 No me atribua esse luxo, acudiu
o ex-presidente; foi um mimo da secretaria do governo que nunca fez isto a ningum.
Era um pessoal muito distinto.

E foi  estante e tirou um dos
relatrios para ser melhor visto. Aberto, mostrou a impresso e as vinhetas;
lido, podia mostrar o estilo por um lado, e por outro, a prosperidade das
finanas. Batista limitou-se aos algarismos totais: despesa, mil duzentos e
noventa e quatro contos, setecentos e noventa mil-ris; receita, mil quinhentos
e quarenta e quatro contos, duzentos e nove mil-ris; saldo, duzentos e
quarenta e nove contos, quatrocentos e dezenove mil-ris. Verbalmente, explicou
o saldo, que alcanou pela modificao de alguns servios, e por um pequeno
aumento de impostos. Reduziu a dvida provincial, que achou em trezentos e
oitenta e quatro contos, e deixou em trezentos e cinqenta contos. Fez obras
novas e consertos importantes; iniciou uma ponte...

 A encadernao corresponde 
matria, disse Aires para concluir a visita.

Batista fechou o livro, e
redargiu que j agora no iria sem lhe resolver uma consulta.

 Tudo s avessas, concluiu; eu de
manh resolvo consultas, agora  noite sou eu que as fao.

Tal foi o intrito, mas do
intrito ao Credo h sempre um passo estirado, e o principal da missa
para ele estava no Credo. No achando o texto do missal, explicou-lhe um
sinete, uma pena de ouro, um exemplar do Cdigo Criminal. O cdigo, posto que
velho, valia por trinta novos, no que tivesse melhor rosto, seno que trazia
anotaes manuscritas de um grande jurista, Fulano. Tendo passado longa parte
da vida no exterior, o conselheiro mal conhecera o autor das notas, mas desde
que ouviu chamar-lhe grande, assumiu a expresso adequada. Pegou do cdigo com
cuidado, leu algumas das notas com venerao.

Durante esse tempo, Batista ia
criando flego. Comps uma frase para iniciar a consulta, e s esperava que
Aires fechasse o livro para solt-la; mas o outro ia demorando o exame do
cdigo. Podia ser uma pontinha de malignidade, mas no era. Os olhos de Aires
tinham uma faculdade particular, menos particular do que parece, porque outros
a possuiro calados. Vinha a ser que eles no saam da pgina, mas em verdade
j lhe prestava menos ateno; o tempo, a gente, a vida, coisas passadas,
surdiam a espi-lo por detrs do livro com que tinham vivido, e Aires ia
tornando a ver um Rio de Janeiro que no era este, ou apenas o fazia lembrado.
Nem cuides que eram s rus e juzes, era o passeio, a rua, a festa, velhos
patuscos e mortos, rapazes frescos e agora enferrujados como ele. Batista
tossiu. Aires voltou a si e leu alguma das notas que o outro devia trazer de
cor, mas eram to profundas! Enfim, mirou a encadernao, achou o livro bem
conservado, fechou-o e restituiu-o  biblioteca.

Batista no perdeu um instante,
correu imediato ao assunto, com medo de o ver pegar em outro livro.

 Confesso-lhe que tenho o
temperamento conservador.

 Tambm eu guardo presentes
antigos.

 No  isso; refiro-me ao
temperamento poltico. Verdadeiramente h opinies e temperamentos. Um homem
pode muito bem ter o temperamento oposto s suas idias. As minhas idias, se
as cotejarmos com os programas polticos do mundo, so antes liberais e algumas
librrimas. O sufrgio universal, por exemplo,  para mim a pedra angular de um
bom regime representativo. Ao contrrio, os liberais pediram e fizeram o voto
censitrio. Hoje estou mais adiantado que eles; aceito o que est, por ora, mas
antes do fim do sculo  preciso rever alguns artigos da Constituio, dois ou
trs.

Aires escondia o espanto...
Convidado assim quela hora... Uma profisso de f poltica... Batista insistia
na distino do temperamento e das idias. Alguns amigos velhos, que conheciam
esta dualidade moral e mental,  que teimavam em querer que ele aceitasse uma
presidncia; ele no queria. Francamente, que lhe parecia ao conselheiro?

 Francamente, acho que no tem
razo.

 Que no tenho razo em qu?

 Em recusar.

 Propriamente, no recusei nada;
h um grande trabalho neste sentido, e o meu desejo,  acrescentou com mais
clareza,   que os bons amigos sagazes me digam se tal coisa  acertada; no
me parece que seja...

 Eu penso que .

 De maneira que, se o caso fosse
com o senhor...

 Comigo no podia ser. Sabe que
eu j no sou deste mundo, e politicamente nunca figurei em nada. A diplomacia tem este efeito que separa o funcionrio dos partidos e o deixa to alheio
a eles, que fica impossvel de opinar com verdade, ou, quando menos, com
certeza.

 Mas no me disse que acha...

 Acho.

 ...Que posso aceitar uma
presidncia, se me oferecerem?

 Pode; uma presidncia aceita-se.

 Pois ento saiba tudo;  a nica
pessoa de sociedade com quem me abro assim francamente. A presidncia foi-me
oferecida.

 Aceite, aceite.

 Est aceita.

 J?

 O decreto assina-se sbado.

 Ento aceite tambm os meus
parabns.

 Propriamente, a lembrana no
foi do ministrio; ao contrrio, o ministrio no se resolveu antes de saber se
efetivamente fiz uma eleio contra os liberais, h anos; mas logo que soube
que por no os perseguir  que fui demitido, aceitou a indicao de chefes
polticos, e recebi pouco depois este bilhete.

O bilhete estava no bolso, dentro
da carteira. Qualquer outro, alvoroado com a nomeao prxima, levaria tempo a
achar o bilhete no meio dos papis; mas Batista possua o tato dos textos.
Tirou a carteira, abriu-a descansado e com os dedos sacou o bilhete do ministro
convidando-o a uma conversao. Na conversao ficou tudo assentado.

CAPTULO LIV

ENFIM, S!

Enfim, s! Quando Aires se achou
na rua, s, livre, solto, entregue a si mesmo, sem grilhes nem consideraes,
respirou largo. Fez um monlogo, que da a pouco interrompeu por se lembrar de
Flora. Tudo o que ela no quisera ia acontecer; l ia o pai a uma presidncia,
e ela com ele, e a recente inclinao ao jovem Pedro vinha parar a meio
caminho. Entretanto, no se arrependia do que dissera e ainda menos do que no
dissera. Os dados estavam lanados. Agora era cuidar de outra coisa.

CAPTULO LV

'A MULHER  A
DESOLAO DO HOMEM

Ao despedir-se, fez Aires uma
reflexo, que ponho aqui, para o caso de que algum leitor a tenho feito tambm.
A reflexo foi obra de espanto, e o espanto nasceu de ver como um homem to
difcil em ceder s instigaes da esposa (Vai-te, Satans, etc.; captulo
XLVII), deitou to facilmente o hbito s urtigas. No achou explicao, nem a
acharia, se no soubesse o que lhe disseram mais tarde, que os primeiros passos
da converso do homem foram dados pela mulher. 'A mulher  a desolao do
homem', dizia no sei que filsofo socialista, creio que Proudhon. Foi
ela, a viva da presidncia, que por meios vrios e secretos, tramou passar a
segundas npcias. Quando ele soube do namoro, j os banhos estavam corridos;
no havia mais que consentir e casar tambm.

Ainda assim, custou-lhe muito. O
clamor dos seus aturdia-lhe de antemo os ouvidos, a alma ia cega, tonta, mas a
esposa servia-lhe de guia e amparo, e, com poucas horas, Batista viu claro e
ficou firme.

 Estamos  porta do terceiro
reinado, ponderou D. Cludia, e certamente o Partido Liberal no deixa to cedo
o poder. Os seus homens so vlidos, a inclinao dos tempos  para o
liberalismo, e voc mesmo...

 Sim, eu... suspirou Batista.

D. Cludia no suspirou, cantou
vitria; a reticncia do marido era a primeira figura de aquiescncia. No lhe
disse isto assim, nu e cru; tambm no revelou alegria descomposta; falou
sempre a linguagem da razo fria e da vontade certa. Batista, sentindo-se
apoiado, caminhou para o abismo e deu o salto nas trevas. No o fez sem graa,
nem com ela. Posto que a vontade que trazia fosse de emprstimo, no lhe
faltava desejo a que a vontade da esposa deu vida e alma. Da a autoria de que
se investiu e acabou confessando.

Tal foi a concluso de Aires,
segundo se l no Memorial. Tal ser a do leitor, se gosta de concluir.
Note que aqui lhe poupei o trabalho de Aires; no o obriguei a achar por si o
que, de outras vezes,  obrigado a fazer. O leitor atento, verdadeiramente
ruminante, tem quatro estmagos no crebro, e por eles faz passar e repassar os
atos e os fatos, at que deduz a verdade, que estava, ou parecia estar
escondida.

CAPTULO LVI

O GOLPE

O dia seguinte trouxe  menina
Flora a grande novidade. Sbado seria assinado o decreto; a presidncia era no
Norte. D. Cludia no lhe viu a palidez, nem sentiu as mos frias, continuou a
falar do caso e do futuro, at que Flora, querendo sentar-se, quase caiu. A me
acudiu-lhe:

 Que ? Que tens?

 Nada, mame, no  nada.

A me f-la sentar-se.

 Foi uma tonteira, passou.

D. Cludia deu-lhe a cheirar um
pouco de vinagre, esfregou-lhe os pulsos; Flora sorriu.

 Este sbado? perguntou.

 O decreto? Sim, este sbado. Mas
no digas por ora a ningum; so segredos de gabinete.  coisa certa; enfim,
algum nos fez justia; provavelmente o imperador. Amanh irs comigo a algumas
encomendas. Faze uma lista do que precisas.

Flora precisava no ir e s
pensava nisso. Uma vez que o decreto estava prestes a ser assinado, no havia
j desaconselhar a nomeao; restava-lhe a ela ficar. Mas como? Todos os sonhos
so prprios ao sono de uma criana. No era fcil, mas no seria impossvel.
Flora cria tudo; no tirava o pensamento de Aires, e j agora de Natividade
tambm. Os dois podiam faz-lo, ou antes os trs, se contardes tambm o baro,
e se vier a cunhada deste, quatro. Juntai aos quatro as cinco estrelas do
Cruzeiro, as nove musas, anjos e arcanjos, virgens e mrtires... Juntai-os
todos, e todos poderiam fazer esta simples ao de impedir que Flora fosse para
a provncia. Tais eram as esperanas vagas, rpidas, que corriam a substituir
as tristezas do rosto da moa, enquanto a me, atribuindo o efeito ao vinagre,
ajustava a rolha de vidro ao frasco, e restitua o frasco ao toucador.

 Faze uma lista do que precisas,
repetiu  filha.

 No, mame, eu no preciso nada.

 Precisas, sim, eu sei o que
precisas.

CAPTULO LVII

DAS ENCOMENDAS

No escreveria este captulo, se
ele fosse propriamente das encomendas, mas no . Tudo so instrumentos nas
mos da Vida. As duas saram de casa, uma lpida, a outra melanclica, e l
foram a escolher uma quantidade de objetos de viagem e de uso pessoal. D.
Cludia pensava nos vestidos da primeira recepo e de visitas; tambm ideou o
do desembarque. Tinha ordem do marido para comprar algumas gravatas. Os
chapus, entretanto, foram o principal artigo da lista. Ao parecer de D.
Cludia, o chapu da mulher  que dava a nota verdadeira do gosto, das maneiras
e da cultura de uma sociedade. No valia a pena aceitar uma presidncia para
levar chapus sem graa, dizia ela sem convico, porque intimamente pensava
que a presidncia d graa a tudo.

Estavam justamente na loja de
chapus, Rua do Ouvidor, sentadas, os olhos fora e longe, quando a verdadeira
matria deste captulo apareceu. Era o gmeo Paulo, que chegara pelo trem
noturno, e sabendo que elas andavam a compras, viera procur-las.

 O senhor! exclamaram.

 Cheguei esta manh.

Flora tinha-se levantado, com o
alvoroo que lhe deu a vista inesperada de Paulo. Ele correu a elas,
apertou-lhes as mos, indagou da sade, e reconheceu que pareciam vender sade
e alegria. A impresso era exata; Flora tinha agora uma agitao, que
contrastava com o abatimento daquela triste manh, e um riso que a fazia
alegre.

 Tive sempre notcias das
senhoras, que mame me dava, e Pedro tambm, s vezes. Da senhora, continuou
ele falando a D. Cludia, recebi duas cartas. Como vai o doutor?

 Bem.

 Ora, enfim, c estou!

E Paulo dividia os olhos com as
duas, mas a melhor parte ia naturalmente para a filha. Pouco depois era todo e
pouco para esta. D. Cludia voltara  escolha dos chapus, e Flora, que at
ento opinava de cabea, perdeu este ltimo gesto. Paulo sentou-se na cadeira
que um empregado lhe trouxe, e ficou a olhar para a moa; falavam de coisas
mnimas, alheias ou prprias, tudo o que bastasse para os reter disfaradamente
na contemplao um do outro. Paulo viera o mesmo que fora, o mesmo que Pedro,
sempre com alguma nota particular, que ela no podia achar claramente, menos
ainda definir. Era um mistrio; Pedro teria o seu.

D. Cludia interrompia-os, de vez
em quando, a propsito da escolha; mas, tudo acaba, at a escolha de chapus.
Foram dali aos vestidos. Paulo, no sabendo da presidncia, estimou esta
casualidade para as acompanhar de loja em loja. Contava anedotas de So Paulo, sem grande interesse para Flora; as notcias que ela lhe
dava acerca das amigas, eram mais ou menos dispensveis. Tudo valia pelos dois
interlocutores. A rua ajudava aquela absoro recproca; as pessoas que iam ou
vinham, damas ou cavalheiros, parassem ou no, serviam de ponto de partida a
alguma digresso. As digresses entraram a dar as mos ao silncio, e os dois
seguiam com os olhos espraiados e a cabea alta, ele mais que ela, porque uma
pontinha de melancolia comeava a espancar do rosto da moa a alegria da hora
recente.

Na Rua Gonalves Dias, indo para o
Largo da Carioca, Paulo viu dois ou trs polticos de So Paulo, republicanos,
parece que fazendeiros. Havendo-os deixado l, admirou-se de os ver aqui, sem
advertir que a ltima vez que os vira ia j a alguma distncia.

 Conhecem? perguntou s duas.

No, no os conheciam. Paulo
disse-lhes os nomes. A me talvez fizesse alguma pergunta poltica, mas deu por
falta de um objeto, advertiu que o no comprara, e props voltarem atrs. Tudo
era aceito por ambos, com docilidade, apesar do vu de tristeza, que se ia
cerrando mais no rosto da moa. Aquelas encomendas tinham j um ar de bilhetes
de passagem, no tardava o paquete, iam correr s malas, aos arranjos, s
despedidas, ao camarote de bordo, ao enjo de mar, e quele outro de mar e
terra, que a mataria, com certeza, cuidava Flora. Da o silncio crescente, que
Paulo mal podia vencer de quando em quando; e contudo ela estava bem com ele,
gostava de lhe ouvir dizer coisas soltas, algumas novas, outras velhas,
recordaes anteriores  partida daqui para So Paulo.

Assim se deixaram ir, guiados por
D. Cludia, quase esquecida deles. No meio daquela conversao truncada, mais
entretida por ele que por ela, Paulo sentia mpetos de lhe perguntar, ao
ouvido, na rua, se pensara nele, ou, ao menos, sonhara com ele algumas noites.
Ouvindo que no, daria expanso  clera, dizendo-lhe os ltimos improprios;
se ela corresse, correria tambm, at peg-la pelas fitas do chapu ou pela
manga do vestido, e, em vez de a esganar, danaria com ela uma valsa de Strauss
ou uma polca de ***. Logo depois, ria destes delrios, porque, a despeito da
melancolia da moa, os olhos que ela erguia para ele eram de quem sonhou e
pensou muito na pessoa, e agora cuida de descobrir se  a mesma do sonho e do
pensamento. Assim lhe parecia ao estudante de Direito; pelo que, quando ele
desviava o rosto, era para repetir a experincia e tornar a ver-lhe os olhos
aguados do mesmo esprito crtico e de livre exame. Quanto ao tempo que os
trs gastaram nessa agitao de compras e escolhas, vises e comparaes, no
h memria dele, nem necessidade. Tempo  propriamente ofcio de relgio, e
nenhum deles consultou o relgio que trazia.

CAPTULO LVIII

MATAR SAUDADES

Ora bem, acabas de ver como Flora
recebeu o irmo de Pedro; tal qual recebia o irmo de Paulo. Ambos eram
apstolos. Paulo achava-a agora mais bonita que alguns meses antes, e disse-lho
nessa mesma tarde em So Clemente, com esta palavra familiar e cordial:

 A senhora enfeitou muito.

Flora julgava a mesma coisa,
relativamente ao estudante de Direito; calou a impresso. Ou a tristeza que
trazia, ou qualquer outra sensao particular, f-la acanhada, a princpio. No
tardou, porm, que achasse outra vez o gmeo no gmeo, e que ele e ela matassem
saudades.

Como  que se matam saudades no 
coisa que se explique de um modo claro. Ele no h ferro nem fogo, corda nem
veneno, e todavia as saudades expiram, para a ressurreio, alguma vez antes do
terceiro dia. H quem creia que, ainda mortas, so doces, mais que doces. Esse
ponto, no nosso caso, no pode ser ventilado, nem eu quero desenvolv-lo, como alis
cumpria.

As saudades morreram, no todas,
nem logo, logo, mas em parte e to vagarosamente que Paulo aceitou o convite de
l jantar. Era o dia da chegada; Natividade quisera t-lo consigo  mesa, ao p
de Pedro, para cimentar a pacificao comeada pela distncia. Paulo nem se deu
ao trabalho de l mandar; deixou-se estar com a bela criatura, entre o pai e a
me que pensava em outra coisa, prxima no tempo e remota no espao. Sabendo o
que era, Flora passava do prazer ao tdio, e Paulo no entendia essa alternao
de sentimentos. De quando em quando, vendo a me agitada e preocupada, mas com
outra expresso, Paulo interrogava a filha. Em vez de dar uma explicao
qualquer, Flora passou uma vez a mo pelos olhos e ficou alguns instantes sem
os descobrir. A ao do estudante de Direito, devia ser arredar-lhe a mo,
encar-la de perto, mais perto, totalmente perto, e repetir a pergunta por um
modo em que a eloqncia do gesto dispensasse a fala. Se tal idia teve, no
saiu c fora. Nem ela lhe consentiu mais tempo que o da pergunta:

 Que  que tem?

 Nada, respondeu Flora.

 Tem alguma coisa, insistiu ele
querendo pegar-lhe na mo.

No acabou o gesto, no o comeou
sequer; abriu e fechou os dedos apenas, enquanto Flora sorria para sacudir
tristezas, e deixou-se estar a matar saudades.

CAPTULO LIX

NOITE DE 14

Tudo se explicou  noite, em casa
da famlia Santos. O ex-presidente de provncia confessou as esperanas de uma
investidura nova; a esposa afirmou a eminncia do ato. Da a publicidade da
notcia, que pouco antes D. Cludia s dizia em segredo. J no havia segredos que calar.

Paulo soube ento tudo, e Pedro,
que conhecia alguns preliminares, acabou sabendo o resto. Ambos naturalmente
sentiram a separao prxima. A dor os fez amigos por instantes;  uma das
vantagens dessa grande e nobre sensao. J me no lembra quem afirmava, ao
contrrio, que um dio comum  o que mais liga duas pessoas. Creio que sim, mas
no descreio do meu postulado, por esta razo que uma coisa no tolhe a outra,
e ambas podem ser verdadeiras.

Demais, a dor no era ainda o
desespero. Havia at uma consolao para os dois gmeos;  que a moa ficaria
longe de ambos. Nenhum deles teria o gozo exclusivo ao p da porta. No h mal
que no traga um pouco de bem, e por isso  que o mal  til, muita vez
indispensvel, alguma vez delicioso. Os dois quiseram falar  amiguinha, em
particular, para sond-la acerca daquela separao, j agora certa, mas nenhum
conseguiu este desejo. Vigiavam-se, isso sim. Quando lhe falavam, era sempre
juntos, e de coisas familiares e ordinrias. O gesto de Flora no traduzia o
estado da alma; este podia ser lpido, melanclico, ou indiferente, no vinha
c fora. Em verdade, ela falava pouco. Os olhos tambm no diziam muito. Mais
de uma vez, Pedro deu com ela fitando Paulo, e gemeu com a preferncia, mas
tambm ele era preferido depois, e achava compensao; Paulo ento  que rangia
os dentes, figuradamente. Natividade, toda entregue  sua recepo, que era a
ltima do ano, no acompanhou de perto as agitaes morais daquele trio. Quando
deu por elas, chegou a senti-las tambm.

Pouco a pouco, a gente se foi
dispersando. No era muita, e dominava a nota ntima. Quando a maioria saiu,
ficou s a poro mais ntima, trs ou quatro homens a um canto da sala,
falando e rindo de ditos e anedotas. No conversavam de poltica, e alis no
faltaria matria. As moas, pela segunda ou terceira vez, trocavam as
impresses do grande baile recente. Tambm falavam de msicas e teatros, das
festas prximas de Petrpolis, da gente que ia naquele ano, e da que s iria em janeiro. Natividade dividia-se com todos, at que, podendo ficar alguns instantes com Aires,
confiara-lhe o seu receio acerca do amor dos filhos, e ao mesmo tempo o prazer
que lhe trazia a esperana de uma longa separao de Flora. O conselheiro no
desdizia do receio, nem da esperana.

  uma esperana que o Batista
seja nomeado e leve a filha daqui, disse ela.

 Certamente, mas...

 Mas qu?

 Certamente a levar, mas a
senhora pode no conhecer bem aquela menina.

 Penso que  boa.

 Tambm eu penso assim. A
bondade, porm, no tem nada com o resto da pessoa. Flora , como j lhe disse
h tempos, uma inexplicvel. Agora  tarde para lhe expor os fundamentos da
minha impresso; depois lhe direi. Note que gosto muito dela; acho-lhe um sabor
particular naquele contraste de uma pessoa assim, to humana e to fora do
mundo, to etrea e to ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambio recndita...
V perdoando estas palavras mal embrulhadas, e at amanh, concluiu ele,
estendendo-lhe a mo. Amanh virei explic-las.

 Explique-as agora, enquanto os
outros parecem rir de algum dito engraado.

Efetivamente, os homens riam de
algum dito ou trocadilho; Aires quis falar, mas reteve a lngua, e
desculpou-se. A explicao era longa e difcil, e no era urgente, disse ele.

 Eu mesmo no sei se me entendo,
baronesa, nem se penso a verdade; pode ser. Em todo caso, minha boa amiga, at
amanh ou at Petrpolis. Quando espera subir?

 L para o fim do ano.

 Ento ainda nos veremos algumas
vezes.

 Sim, e, se me no vir a mim,
quero que veja os meus rapazes, que os receba e estime. Eles o tm em grande
conta; no lhe fazem seno justia. Pedro acha que o senhor  o esprito mais
fino, e Paulo o mais rijo da nossa Terra...

 Veja como a senhora os educa,
ensinando-lhes a pensar errado, disse Aires sorrindo e fazendo um gesto de
agradecimento. Eu rijo?

 O mais rijo e o mais fino.

Os ltimos habituados da casa
vieram dar boa noite  dona. Dez minutos depois, Aires despedia-se do casal
Santos.

A noite era clara e tranqila.
Aires recomps uma parte do sero para escrev-la no Memorial. Poucas
linhas, mas interessantes, nas quais Flora era a principal figura:

Que o Diabo a entenda, se puder;
eu, que sou menos que ele, no acerto de a entender nunca. Ontem parecia querer
a um, hoje quis ao outro; pouco antes das despedidas, queria a ambos. Encontrei
outrora desses sentimentos alternos e simultneos; eu mesmo fui uma e outra
coisa, e sempre me entendi a mim. Mas aquela menina e moa... A condio dos
gmeos explicar esta inclinao dupla; pode ser tambm que alguma qualidade
falte a um que sobre a outro, e vice-versa, e ela, pelo gosto de ambas, no
acaba de escolher de vez.  fantstico, sei; menos fantstico  se eles,
destinados  inimizade, acharem nesta mesma criatura um campo estreito de dio,
mas isto os explicaria a eles, no a ela... Seja o que for, a nossa organizao
poltica  til; a presidncia de provncia, arredando Flora daqui, por algum
tempo, tira esta moa da situao em que se acha, como a asna de Buridan.
Quando voltar, a gua estar bebida e a cevada comida. Um decreto ajudar a
natureza.

Isto feito, Aires meteu-se na
cama, rezou uma ode do seu Horcio e fechou os olhos. Nem por isso dormiu.
Tentou ento uma pgina do seu Cervantes, outra do seu Erasmo, fechou novamente
os olhos, at que dormiu. Pouco foi; s cinco horas e quarenta minutos estava
de p. Em novembro, sabes que  dia.

CAPTULO LX

MANH DE 15

Quando lhe acontecia o que ficou
contado, era costume de Aires sair cedo, a espairecer. Nem sempre acertava.
Desta vez foi ao Passeio Pblico. Chegou s sete horas e meia, entrou, subiu ao
terrao e olhou para o mar. O mar estava crespo. Aires comeou a passear ao
longo do terrao, ouvindo as ondas, e chegando-se  borda, de quando em quando,
para v-las bater e recuar. Gostava delas assim; achava-lhes uma espcie de
alma forte, que as movia para meter medo  terra. A gua, enroscando-se em si
mesma, dava-lhe uma sensao, mais que de vida, de pessoa tambm, a que no
faltavam nervos nem msculos, nem a voz que bradava as suas cleras.

Enfim, cansou e desceu, foi-se ao
lago, ao arvoredo, e passeou  toa, revivendo homens e coisas, at que se
sentou em um banco. Notou que a pouca gente que havia ali no estava sentada,
como de costume, olhando  toa, lendo gazetas ou cochilando a viglia de uma
noite sem cama. Estava de p, falando entre si, e a outra que entrava ia
pegando na conversao sem conhecer os interlocutores; assim lhe pareceu, ao
menos. Ouviu umas palavras soltas, Deodoro, batalhes, campo,
ministrio, etc. Algumas, ditas em tom alto, vinham acaso para ele, a
ver se lhe espertavam a curiosidade, e se obtinham mais uma orelha s notcias.
No juro que assim fosse, porque o dia vai longe, e as pessoas no eram
conhecidas. O prprio Aires, se tal coisa suspeitou, no a disse a ningum;
tambm no afiou o ouvido para alcanar o resto. Ao contrrio, lembrando-lhe
algo particular, escreveu a lpis uma nota na carteira. Tanto bastou para que
os curiosos se dispersassem, no sem algum epteto de louvor, uns ao governo,
outros ao exrcito: podia ser amigo de um ou de outro.

Quando Aires saiu do Passeio
Pblico, suspeitava alguma coisa, e seguiu at o Largo da Carioca. Poucas
palavras e sumidas, gente parada, caras espantadas, vultos que arrepiavam
caminho, mas nenhuma notcia clara nem completa. Na Rua do Ouvidor, soube que
os militares tinham feito uma revoluo, ouviu descries da marcha e das
pessoas, e notcias desencontradas. Voltou ao largo, onde trs tlburis o
disputaram; ele entrou no que lhe ficou mais  mo, e mandou tocar para o
Catete. No perguntou nada ao cocheiro; este  que lhe disse tudo e o resto.
Falou de uma revoluo, de dois ministros mortos, um fugido, os demais presos.
O imperador, capturado em Petrpolis, vinha descendo a serra.

Aires olhava para o cocheiro, cuja
palavra saa deliciosa de novidade. No lhe era desconhecida esta criatura. J
a vira, sem o tlburi, na rua ou na sala,  missa ou a bordo, nem sempre homem,
alguma vez mulher, vestida de seda ou de chita. Quis saber mais, mostrou-se
interessado e curioso, e acabou perguntando se realmente houvera o que dizia. O
cocheiro contou que ouvira tudo a um homem que trouxera da Rua dos Invlidos e
levara ao Largo da Glria, por sinal que estava assombrado, no podia falar,
pedia-lhe que corresse, que lhe pagaria o dobro; e pagou.

 Talvez fosse algum implicado no
barulho, sugeriu Aires.

 Tambm pode ser, porque ele
levava o chapu derrubado, e a princpio pensei que tinha sangue nos dedos, mas
reparei e vi que era barro; com certeza, vinha de descer algum muro. Mas,
pensando bem, creio que era sangue; barro no tem aquela cor. A verdade  que
ele pagou o dobro da viagem, e com razo, porque a cidade no est segura, e a
gente corre grande risco levando pessoas de um lado para outro...

Chegavam justamente  porta de
Aires; este mandou parar o veculo, pagou pela tabela e desceu. Subindo a
escada, ia naturalmente pensando nos acontecimentos possveis. No alto achou o
criado que sabia tudo, e lhe perguntou se era certo...

 O que  que no  certo, Jos? 
mais que certo.

 Que mataram trs ministros?

 No; h s um ferido.

 Eu ouvi que mais gente tambm,
falaram em dez mortos...

 A morte  um fenmeno igual 
vida; talvez os mortos vivam. Em todo caso, no lhes rezes por almas, porque
no s bom catlico, Jos.

CAPTULO LXI

LENDO XENOFONTE

Como  que, tendo ouvido falar da
morte de dois e trs ministros, Aires afirmou apenas o ferimento de um, ao
retificar a notcia do criado? S se pode explicar de dois modos,  ou por um
nobre sentimento de piedade, ou pela opinio de que toda a notcia pblica
cresce de dois teros, ao menos. Qualquer que fosse a causa, a verso do
ferimento era a nica verdadeira. Pouco depois passava pela Rua do Catete a
padiola que levava um ministro, ferido. Sabendo que os outros estavam vivos e
sos e o imperador era esperado de Petrpolis, no acreditou na mudana de
regime que ouvira ao cocheiro de tlburi e ao criado Jos. Reduziu tudo a um
movimento que ia acabar com a simples mudana de pessoal.

 Temos gabinete novo, pensou
consigo.

Almoou tranqilo, lendo
Xenofonte: 'Considerava eu um dia quantas repblicas tm sido derrubadas
por cidados que desejam outra espcie de governo, e quantas monarquias e
oligarquias so destrudas pela sublevao dos povos; e de quantos sobem ao
poder, uns so depressa derrubados, outros, se duram, so admirados por hbeis
e felizes...' Sabes a concluso do autor, em prol da tese de que o homem 
difcil de governar; mas logo depois a pessoa de Ciro destri aquela concluso,
mostrando um s homem que regeu milhes de outros, os quais no s o temiam,
mas ainda lutavam por lhe fazer as vontades. Tudo isto em grego, e com tal
pausa que ele chegou ao fim do almoo, sem chegar ao fim do primeiro captulo.

CAPTULO LXII

'PARE NO D.'

 Mas, S. Excia.est almoando,
dizia o criado no patamar da escada a algum que pedia para falar ao
conselheiro.

Era falso, Aires acabava
justamente de almoar; mas o criado sabia que o amo gostava de saborear o
charuto depois do almoo, sem interrupo. Agora estava no canap e ouviu o
dilogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.

 No pode ser.

 Bem, eu espero; logo que S.
Excia.acabe...

 O melhor  voltar depois; no
mora ali defronte? Pois volte daqui a uma hora ou duas...

A pessoa era o Custdio e foi para
casa, mas o velho diplomata, sabendo quem era, no esperou que acabasse o
charuto; mandou-lhe dizer que viesse. Custdio saiu, correu, subiu e entrou
assombrado.

 Que  isso, Sr. Custdio?
disse-lhe Aires. O senhor anda a fazer revolues?

 Eu, senhor? Ah! senhor! Se V.
Excia.soubesse...

 Se soubesse o qu?

Custdio explicou-se. V,
resumamos a explicao.

Na vspera, tendo de ir abaixo,
Custdio foi  Rua da Assemblia, onde se pintava a tabuleta. Era j tarde; o
pintor suspendera o trabalho. S algumas das letras ficaram pintadas,  a
palavra Confeitaria e a letra d. A letra o e a palavra Imprio
estavam s debuxadas a giz. Gostou da tinta e da cor, reconciliou-se com a
forma, e apenas perdoou a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a
tabuleta no domingo.

Ao acordar de manh no soube logo
do que houvera na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notcias, viu passar
um batalho, e creu que lhe diziam a verdade os que afirmavam a revoluo e
vagamente a repblica. A princpio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a
tabuleta. Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura.
Escreveu s pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia
s isto: 'Pare no D.' Com efeito, no era preciso pintar o resto, que
seria perdido, nem perder o princpio, que podia valer. Sempre haveria palavra
que ocupasse o lugar das letras restantes. 'Pare no D'.

Quando o portador voltou trouxe a
notcia de que a tabuleta estava pronta.

 Voc viu-a pronta?

 Vi, patro.

 Tinha escrito o nome antigo?

 Tinha, sim, senhor: 'Confeitaria
do Imprio'.

Custdio enfiou um casaco de
alpaca e voou  Rua da Assemblia. L estava a tabuleta, por sinal que coberta
com um pedao de chita; alguns rapazes que a tinham visto, ao passar na rua,
quiseram rasg-la; o pintor, depois de a defender com boas palavras, achou mais
eficaz cobri-la. Levantada a cortina, Custdio leu: 'Confeitaria do
Imprio'. Era o nome antigo, o prprio, o clebre, mas era a
destruio agora; no podia conservar um dia a tabuleta, ainda que fosse em
beco escuro, quanto mais na Rua do Catete...

 O senhor vai despintar tudo
isto, disse ele.

 No entendo. Quer dizer que o
senhor paga primeiro a despesa. Depois, pinto outra coisa.

 Mas que perde o senhor em
substituir a ltima palavra por outra? A primeira pode ficar, e mesmo o d...
No leu o meu bilhete?

 Chegou tarde.

 E por que pintou, depois de to
graves acontecimentos?

 O senhor tinha pressa, e eu
acordei s cinco e meia para servi-lo. Quando me deram as notcias, a tabuleta
estava pronta. No me disse que queria pendur-la domingo? Tive de pr muito
secante na tinta, e, alm da tinta, gastei tempo e trabalho.

Custdio quis repudiar a obra, mas
o pintor ameaou de pr o nmero da confeitaria e o nome do dono na tabuleta, e
exp-la assim, para que os revolucionrios lhe fossem quebrar as vidraas do
Catete. No teve remdio seno capitular. Que esperasse; ia pensar na
substituio; em todo caso, pedia algum abate no preo. Alcanou a promessa do
abate e voltou a casa. Em caminho, pensou no que perdia mudando de ttulo, 
uma casa to conhecida, desde anos e anos! Diabos levassem a revoluo! Que
nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe o vizinho Aires e correu a ouvi-lo.

CAPTULO LXIII

TABULETA NOVA

Referido o que l fica atrs,
Custdio confessou tudo o que perdia no ttulo e na despesa, o mal que lhe
trazia a conservao do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um
abismo, um suma. No sabia que buscasse; faltava-lhe inveno e paz de
esprito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com
poltica? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado,
respeitado, e principalmente respeitador da ordem pblica...

 Mas o que  que h? perguntou
Aires.

 A repblica est proclamada.

 J h governo?

 Penso que j; mas diga-me V.
Excia.: ouviu algum acusar-me jamais de atacar o governo? Ningum.
Entretanto... Uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentssimo. Ajude-me a
sair deste embarao. A tabuleta est pronta, o nome todo pintado.  'Confeitaria
do Imprio', a tinta  viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague
o trabalho, para ento fazer outro. Eu, se a obra no estivesse acabada, mudava
de ttulo, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei?
V. Excia.cr que, se ficar 'Imprio', venham quebrar-me as
vidraas?

 Isso no sei.

 Realmente, no h motivo;  o
nome da casa, nome de trinta anos, ningum a conhece de outro modo.

 Mas pode pr 'Confeitaria
da Repblica'...

 Lembrou-me isso, em caminho, mas
tambm me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta,
fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.

 Tem razo... Sente-se.

 Estou bem.

 Sente-se e fume um charuto.

Custdio recusou o charuto, no
fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas
curiosidades lhe chamariam a ateno, se no fosse o atordoamento do esprito.
Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Excia., com a grande inteligncia
que Deus lhe dera, podia salv-lo. Aires props-lhe um meio-termo, um ttulo
que iria com ambas as hipteses,  'Confeitaria do Governo'.

 Tanto serve para um regime como
para outro.

 No digo que no, e, a no ser a
despesa perdida... H, porm, uma razo contra. V. Excia. sabe que nenhum
governo deixa de ter oposio. As oposies, quando descerem  rua, podem
implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta;
entretanto, o que eu procuro  o respeito de todos.

Aires compreendeu bem que o terror
ia com a avareza. Certo, o vizinho no queria barulhos  porta, nem
malquerenas gratuitas, nem dios de quem quer que fosse; mas, no o afligia
menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se no achasse um
ttulo definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, j perdia a
celebridade, alm de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ningum lhe
compraria uma tabuleta condenada. J era muito ter o nome e o ttulo no Almanaque
de Laemmert, onde podia l-lo algum abelhudo e ir com outros, puni-lo do
que estava impresso desde o princpio do ano...

 Isso no, interrompeu Aires; o
senhor no h de recolher a edio de um almanaque.

E depois de alguns instantes:

 Olhe, dou-lhe uma idia, que
pode ser aproveitada, e, se no a achar boa, tenho outra  mo, e ser a
ltima. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como
est, e  direita, na ponta, por baixo do ttulo, mande escrever estas palavras
que explicam o ttulo: 'Fundada em 1860'. No foi em 1860 que abriu a
casa?

 Foi, respondeu Custdio.

 Pois...

Custdio refletia. No se lhe
podia ler sim nem no; atnito, a boca entreaberta, no olhava
para o diplomata, nem para o cho, nem para as paredes ou mveis, mas para o
ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idia era boa.
Realmente, mantinha o ttulo e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco
da pintura. Entretanto, a outra idia podia ser igual ou melhor, e quisera
comparar as duas.

 A outra idia no tem a vantagem
de pr a data  fundao da casa, tem s a de definir o ttulo, que fica sendo
o mesmo, de uma maneira alheia ao regime. Deixe-lhe estar a palavra imprio
e acrescente-lhe embaixo, ao centro, estas duas, que no precisam ser gradas: das
leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se  secretria, e escrevendo
em uma tira de papel o que dizia.

Custdio leu, releu e achou que a
idia era til; sim, no lhe parecia m. S lhe viu um defeito; sendo as letras
de baixo menores, podiam no ser lidas to depressa e claramente como as de cima,
e estas  que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Da a que algum poltico
ou sequer inimigo pessoal no entendesse logo, e... A primeira idia, bem
considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o
confeiteiro, marcando a data da fundao, fazia timbre em ser antigo. Quem sabe
se no era pior que nada?

 Tudo  pior que nada.

 Procuremos.

Aires achou outro ttulo, o nome
da rua, 'Confeitaria do Catete', sem advertir que havendo
outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente  do Custdio a
designao local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderao, Aires achou-a justa,
e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois descobriu
que o que fez falar o Custdio foi a idia de que esse ttulo ficava comum s
duas casas. Muita gente no atinaria com o ttulo escrito, e compraria na
primeira que lhe ficasse  mo, de maneira que s ele faria as despesas da
pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isto, Aires no
admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulaes,
contava os maus frutos de um equvoco. Disse-lhe ento que o melhor seria pagar
a despesa feita e no pr nada, a no ser que preferisse o seu prprio nome:
'Confeitaria do Custdio'. Muita gente certamente lhe no
conhecia a casa por outra designao. Um nome, o prprio nome do dono, no
tinha significao poltica ou figurao histria, dio nem amor, nada que
chamasse a ateno dos dois regimes, e conseguintemente que pusesse em perigo
os seus pastis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietrio e dos
empregados. Por que  que no adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a
troca de uma palavra por outra, Custdio em vez de Imprio, mas
as revolues trazem sempre despesas.

 Sim, vou pensar, Excelentssimo.
Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse
Custdio agradecendo.

Curvou-se, recuou e saiu. Aires
foi  janela para v-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do
ministro aposentado um ilustre particular que faria esquecer por instantes a
crise da tabuleta. Nem tudo so despesas na vida, e a glria das relaes podia
amaciar as agruras deste mundo. No acertou desta vez. Custdio atravessou a
rua, sem parar nem olhar para trs, e enfiou pela confeitaria dentro com todo o
seu desespero.

CAPTULO LXIV

PAZ!

Que, em meio de to graves
sucessos, Aires tivesse bastante pausa e claridade para imaginar tal descoberta
no vizinho, s se pode explicar pela incredulidade com que recebera as
notcias. A prpria aflio de Custdio no lhe dera f. Vira nascer e morrer
muito boato falso. Uma de suas mximas  que o homem vive para espalhar a
primeira inveno de rua, e que tudo se far crer a cem pessoas juntas ou
separadas. S s duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou em casa,
acreditou na queda do imprio.

  verdade, conselheiro, vi
descer as tropas pela Rua do Ouvidor, ouvi as aclamaes  repblica. As lojas
esto fechadas, os bancos tambm, e o pior  se se no abrem mais, se vamos
cair na desordem pblica;  uma calamidade.

Aires quis aquietar-lhe o corao.
Nada se mudaria; o regime, sim, era possvel, mas tambm se muda de roupa sem
trocar de pele. Comrcio  preciso. Os bancos so indispensveis. No sbado, ou
quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na vspera, menos a
constituio.

 No sei, tenho medo,
conselheiro.

 No tenha medo. A baronesa j
sabe o que h?

 Quando eu sa de casa, no
sabia, mas agora  provvel.

 Pois v tranqiliz-la;
naturalmente est aflita.

Santos receava os fuzilamentos;
por exemplo, se fuzilassem o imperador, e com ele as pessoas de sociedade?
Recordou que o Terror... Aires tirou-lhe o Terror da cabea. As ocasies fazem
as revolues, disse ele, sem inteno de rimar, mas gostou que rimasse, para
dar forma fixa  idia. Depois lembrou a ndole branda do povo. O povo mudaria
de governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade. Para provar
o que dizia referiu um caso que lhe contara um velho amigo, o Marechal
Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regncia. O imperador fora ao Teatro de So
Pedro de Alcntara. No fim do espetculo, o amigo, ento moo, ouviu grande
rumor do lado da igreja de So Francisco, e correu a saber o que era. Falou a
um homem, que bradava indignado, e soube dele que o cocheiro do imperador no
tirara o chapu no momento em que este chegara  porta para entrar no coche; o
homem acrescentou: 'Eu sou r...' Naquele tempo os
republicanos por brevidade eram assim chamados. 'Eu sou r, mas no
consinto que faltem ao respeito a este menino!'

Nenhuma feio de Santos mostrou
apreciar ou entender aquele rasgo annimo. Ao contrrio, todo ele parecia
entregue ao presente, ao momento, ao comrcio fechado, aos bancos sem
operaes, ao receio de uma suspenso total de negcios, durante prazo
indeterminado. Cruzava e descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.

 Ento, parece-lhe?...

 Que descanse.

Santos aceitou o conselho, mas vai
muito do aceitar ao cumprir, e a aparncia era muito diversa do corao. O
corao batia-lhe. A cabea via esboroar-se tudo. Quis despedir-se, mas fez
duas ou trs investidas antes de pousar o p fora do gabinete e caminhar para a
escada. Instava pela certeza. Conquanto tivesse visto e ouvido a repblica,
podia ser... Em todo caso, a paz  que era necessria, e haveria paz? Aires
inclinava-se a crer que sim, e novamente o convidou a descansar.

 At logo, concluiu.

 Por que no vai l jantar
conosco?

 Tenho de jantar com um amigo, no
Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanh. V, v tranqilizar a
baronesa, e os rapazes. Os rapazes estaro em paz? Esses brigam, com certeza;
v p-los em ordem.

 O senhor podia ajudar-me nisso.
V l de noite.

 Pode ser; se puder, vou. Amanh
com certeza.

Santos saiu; tinha o carro 
espera, entrou e seguiu para Botafogo. No levava a paz consigo, no a poderia
dar  mulher, nem  cunhada, nem aos filhos. Quisera chegar a casa, por medo da
rua, mas quisera tambm ficar na rua, por no saber que palavras nem que
conselhos daria aos seus. O espao do carro era pequeno e bastante para um
homem; mas, enfim, no viveria ali a tarde inteira. Ao demais, a rua estava
quieta. Via gente  porta das lojas. No Largo do Machado viu outra que ria,
alguma calada, havia espanto, mas no havia propriamente susto.

CAPTULO LXV

ENTRE OS FILHOS

Quando santos chegou a casa,
Natividade estava inquieta, sem notcia exata e definitiva dos acontecimentos.
No sabia da repblica. No sabia do marido nem dos filhos. Aquele sara antes
dos primeiros rumores, estes iam fazer a mesma coisa, logo que os boatos
chegaram. O primeiro gesto da me foi para impedir que os filhos sassem, mas
no pde, era tarde. No os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, a fim
de que os poupasse, e esperou. A irm fez o mesmo. Era perto de meio-dia; foi
ento que os minutos entraram a parecer sculos.

A nsia da me era naturalmente
maior que a da tia. Natividade via andar o tempo com ferros aos ps. No havia
alvoroo que atasse um par de asas quelas horas longas do relgio da casa, nem
aos do cinto, o dela e o da irm; todos eles coxeavam de ambos os ponteiros.
Enfim, ouviu na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.

Natividade acudiu ao patamar da
escada. Santos subiu, e as mos de ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa
vida conjunta acaba por fazer da ternura uma coisa grave e espiritual.
Entretanto, parece que o gesto do marido no foi original, mas secundrio,
filho ou imitativo do da mulher. Pode ser que a corda da sensibilidade fosse
menos vibrante na lira dele que na dela, posto que muitos anos atrs, aquele
outro gesto no coup, quando voltavam da missa de So Domingos,
lembras-te?... Sobre isto escrevi agora algumas linhas, que no ficariam mal,
se as acabasse, mas recuo a tempo e risco-as. No vale a pena ir  cata das
palavras riscadas. Menos vale supri-las.

Que nos bastam as quatro mos
apertadas. Natividade perguntou pelos filhos. Santos opinou que no tivesse
medo. No havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas
sossegadas, as caras mudas. No correria sangue, o comrcio ia continuar. Toda
a animao de Aires tinha agora brotado nele, com a mesma verdura e o mesmo
estilo.

Os filhos chegaram tarde, cada um
por sua vez, e Pedro mais cedo que Paulo. A melancolia de um ia com a alma da
casa, a alegria de outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar
da expanso da segunda, no houve represso nem briga. Ao jantar, falaram
pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara com alguns
correligionrios e soube do que se passara  noite e de manh, a marcha e a
reunio dos batalhes no campo, as palavras de Ouro Preto ao Marechal Floriano,
a resposta deste, a aclamao da Repblica. A famlia ouvia e perguntava, no
discutia, e esta moderao contrastava com a glria de Paulo. O silncio de
Pedro principalmente era como um desafio. No sabia Paulo que a prpria me  que
pedira ao irmo com muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto
do corao do rapaz.

O corao de Paulo, ao contrrio,
era livre, deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos
republicanos, em que os princpios se incrustavam, viviam ali to fortes e
quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o acanhamento da outra
gente sua. Ao fim do jantar, bebeu  Repblica, mas calado, sem ostentao,
apenas olhando para o teto, e levantando o copo um tantinho mais que de costume.
Ningum replicou por outro gesto ou palavra.

Certamente, o moo Pedro quis
dizer alguma frase de piedade relativamente ao regime imperial e s pessoas de
Bragana, mas a me quase que no tirava os olhos dele, como impondo ou pedindo
silncio. Demais, ele no cria nada mudado; a despeito de decretos e
proclamaes, Pedro imaginava que tudo podia ficar como dantes, alterado apenas
o pessoal do governo. Custa pouco, dizia ele baixinho  me, ao deixarem a
mesa;  s o imperador falar ao Deodoro.

Paulo saiu, logo depois do jantar,
prometendo vir cedo. A me, receosa de o ver metido em barulhos, no queria que
ele sasse; mas outro receio f-la consentir, e este era que os dois irmos
brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba por dar o
que negou. No  menos certo que ela raciocinou alguns minutos antes de
resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma pgina antes da que vou escrever
agora; mas ambos ns, Natividade e eu, acabamos por deixar que os atos se
praticassem, sem oposio dela, nem comentrio meu.

CAPTULO LXVI

O BASTO E A ESPADILHA

Vieram amigos da casa, trazendo
notcias e boatos. Variavam pouco e geralmente no havia opinio segura acerca
do resultado. Ningum sabia se a vitria do movimento era um bem, se um mal,
apenas sabiam que era um fato. Da a ingenuidade com que algum props o
voltarete do costume, e a boa vontade de outros em aceit-lo. Santos, embora declarasse que no jogava, mandou pr as cartas e os tentos, mas os
outros opinaram que sempre faltava um parceiro, e sem ele, no havia graa.
Quis resistir; no era bonito que no prprio dia em que o regime cara ou ia
cair, entregasse o esprito a recreaes de sociedade... No pensou isto em voz
alta nem baixa, mas consigo, e talvez o leu no rosto da mulher. Acharia um
pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos e cartas no deixavam
buscar nada. Santos acabou aceitando. Provavelmente era essa mesma a inclinao
ntima. Muitas h que precisam ser atradas c fora como um favor ou concesso
da pessoa. Enfim, o basto e a espadilha fizeram naquela noite o seu ofcio,
como as mariposas e os ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrelas e o
sono dos cidados.

CAPTULO LXVII

A NOITE INTEIRA

Saindo de casa, Paulo foi  de um
amigo, e os dois entraram a buscar outros da mesma idade e igual intimidade.
Foram aos jornais, ao quartel do campo, e passaram algum tempo diante da casa
de Deodoro. Gostavam de ver os soldados, a p ou a cavalo, pediam licena,
falavam-lhes, ofereciam cigarros. Era a nica concesso destes; nenhum lhes
contou o que se passara, nem todos saberiam nada.

No importa, iam cheios de si.
Paulo era o mais entusiasta e convicto. Aos outros valia s a mocidade, que 
um programa, mas o filho de Santos tinha frescas todas as idias do novo
regime, e possua ainda outras que no via aceitar; bater-se-ia por elas.
Trazia at o desejo de achar algum na rua, que soltasse um grito, j agora
sedicioso, para lhe quebrar a cabea com a bengala. Note-se que esquecera ou
perdera a bengala. No deu por falta dela; se desse, bastavam-lhe os braos e
as mos.

Props cantarem a Marselhesa;
os outros no quiseram ir to longe, no por medo, seno de cansados. Paulo,
que resistia mais que eles  fadiga, lembrou-lhes esperar a aurora.

 Vamos esper-la do alto de um
morro, ou da Praia do Flamengo; teremos tempo de dormir amanh.

 Eu no posso, disse um.

Os outros repetiram a recusa, e
assentaram de ir para suas casas. Era perto de duas horas. Paulo acompanhou-os
a todos, e s depois de ver o ltimo recolhido foi sozinho para Botafogo.

Quando entrou, deu com a me que
esperava por ele, inquieta e arrependida de o haver deixado sair. Paulo no
achou desculpa e censurou a me por no dormir,  espera dele. Natividade
confessou que no teria sono, antes de o saber em casa so e salvo. Falavam
baixo e pouco; tendo-se beijado antes, beijaram-se depois e despediram-se.

 Olha, disse Natividade, se
achares Pedro acordado no lhe contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanh
saberemos tudo e o mais que se passar esta noite.

Paulo entrou no quarto p ante p.
Era ainda aquele vasto quarto em que os dois gmeos brigaram por causa de duas
velhas gravuras, Robespierre e Lus XVI. Agora, havia mais que os retratos, uma
revoluo de poucas horas e um governo fresco. Obedecendo ao conselho da me,
Paulo no quis saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que no. Efetivamente,
no. Pedro viu as cautelas de Paulo, e cumpriu tambm os conselhos da me;
fingiu que no via nada. At a os conselhos; mas um pouco de glria fez com
que Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira estrofe
da Marselhesa que os amigos tinham recusado fora:

Allons, enfants de la
patrie,

Le jour de gloire est
arriv!

Pedro percebeu antes pela toada
que pela letra, e concluiu que a inteno do outro era afligi-lo. No era, mas
podia ser. Vacilou entre a rplica e o silncio, at que uma idia fantstica
lhe atravessou o crebro, cantarolar, tambm baixinho, a segunda parte da
estrofe: 'Entendez-vous dans vos campagnes...', que alude s
tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido histrico, para
restringi-la s tropas nacionais. Era um desforo vago, a idia passou
depressa. Pedro contentou-se de simular a indiferena suprema do sono. Paulo
no acabou a estrofe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da vitria dos
seus sonhos polticos. No se meteu logo na cama; foi primeiro  do irmo, a
ver se dormia. Pedro respirava to naturalmente, como se no perdera nada. Teve
mpeto de acord-lo, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma coisa era a
instituio derrubada. Recuou a tempo e foi meter-se entre os lenis.

Nenhum dormia. Enquanto o sono no
chegava, iam pensando nos acontecimentos do dia, ambos espantados de como foram
fceis e rpidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos efeitos ulteriores.
No admira que no chegassem  mesma concluso.

 Como diabo  que eles fizeram
isto, sem que ningum desse pela coisa? refletia Paulo. Podia ter sido mais
turbulento. Conspirao houve, decerto, mas uma barricada no faria mal. Seja
como for, venceu-se a campanha. O que  preciso  no deixar esfriar o ferro,
bat-lo sempre, e renov-lo. Deodoro  uma bela figura. Dizem que a entrada do
marechal no quartel, e a sada, puxando os batalhes, foram esplndidas. Talvez
fceis demais;  que o regime estava podre e caiu por si...

Enquanto a cabea de Paulo ia
formulando essas idias, a de Pedro ia pensando o contrrio; chamava o
movimento um crime.

 Um crime e um disparate, alm de
ingratido; o imperador devia ter pegado os principais cabeas e mand-los
executar. Infelizmente, as tropas iam com eles. Mas nem tudo acabou. Isto 
fogo de palha; daqui a pouco est apagado, e o que antes era torna a ser. Eu
acharei duzentos rapazes bons e prontos, e desfaremos esta caranguejola. A
aparncia  que d um ar de solidez, mas isto  nada. Ho de ver que o
imperador no sai daqui, e, ainda que no queira, h de governar; ou governar
a filha, e, na falta dela, o neto. Tambm ele ficou menino e governou. Amanh 
tempo; por ora tudo so flores. H ainda um punhado de homens...

A reticncia final dos discursos
de ambos quer dizer que as idias se iam tornando esgaradas, nevoentas e
repetidas, at que se perderam e eles dormiram. Durante o sono, cessou a
revoluo e a contra-revoluo, no houve monarquia nem repblica, D. Pedro II
nem Marechal Deodoro, nada que cheirasse a poltica. Um e outro sonharam com a
bela enseada de Botafogo, um cu claro, uma tarde clara e uma s pessoa: Flora.

CAPTULO LXVIII

DE MANH!

Flora abriu os olhos de ambos, e
esvaiu-se to depressa que eles mal puderam ver a barra do vestido e ouvir uma
palavrinha meiga e remota. Olharam um para o outro, sem rancor aparente. O
receio de um e a esperana de outro deram trguas. Correram aos jornais. Paulo,
meio tonto, temia alguma traio sobre a madrugada. Pedro tinha uma idia vaga
de restaurao, e contava ler nas folhas um decreto imperial de anistia. Nem
traio nem decreto. A esperana e o receio fugiram deste mundo.

CAPTULO LXIX

AO PIANO

Enquanto eles sonhavam com Flora,
esta no sonhou com a repblica. Teve uma daquelas noites em que a imaginao
dorme tambm, sem olhos nem ouvidos, ou, quando muito, a retina no deixa ver
claro, e as orelhas confundem o som de um rio com o latir de um co remoto. No
posso dar melhor definio, nem ela  precisa; cada um de ns ter tido dessas
noites mudas e apagadas.

No sonhou sequer com msica; e,
alis, tocara antes algumas das suas pginas queridas. No as tocou somente por
gostar delas, seno por fugir  consternao dos pais, que era grande. Nenhum
destes podia crer que as instituies tivessem cado, outras nascido, tudo mudado.
D. Cludia ainda apelava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira
bem, e o que  que vira; ele mordia os beios, batia na perna, erguia-se, dava
alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos, as notcias coladas s
portas dos jornais, a priso dos ministros, a situao, tudo extinto, extinto,
extinto...

Flora no era avessa  piedade,
nem  esperana, como sabeis; mas no ia com a agitao dos pais, e meteu-se
com o seu piano e as suas msicas. Escolheu no sei que sonata. Tanto bastou para
lhe tirar o presente. A msica tinha para ela a vantagem de no ser presente,
passado ou futuro; era uma coisa fora do tempo e do espao, uma idealidade
pura. Quando parava, sucedia-lhe ouvir alguma frase solta do pai, ou da me:
'...Mas como foi que...?'  'Tudo s escondidas...' 
'H sangue?' s vezes um deles fazia algum gesto, e ela no via o
gesto. O pai, com a alma trpega, falava muito e incoerente. A me trazia outro
vigor. J lhe sucedia calar por instantes, como se pensasse, ao contrrio do marido
que, em se calando, coava a cabea, apertava as mos ou suspirava, quando no
ameaava o teto com o punho.

 L, l, d, r, sol, r, r,
l, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras notas, mas eram
notas que vibravam para fugir aos homens e suas dissenses.

Tambm se pode achar na sonata de
Flora uma espcie de acordo com a hora presente. No havia governo definitivo.
A alma da moa ia com esse primeiro alvor do dia, ou com esse derradeiro
crepsculo da tarde,  como queiras,  em que nada  to claro ou to escuro
que convide a deixar a cama ou acender velas. Quando muito, ia haver um governo
provisrio. Flora no entendia de formas nem de nomes. A sonata trazia a
sensao da falta absoluta de governo, a anarquia da inocncia primitiva
naquele recanto do Paraso que o homem perdeu por desobediente, e um dia
ganhar, quando a perfeio trouxer a ordem eterna e nica. No haver ento
progresso nem regresso, mas estabilidade. O seio de Abrao agasalhar todas as
coisas e pessoas, e a vida ser um cu aberto. Era o que as teclas lhe diziam
sem palavras, r, r, l, sol, l, l, d...

CAPTULO LXX

DE UMA CONCLUSO ERRADA

Os sucessos vieram vindo,  medida
que as flores iam nascendo. Destas houve que serviram ao ltimo baile do ano.
Outras morreram na vspera. Poetas de um e outro regime tiraram imagem do fato
para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A diferena  que a segunda
abafava os seus suspiros, enquanto a primeira levava longe os seus tripdios. O
metal das trompas dava outro som que o das harpas. As flores  que continuavam
a nascer e morrer, igual e regularmente.

D. Cludia colheu as rosas do
ltimo baile do ano, primeiro da Repblica, e adornou a filha com elas. Flora
obedeceu e aceitou-as. Pai de famlia antes de tudo, Batista acompanhou a
esposa e a filha ao baile. Tambm l foi Paulo, pela moa e pelo regime. Se, em
conversa com o ex-presidente de provncia, disse todo o bem que pensava do
Governo Provisrio, no lhe ouviu palavras de acordo nem de contestao. No
entrou mais fundo na confisso do homem, porque a moa o atraa, e ele gostava
mais dela que do pai.

Flora viu uma semelhana entre o
baile da ilha Fiscal e este, apesar de particular e modesto. Este era dado por
pessoa que vinha dos tempos da propaganda e um dos ministros l esteve, ainda
que s meia hora. Da a ausncia de Pedro, apesar de convidado. Flora sentiu a
falta de Pedro, como sentira a de Paulo na ilha; tal era a semelhana das duas
festas. Ambas traziam a ausncia de um gmeo.

 Por que  que seu irmo no
veio? perguntou ela.

Paulo enfiou; depois de alguns
instantes:

 Pedro  teimoso, disse. Teimou
em recusar o convite. Cr naturalmente que a monarquia levou a arte de danar.
No faa caso;  um luntico.

 No diga isso.

 Acha tambm que a dana se foi
com o imprio?

 No, a prova  que estamos
danando. No; digo que lhe no chame nomes feios.

 Parece-lhe ento que Pedro  um
rapaz de juzo?

 Certamente, como o senhor.

 Mas...

Paulo ia a perguntar-lhe qual
deles, tendo ela de jurar por um ou por outro, lhe mereceria o juramento; mas
recuou a tempo. Ento ela falou do calor, e ele achou que sim, que estava
quente. Acharia que estava frio, se ela se queixasse de frio. Flora, se s
cedesse  vista, era tambm capaz de aceitar todas as opinies de Paulo, para
ir com ele. Em verdade, Paulo tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava
por cima, firme em que os seus escritos de um ano  que haviam feito a
Repblica, posto que incompleta, sem certas idias que expusera e defendera, e
teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo  moa, e ela escutava com prazer,
sem opinio; era s o gosto de o escutar. Quando a lembrana de Pedro surgia na
cabea da moa, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a
outra, e assim acabou o baile. Ento as duas, tristeza e alegria,
agasalharam-se no corao de Flora, como as suas gmeas que eram.

O baile acabou. O captulo  que
no acaba sem que deixe um pouco de espao a quem quiser pensar naquela
criatura. Pai nem me podiam entend-la, os rapazes tambm no, e provavelmente
Santos e Natividade menos que ningum. Tu, mestra de amores ou aluna deles, tu,
que escutas a diversos, concluis que ela era...

Custa pr o nome do ofcio. Se no
fosse a obrigao de contar a histria com as prprias palavras, preferia
cal-lo, mas tu sabes qual  ele, e aqui fica. Concluis que Flora era
namoradeira, e conclui mal.

Leitora,  melhor negar j isto
que esperar pelo tempo. Flora no conhecia as douras do namoro, e menos ainda
se podia dizer namoradeira de ofcio. A namoradeira de ofcio  a planta das
esperanas, e alguma vez das realidades, se a vocao o impe e a ocasio o
permite. Tambm  preciso ter em lembrana aquilo de um publicista, filho de
Minas e do outro sculo, que acabou senador, e escrevia contra os ministros
adversrios: 'Pitangueira no d manga'. No, Flora no dava para
namorados.

A prova disto  que no Estado em
que viveu alguns meses de 1891, com o pai e a me, para o fim que direi
adiante, ningum alcanou o menor dos seus olhares amigos ou sequer
complacentes. Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e atrado
dela. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta levaram-lhe
as cores, os gestos e os vidros, sem obter outra coisa que a ateno corts e
acaso uma palavra sem valor.

Flora s se lembrava dos gmeos.
Se nenhum deles a esqueceu, ela no os perdeu de memria. Ao contrrio,
escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada de ambos. As
cartas falavam pouco da terra ou da gente, e no diziam mal nem bem. Usavam
muito a palavra saudades, que cada um dos dois gmeos lia para si.
Tambm eles a escreviam nas cartas que mandavam a D. Cludia e a Batista, com a
mesma inteno duplicada e misteriosa, que ela entendia muito bem.

Tais eram de longe, ela e eles. A
rixa velha, que os desunia na vida, continuava a desuni-los no amor. Podiam
amar cada um a sua moa, casar com ela e ter os seus filhos, mas preferiam amar
a mesma, e no ver o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor verbo, nem
diversa msica, antes, durante e depois da comisso do Batista.

CAPTULO LXXI

A COMISSO

L me escapou a palavra. Sim, foi
uma comisso dada ao pai, e da qual no sei nada, nem ela. Negcio reservado.
Flora chamava-lhe comisso do inferno. O pai, sem ir to fundo, concordava
mentalmente com ela; verbalmente, desmentia a definio.

 No digas isso, Flora; 
comisso de confiana para fins nobremente polticos.

Creio que sim, mas da a saber o
objeto especial e real, ia largo espao. Tambm no se sabe como foi parar s
mos de Batista aquele recado do governo. Sabe-se que ele no desprezou a
escolha, quando um amigo ntimo correu a cham-lo ao palcio do generalssimo.
Viu que era reconhecer nele muita finura e capacidade de trabalho. No  menos
certo, porm, que a comisso entrava a aborrec-lo, posto que na
correspondncia oficial dissesse exatamente o contrrio. Se tais papis
mostrassem sempre o corao da gente, Batista, cujas instrues eram, alis, de
concrdia, parecia querer levar a concrdia a ferro e fogo; mas o estilo no 
o homem. O corao de Batista fechava-se, quando ele escrevia, e deixava ir a
mo adiante, com a chave do corao apertada... 'J  tempo, suspirava o
msculo, j  tempo de um lugar de governador.

Quanto a D. Cludia, no queria
ver acabada a comisso, que restitua ao esposo a ao poltica; faltava-lhe
somente uma coisa, oposio. Nenhum jornal dizia mal dele. Aquele prazer de ler
todas as manhs as descomposturas dos adversrios, l-las e rel-las com os
seus nomes feios, como ltegos de muitas pontas, que lhe rasgavam as carnes e a
excitavam ao mesmo tempo, esse prazer no lhe dava a comisso reservada. Ao
contrrio, havia uma espcie de aposta em achar o comissrio justo, eqitativo
e conciliador, digno de admirao, tipo cvico, carter sem mcula. Tudo isto
ela conheceu outrora, mas para lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse
entremeado de ralhos e calnias. Sem eles, era gua insossa. Tambm no tinha
aquela parte de cerimnias a que obrigava o sumo cargo, mas no lhe faltavam
atenes, e era alguma coisa.

CAPTULO LXXII

O REGRESSO

Quando o marechal Deodoro
dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Batista recordou o tempo dos
manifestos liberais, e quis fazer um. Chegou a principi-lo, em segredo,
empregando as belas frases que trazia de cor, citaes latinas, duas ou trs
apstrofes. D. Cludia reteve-o  beira do abismo, com razes claras e robustas.
Antes de tudo, o golpe de Estado podia ser um benefcio. Serve-se muita vez a
liberdade parecendo sufoc-la. Depois, era o mesmo homem que a havia proclamado
que convidava agora a nao a dizer o que queria, e a emendar a constituio,
salvo nas partes essenciais. A palavra do generalssimo, como a sua espada,
bastava a defender e consumar a obra principiada. D. Cludia no tinha estilo
prprio, mas sabia comunicar o calor do discurso ao corao de um homem de boa
vontade. Batista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no ombro
imperativamente:

 Tens razo, filha.

No rasgou o papel escrito; queria
guard-lo como simples lembrana, e a prova  que ia escrever uma carta ao
Presidente. D. Cludia tambm lhe tirou esta idia da cabea. No havia
necessidade de lhe mandar o seu sufrgio; bastava conservar-se na comisso.

 O governo no est satisfeito
com voc?

 Est.

 Vendo que voc se conserva,
conclui que aprova tudo, e basta.

 Sim, Cludia, concordou ele aps
alguns instantes. Ao contrrio, qualquer coisa que escrevesse contra a
assemblia sediciosa que o Presidente acaba de dissolver, pareceria falta de
piedade. Paz aos mortos! Tens razo, filha.

Conservou-se calado, operando,
fiel s instrues recebidas. Vinte dias depois, o Marechal Deodoro passava o
governo s mos do Marechal Floriano, o congresso era restabelecido e todos os
decretos do dia 3 anulados.

Ao saber de tais fatos, Batista
pensou morrer. Ficou sem fala por alguns instantes, e D. Cludia no achou a
menor parcela de nimo que lhe desse. Nenhum contara com a marcha rpida dos
acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropelo que parecia um bando de
gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de fora e sossego, esperanas e
grande futuro. Um dia mais e tudo ruiu como casa velha.

Agora  que Batista compreendeu o
erro de haver dado ouvidos  esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no
dia 4 ou 5, estaria com um documento de resistncia na mo para reivindicar um
posto de honra qualquer,  ou s estima que fosse. Releu o manifesto; chegou a
pensar em imprimi-lo, embora incompleto. Tinha conceitos bons, como este:
'O dia da opresso  a vspera da liberdade'. Citava a bela Roland
caminhando para a guilhotina: ' liberdade, quantos crimes em teu
nome!' D. Cludia fez-lhe ver que era tarde, e ele concordou.

 Sim,  tarde. Naquele dia  que
no era tarde, vinha  hora prpria, para o efeito certo.

Batista amarrotou o papel
distraidamente; depois alisou-o e guardou-o. Em seguida, fez um exame de
conscincia, profundo e sincero. No devia ter cedido; a resistncia era o
melhor; se tem resistido s palavras da mulher, a situao seria outra.
Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe trancado os ouvidos e
passado adiante. Insistiu muito neste ponto. Se pudesse, faria voltar atrs o
tempo, e mostraria como  que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos.
No era preciso saber nada do que anteriormente sucedeu; a conscincia
dizia-lhe que, em situao idntica  do dia 3, faria outra coisa... Oh! com
certeza! faria coisa muito diversa, e mudaria o seu destino.

Um ofcio ou telegrama veio
arrancar Batista  comisso poltica e reservada. A volta para o Rio de Janeiro
foi breve e triste, sem os eptetos que o haviam regalado por alguns meses, nem
acompanhamento de amigos. S uma pessoa vinha alegre, a filha, que rezara todas
as noites pela terminao daquele exlio.

 Parece que ests contente com o
desastre de teu pai, disse-lhe a me j a bordo.

 No, mame; alegro-me de ver que
acabou esta canseira. Papai pode muito bem fazer poltica no Rio de Janeiro,
onde  muito apreciado. A senhora ver. Eu, se fosse papai, apenas
desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar as instrues e dizer
o que tinha feito; dizia mais que a dispensa veio muito a propsito, a fim de
no parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar l mesmo...

D. Cludia, a despeito do amargor
dos tempos, gostou de ver que a filha pensava e dava conselhos em poltica. No advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moa era no sair da
capital, fazer aqui mesmo o seu congresso, que em breve seria uma s assemblia
legislativa, como no Rio Grande do Sul; mas a qual das cmaras, Pedro ou Paulo,
caberia esse nico poder poltico? Eis o que ela mesma no sabia.

Ambos se lhe apresentaram a bordo,
logo que o paquete entrou no porto do Rio de Janeiro. No foram em duas
lanchas, foram na mesma, e saltaram com tal presteza para a escada, que
escaparam de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim
no acaba mal o captulo, porque a razo da presteza com que eles saltaram para
a escada foi a ambio de ser o primeiro que cumprimentasse a moa; aposta de
amor, que ainda uma vez os igualou na alma dela. Enfim chegaram, e no consta
qual efetivamente a cumprimentou primeiro; pode ser que ambos.

CAPTULO LXXIII

UM ELDORADO

No cais pharoux esperavam por eles
trs carruagens,  dois coups e um landau, com trs belas
parelhas de cavalos. A gente Batista ficou lisonjeada com a fineza da gente
Santos, e entrou no landau. Os gmeos foram cada um no seu coup.
A primeira carruagem tinha o seu cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho,
botes de metal branco, em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma das
outras tinha apenas o cocheiro, com igual libr. E todas trs se puseram
a andar, estas atrs daquela, os animais batendo rijo e compassado, a golpes
certos, como se houvessem ensaiado, por longos dias, aquela recepo. De quando
em quando, encontravam outros trens, outras librs, outras parelhas, a
mesma beleza e o mesmo luxo.

A capital oferecia ainda aos
recm-chegados um espetculo magnfico. Vivia-se dos restos daquele
deslumbramento e agitao, epopia de ouro da cidade e do mundo, porque a
impresso total  que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, no lhe
esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das empresas e companhias de
toda espcie. Quem no viu aquilo no viu nada. Cascatas de idias, de
invenes, de concesses rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para se
fazerem contos de ris, centenas de contos, milhares, milhares de milhares,
milhares de milhares de milhares de contos de ris. Todos os papis, alis
aes, saam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro, bancos,
fbricas, minas, estaleiros, navegao, edificao, exportao, importao,
ensaques, emprstimos, todas as unies, todas as regies, tudo o que esses
nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava nas ruas e praas, com
estatutos, organizadores e listas. Letras grandes enchiam as folhas pblicas,
os ttulos sucediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e s morria o que
era frouxo, mas a princpio nada era frouxo. Cada ao trazia a vida intensa e
liberal, alguma vez imortal, que se multiplicava daquela outra vida com que a
alma acolhe as religies novas. Nasciam as aes a preo alto, mais numerosas
que as antigas crias da escravido, e com dividendos infinitos.

Pessoas do tempo, querendo
exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro brotava do cho, mas no  verdade.
Quando muito, caa do cu. Cndido e Cacambo... Ai, pobre Cacambo nosso! Sabes
que  o nome daquele ndio que Baslio da Gama cantou no Uruguai.
Voltaire pegou dele para o meter no seu livro, e a ironia do filsofo venceu a
doura do poeta. Pobre Jos Baslio! tinhas contra ti o assunto estreito e a
lngua escusa. O grande homem no te arrebatou Lindia, felizmente, mas Cacambo
 dele, mais dele que teu, patrcio da minha alma.

Cndido e Cacambo, ia eu dizendo,
ao entrarem no Eldorado, conta Voltaire que viram crianas brincando na rua com
rodelas de ouro, esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria
em que comeram quiseram pagar o jantar com duas delas. Sabes que o dono da casa
riu s bandeiras despregadas, j por quererem pagar-lhe com pedras do
calamento, j porque ali ningum pagava o que comia; era o governo que pagava
tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade atribuda ao
Estado, que fez crer iguais fenmenos entre ns, mas  tudo mentira.

O que parece ser verdade  que as
nossas carruagens brotavam do cho. s tardes, quando uma centena delas se ia
enfileirar no Largo de So Francisco de Paula,  espera das pessoas, era um
gosto subir a Rua do Ouvidor, parar e contempl-las. As parelhas arrancavam os
olhos  gente; todas pareciam descer das rapsdias de Homero, posto fossem
corcis de paz. As carruagens tambm. Juno certamente as aparelhara com suas
correias de ouro, freios de ouro, rdeas de ouro, tudo de ouro incorruptvel.
Mas nem ela nem Minerva entravam nos veculos de ouro para os fins da guerra
contra lion. Tudo ali respirava a paz. Cocheiros e lacaios, barbeados e
graves, esperando tesos e compostos, davam uma bela idia do ofcio. Nenhum
aguardava o patro, deitado no interior dos carros, com as pernas de fora. A
impresso que davam era de uma disciplina rgida e elegante, aprendida em alta
escola e conservada pela dignidade do indivduo.

'Casos h,  escrevia o nosso
Aires  em que a impassibilidade do cocheiro na bolia contrasta com a agitao
do dono no interior da carruagem, fazendo crer que  o patro que, por
desfastio, trepou  bolia e leva o cocheiro a passear.

CAPTULO LXXIV

A ALUSO DO TEXTO

Antes de continuar,  preciso
dizer que o nosso Aires no se referia vagamente ou de modo genrico a algumas
pessoas, mas a uma s pessoa particular. Chamava-se ento Nbrega; outrora no
se chamava nada, era aquele simples andador das almas que encontrou Natividade
e Perptua na Rua de So Jos, esquina da Misericrdia. No esqueceste que a
recente me deitou uma nota de dois mil-ris  bacia do andador. A nota era
nova e bela; passou da bacia  algibeira, no fundo de um corredor, no sem
algum combate.

Poucos meses depois, Nbrega
abandonou as almas a si mesmas, e foi a outros purgatrios, para os quais achou
outras opas, outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz.
Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e no se
sabe se tambm o pas. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de ris,
que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Enfim, alvoreceu a famosa quadra
do 'encilhamento'. Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande
esmola, o grande purgatrio. Quem j sabia do andador das almas? A antiga roda
perdera-se na obscuridade e na morte. Ele era outro; as feies no eram as
mesmas, seno as que o tempo lhe veio compondo e melhorando.

Se a grande bacia, ou qualquer das
outras recebeu notas que tivessem o destino da primeira,  o que se no sabe,
mas  possvel. Foi por esse tempo que Aires o viu de carro, quase a sair pela
portinhola fora, cumprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o
lacaio (creio que eram escoceses) salvassem a dignidade pessoal da casa, Aires
fez a observao do fim do outro captulo, sem nenhuma inteno geral.

Posto no achasse j nenhum
conhecido antigo, Nbrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andara a pedir
para as primeiras almas. Um dia, porm, tais foram as saudades dele que pensou
em afrontar o perigo e l foi. Tinha ccegas de mirar as ruas e as pessoas,
recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde
apareciam tais e tais moas... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou
por outra parte. S passava de carro; depois quis ver tudo a p, devagar,
parando, se fosse possvel, e revivendo o extinto.

L se foi a p; desceu pela Rua de
So Jos, dobrou a da Misericrdia, foi parar  Praia de Santa Luzia, tornou
pela Rua de D. Manuel, enfiou de beco em beco. A princpio olhava de esguelha, rpido, os olhos no cho. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro.
Dos sobrados de grade de pau debruaram-se ainda moas, velhas e meninas e
nenhuma era a mesma. Nbrega foi-se animando e encarando. Talvez esta velha
fosse moa, h vinte anos; a moa talvez mamasse, e d agora de mamar a outra
criana. Nbrega acabou parando e andando devagar.

Voltou mais vezes. S as casas,
que eram as mesmas, pareciam reconhec-lo, e algumas quase que lhe falavam. No
 poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se
admirar delas, contar-lhes a vida, obrig-las a comparar o modesto de outrora
com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras mudas: 'Vejam, manas, 
ele mesmo'. Passava por elas, fitava-as, interrogava-as, quase ria, quase
as tocava para sacudi-las com fora: 'Falem, diabos, falem!'

No confiaria de homem aquele
passado, mas s paredes mudas, s grades velhas, s portas gretadas, aos
lampies antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quisera
dar olhos, ouvidos e boca, uma boca que s ele escutasse, e que proclamasse a
prosperidade daquele velho andador.

Uma vez, viu a matriz de So Jos
aberta e entrou. A igreja era a mesma; aqui esto os altares, aqui est a
solido, aqui est o silncio. Persignou-se, mas no orou; olhava s a um lado
e outro, andando na direo do altar-mor. Tinha receio de ver aparecer o
sacristo, podia ser o mesmo, e conhec-lo. Ouviu passos, recuou depressa e
saiu.

Ao subir pela Rua de So Jos,
encostou-se  parede, para deixar passar uma carroa. A carroa subiu a
calada, ele refugiou-se num corredor. O corredor podia ser qualquer; aquele
era o prprio em que ele fez a operao da nota de dois mil-ris de Natividade.
Olhou bem, era o mesmo. Ao fundo estavam os trs ou quatro degraus da primeira
escada que dobrava  esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu por
um instante aquela manh, viu no ar a nota de dois mil-ris. Outras lhe teriam
vindo s mos por maneiras assim fceis, mas nunca lhe esqueceu aquela graciosa
folha gravada com tantos smbolos, nmeros, datas e promessas, entregue por uma
senhora desconhecida, sabe Deus se a prpria Santa Rita de Cssia. Era a sua
particular devoo. Sem dvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes
dispersas no foram seno levar a outras notas um convite para a algibeira do
dono, e todas acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que no as
ouvissem crescer.

Por mais que ele olhasse pela vida
dentro, no achava igual obsquio do Cu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se
alguma jia lhe levou os olhos, no lhe levou as mos. Tinha aprendido a
respeitar o alheio, ou ganhara com que o comprar. A nota de dois mil-ris... Um
dia, ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.

No, leitor, no me apanhas em contradio. Eu bem sei que a princpio o andador das almas atribuiu a nota ao prazer que a
dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras dele:
'Aquelas duas viram passarinho verde!' Mas se agora atribua a nota 
proteo da santa, no mentia ento nem agora. Era difcil atinar com a
verdade. A nica verdade certa eram os dois mil-ris. Nem se pode dizer que era
a mesma em ambos os tempos. Ento, a nota de dois mil-ris equivalia, pelo
menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora no subia de uma
gorjeta de cocheiro.

Tambm no h contradio em pr a
santa agora e a namorada outrora. Era mais natural o contrrio, quando era
maior a intimidade dele com a igreja. Mas, leitor dos meus pecados, amava-se
muito em 1871, como j se amava em 1861, 1851 e 1841, no menos que em 1881,
1891 e 1901. O sculo dir o resto. E depois,  preciso no esquecer que a
opinio do andador das almas acerca de Natividade foi anterior ao gesto do
corredor, quando ele agasalhou a nota na algibeira.  duvidoso que, depois do
gesto, a opinio fosse a mesma.

CAPTULO LXXV

PROVRBIO ERRADO

Pessoa a quem li confidencialmente
o captulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do
Castelo. Sem as suas predies grandiosas, a esmola de Natividade seria mnima
ou nenhuma, e o gesto do corredor no se daria por falta de nota. 'A
ocasio faz o ladro', conclui o meu correspondente.

No conclui mal. H todavia alguma
injustia ou esquecimento, porque as razes do gesto do corredor foram todas
pias. Alm disso, o provrbio pode estar errado. Uma das afirmaes de Aires,
que tambm gostava de estudar adgios,  que esse no estava certo.

 No  a ocasio que faz o
ladro, dizia ele a algum; o provrbio est errado. A forma exata deve ser
esta: 'A ocasio faz o furto; o ladro nasce feito'.

CAPTULO LXXVI

TALVEZ FOSSE A MESMA!

Nbrega saiu enfim do corredor,
mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mo:

 Meu senhor, uma esmolinha por
amor de Deus!

Nbrega meteu a mo no bolso do
colete e pegou um nquel, entre dois que l havia, um de tosto, outro de dois.
Pegou o primeiro, mas indo a dar-lho, mudou de idia; no deu o nquel; disse 
velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua,
introduziu a mo na algibeira das calas e sacou um mao de dinheiro; procurou
e achou uma nota de dois mil-ris, no nova, antes velha, to velha como a
mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro no perde com a
velhice.

 Tome l, murmurou ele.

Quando a mendiga voltou do
espanto, Nbrega acabava de restituir o mao  algibeira e ia a querer sair. O
que a mendiga ento disse veio entremeado de lgrimas:

 Meu senhor! Obrigada, meu
senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santssima...

E beijava a nota, e queria beijar
a mo que lhe dera a esmola, mas ele a escondeu, como no Evangelho, murmurando
que no, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som
quase mstico, uma espcie de melodia do Cu, um coro de anjos, e fazia bem
fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mo trmula, segurando a nota. Nbrega no
esperou que ela se fosse, saiu, desceu a rua, com as bnos da mulher atrs de
si; dobrou a esquina, a passo rpido, e a foi pensando no se sabe em qu.

Atravessou a praa, passou a
catedral e a Igreja do Carmo, e chegou ao Carceler, onde entregou as botas a um
italiano para que lhas engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo,
para a direita ou para esquerda,  em todo caso para longe,  e acabou
murmurando esta frase, que tanto podia referir-se  nota como  mendiga, mas
provavelmente era  nota:

 Talvez fosse a mesma.

Nenhum obsquio, por nfimo que
seja, esquece ao beneficiado. H excees. Tambm h casos em que a memria dos
obsquios aflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas no  regra. A regra
 guard-los na memria, como as jias nos seus escrnios; comparao justa,
porque o obsquio  muita vez alguma jia, que o obsequiado esqueceu de
restituir.

CAPTULO LXXVII

HOSPEDAGEM

A famlia batista foi aposentada
em casa de Santos. Natividade no pde ir a bordo, e o marido estava ocupado em
'lanar uma companhia'; mandaram recado pelos filhos que a casa de
Botafogo tinha j os quartos preparados. Desde que o carro se ps a andar,
Batista confessou que ia ficar constrangido por alguns dias.

 Numa casa de penso era melhor,
at que nos despejassem a de So Clemente.

 Que queria voc? No havia
remdio seno aceitar, ponderou a mulher.

Flora no disse nada, mas sentia o
contrrio do pai e da me. Pensar, no pensou; ia to atordoada com a vista dos
rapazes que as idias no se enfileiraram naquela forma lgica do pensamento. A
prpria sensao no era ntida. Era uma mistura de opressivo e delicioso, de
turvo e claro, uma felicidade truncada, uma aflio consoladora, e o mais que
puderes achar no captulo das contradies. Eu nada mais lhe ponho. Nem ela
saberia dizer o que sentia. Teve alucinaes extraordinrias.

Agora o que  mister dizer  que a
idia da hospedagem cabe toda aos dois jovens doutores. Que eles eram j
doutores, posto no houvessem ainda encetado a carreira de advogado nem de
mdico. Viviam do amor da me e da bolsa do pai, inesgotveis ambos. O pai
abanou as orelhas  lembrana, mas os gmeos insistiram pelo obsquio, a tal
ponto que a me, contente de os ver de acordo, saiu do silncio e concordou com
eles. A idia de ter a pequena ao p de si, por alguns dias, e discernir qual
era o melhor aceito, e o que deveras a amava, pode ser que tambm influsse na
adoo do voto, mas no afirmo nada a tal respeito. Tambm no asseguro que
tivesse grande gosto em agasalhar a me e o pai de Flora. No obstante, o
encontro foi cordial de parte a parte. Foi um abraar, um beijar, um perguntar,
um trocar de mimos que no acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra cor,
outro ar. Flora era um encanto para Natividade e Perptua; nenhuma destas sabia
aonde iria parar aquela moa to senhoril, to esbelta, to...

 No digam o resto, interrompeu a
moa sorrindo; eu tenho a mesma opinio.

Santos recebeu-os,  tarde, com a
mesma cordialidade,  talvez menos aparente, mas tudo se desculpa a quem anda
com grandes negcios.

 Uma idia sublime, disse ele ao
pai de Flora; a que lancei hoje foi das melhores, e as aes valem j ouro.
Trata-se de l de carneiro, e comea pela criao deste mamfero nos campos do
Paran. Em cinco anos poderemos vestir a Amrica e a Europa. Viu o programa nos
jornais?

 No, no leio jornais daqui
desde que embarquei.

 Pois ver!

No dia seguinte, antes de almoar,
mostrou ao hspede o programa e os estatutos. As aes eram maos e maos, e
Santos ia dizendo o valor de cada um. Batista somava mal, em regra; daquela
vez, pior. Mas os algarismos cresciam  vista, trepavam uns nos outros, enchiam
o espao, desde o cho at s janelas, e precipitavam-se por elas abaixo, com
um rumor de ouro que ensurdecia. Batista saiu dali fascinado, e foi repetir
tudo  mulher.

CAPTULO LXXVIII

VISITA AO MARECHAL

D. Cludia, quando ele acabou,
perguntou-lhe com simplicidade:

 Voc vai hoje ao marechal?

Batista, caindo em si:

 Naturalmente.

Tinham ajustado que ele iria ter
com o presidente da Repblica explicar-lhe a comisso que exercera, toda
reservada, e, sem embargo, imparcial. Diria o esprito de concrdia com que
andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da convenincia de um governo
que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o do generalssimo; e uma frase
final bem estudada.

 Isso na ocasio, disse Batista.

 No,  melhor lev-la feita. Eu
lembrei-me desta: 'Creia V. Excia.que Deus est com os fortes e os
bons'.

 Sim, no  m. Voc pode
acrescentar um gesto que indique o Cu.

 Isso  que no. Voc sabe que eu
no dou para gestos, no sou ator. Eu, sem mexer um p; inspiro respeito.

D. Cludia dispensou o gesto; no
era essencial. Quis que ele escrevesse a frase, mas j estava de cor. Batista
tinha boa memria.

Naquele mesmo dia, Batista foi ao
Marechal Floriano. No disse nada s pessoas da casa; contaria tudo na volta.
D. Cludia tambm calou, era por pouco tempo; ficou esperando ansiosa. Esperou
duas mortais horas, chegou a imaginar que lhe tivessem encarcerado o esposo,
por intrigas. No era devota, mas o medo inspira devoo, e ela rezou consigo.
Enfim, chegou Batista. Ela correu a receb-lo, alvoroada, pegou-lhe na mo e
recolheram-se ao quarto. Perptua (vede o que so testemunhos pessoais na
histria!) exclamou enternecida:

 Parecem dois pombinhos!

Batista contou que a recepo foi
melhor do que esperava, conquanto o marechal no lhe dissesse nada, mas
escutou-o com interesse. A frase? A frase saiu bem, apenas com uma emenda. No
estando certo se ele preferia bons a fortes, ou se fortes
a bons...

 Deviam ser as duas palavras,
interrompeu a mulher.

 Sim, mas lembrou-me empregar uma
terceira: 'Creia V. Excia.que Deus est com os dignos!'

Com efeito, a ltima palavra podia
abranger as duas, e trazia esta vantagem de dar  frase um arranjo pessoal
dele.

 Mas o marechal que disse?

 No disse nada; ouviu-me com
ateno obsequiosa e chegou a sorrir,  um sorriso leve, um sorriso de
acordo...

 Ou seria... Quem sabe... Voc
no andou bem, decerto. Comigo ele diria alguma coisa. Voc exps tudo,
conforme tnhamos combinado?

 Tudo.

 Exps as razes da comisso, o
desempenho, a nossa moderao?...

 Tudo, Cludia.

 E o aperto de mo do marechal?

 No estendeu a mo, a princpio;
fez um gesto de cabea; eu  que estendi a minha, dizendo: Sempre s ordens de
Vossa Excia..

 E ele?

 Ele apertou-me a mo.

 Apertou bem?

 Voc sabe, no podia ser um
aperto de amigo, mas deve ter sido cordial.

 E nenhuma palavra? Um passe
bem, ao menos?

 No, nem era preciso. Cortejei-o
e sa.

D. Cludia deixou-se estar
pensando. A recepo no lhe pareceu que fosse m, mas podia ser melhor. Com
ela, seria muito melhor.

CAPTULO LXXIX

FUSO, DIFUSO,
CONFUSO...

Atrs falei das alucinaes de
Flora. Realmente, eram extraordinrias.

Em caminho, depois do desembarque,
no obstante virem os gmeos separados e ss, cada um no seu coup,
cismou que os ouvia falar; primeira parte da alucinao. Segunda parte: as duas
vozes confundiam-se, de to iguais que eram, e acabaram sendo uma s. Afinal, a
imaginao fez dos dois moos uma pessoa nica.

Este fenmeno no creio que possa
ser comum. Ao contrrio, no faltar quem absolutamente me no creia, e suponha
inveno pura o que  verdade purssima. Ora,  de saber que, durante a
comisso do pai, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na
mesma voz e mesma criatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o
fenmeno. Quando ouvia os dois, sem os ver, a imaginao acabava a fuso do
ouvido pela da vista, e um s homem lhe dizia palavras extraordinrias.

Tudo isto no  menos
extraordinrio, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dois rapazes
fariam um s mancebo, nem a moa seria uma s donzela. Corrigiria a natureza
desdobrando Flora. No podendo ser assim, consinto na unificao de Pedro e
Paulo. Porquanto, esse efeito de viso repetia-se ao p deles, tal qual na
ausncia, quando ela se deixava esquecer do lugar, e soltava a rdea a si
mesma. Ao piano,  palestra, ao passeio na chcara,  mesa de jantar, tinha
dessas vises repentinas e breves, e das quais ela mesma sorria, a princpio.

Se algum quiser explicar este
fenmeno pela lei da hereditariedade, supondo que ele era a forma afetiva da
variao poltica da me de Flora, no achar apoio em mim, e creio que em ningum. So coisas diversas. Conheceis os motivos de D. Cludia; a filha teria outros que
ela prpria no sabia. O nico ponto de semelhana  que, tanto na me como na
filha, o fenmeno era agora mais freqente, mas em relao  primeira vinha do
atropelo dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revoluo se faz como a simples
passagem de uma sala a outra; as mesmas revolues chamadas de palcio trazem alguma
agitao que fica por certo prazo, at que a gua volte ao nvel. D. Cludia
cedia  inquietao dos tempos.

A filha obedeceria a outra causa
qualquer, que se no podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um
espetculo misterioso, vago, obscuro, em que as figuras visveis se faziam
impalpveis, o dobrado ficava nico, o nico desdobrado, uma fuso, uma
confuso, uma difuso...

CAPTULO LXXX

TRANSFUSO, ENFIM

Uma transfuso, tudo o que puder
definir melhor, pela repetio e graduao das formas e dos estados, aquele
particular fenmeno, podes empreg-lo no outro e neste captulo.

Dito o fenmeno,  preciso dizer
tambm que Flora, a princpio, achava-lhe graa. Minto; nos primeiros tempos,
como estava longe, no lhe achou nada; depois, sentiu uma espcie de susto ou
vertigem, mas logo que se acostumou a passar de dois a um e de um a dois,
pareceu-lhe graciosa a alternao, e chegava a evoc-la com o propsito de
divertir a vista. Afinal nem isto era preciso, a alternao fazia-se de si
mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantnea. No eram to
freqentes que confinassem com o delrio. Enfim, ela se foi acostumando e
deleitando.

Uma ou outra vez, na cama, antes
de dormir, repetia-se o fenmeno, depois de muita resistncia da parte dela,
que no queria perder o sono. Mas o sono vinha, e o sonho completava a viglia.
Flora passeava ento pelo brao do mesmo garo amado, Paulo se no Pedro, e
ambos iam admirar estrelas e montanhas, ou ento o mar, que suspirava ou
tempestuava, e as flores e as runas. No era raro ficarem os dois a ss,
diante de uma nesga de cu, claro de luar, ou todo repregado de estrelas como
um pano azul escuro. Era  janela, supe; vinha de fora a cantiga dos ventos
mansos, um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras dela e
dele, confirmando a imaginao dela. Como era sonho, a imaginao trazia
espetculos desconhecidos, tais e tantos que mal se podia crer bastasse o
espao de uma noite. E bastava. E sobrava. Sucedia que Flora acordava de
repente, perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo iluso, e raro
ento dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cansava-se, at adormecer
novamente e sonhar outra coisa.

Outras vezes, a viso ficava sem o
sonho, e diante dela uma s figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo
gesto splice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braos sobre os ombros com o fim
inconsciente de cruzar os dedos atrs do pescoo, a realidade, posto que
ausente, clamou pelos seus foros, e o nico moo se desdobrou nas duas pessoas
semelhantes.

A diferena deu s duas vises de
acordada um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.

CAPTULO LXXXI

AI, DUAS ALMAS...

Anda, Flora, ajuda-me, citando
alguma coisa, verso ou prosa, que exprima a tua situao. Cita Goethe, amiga
minha, cita um verso do Fausto, adequado:

Ai, duas almas no meu seio moram!

A me dos gmeos, a bela
Natividade, podia hav-lo citado tambm, antes deles nascerem, quando ela os
sentia lutando dentro em si mesma:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Nisto as duas se parecem,  uma os
concebeu, outra os recolheu. Agora, como  que se d ou se dar a escolha de
Flora, nem o prprio Mefistfeles no-lo explicaria de modo claro e certo. O
verso basta:

Ai, duas almas no meu seio moram!

Talvez aquele velho Plcido, que
l deixamos nas primeiras pginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em
matrias escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos nmeros, a
significao dos gestos no s visveis como invisveis, a estatstica da
eternidade, a divisibilidade do infinito. Era j morto desde alguns anos. Hs
de lembrar-te que ele, consultado pelo pai de Pedro e Paulo, acerca da
hostilidade original dos gmeos, explicou-a prontamente. Morreu no seu ofcio;
expunha a trs discpulos novos a correspondncia das letras vogais com os
sentidos do homem, quando caiu de bruos e expirou.

J ento os adversrios de
Plcido,  que os tinha na prpria seita,  afirmavam haver ele aberrado da
doutrina, e, por natural efeito, enlouquecido. Santos nunca se deixou ir com
esses divergentes da casa comum, que acabaram formando outra igrejinha em outro
bairro, onde pregavam que a correspondncia exata no era entre as vogais e os
sentidos, mas entre os sentidos e as vogais. Esta outra frmula, parecendo mais
clara, fez com que muitos discpulos da primeira hora acompanhassem os da
ltima, e proclamem agora, como concluso final, que o homem  um alfabeto de
sensaes.

Venceram estes, ficando muito
poucos fiis  doutrina do velho Plcido. Evocado algum tempo depois de morto,
confessou ele ainda uma vez a sua frmula, como a nica das nicas, e
excomungou a quantos pregassem o contrrio. Alis, os dissidentes j o haviam
excomungado tambm, declarando abominvel a sua memria, com aquele dio rijo,
que fortalece alguma vez o homem contra a frouxido da piedade.

Talvez o velho Plcido deslindasse
o problema em cinco minutos. Mas para isso era preciso evoc-lo, e o discpulo
Santos cuidava agora de umas liquidaes ltimas e lucrativas. No s de f
vive o homem, mas tambm de po e seus compostos e similares.

CAPTULO LXXXII

EM SO CLEMENTE

Ao cabo de poucas semanas, a
famlia Batista saiu da casa Santos, e tornou  Rua de So Clemente. A
despedida foi terna, as saudades comearam antes da separao, mas a afeio, o
costume, a estima,  a necessidade, em suma, de se verem a mido compensaram a
melancolia, e a gente Batista levou promessa de que a gente Santos iria v-la
da a poucos dias.

Os gmeos cumpriram cedo a
promessa. Um deles, parece que Paulo, foi l nessa mesma noite com recado da
me para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, acrescentando
Batista, para abreviar a visita, que estavam bastante cansados. Os olhos de
Flora desmentiram esta afirmao; mas dentro em pouco achavam-se no menos
tristes que alegres. A alegria vinda da prontido de Paulo, a tristeza da
ausncia de Pedro. Quisera-os ambos naturalmente; mas, como  que as duas
sensaes se mostravam a um tempo, eis o que no entenders bem nem mal.
Certamente, os olhos iam diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu  moa
ouvir rumor na escada; tudo iluso. Mas estes gestos, que Paulo no viu, to
contente estava de se haver adiantado ao irmo, no eram tais que a fizessem
esquecer o irmo presente.

Paulo saiu tarde, no s para o
fim de aproveitar a ausncia de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar,
com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade de
sensao enchia os olhos da moa, at  hora da despedida, em que a parte
triste foi maior que a alegre, pois que eram duas ausncias, em vez de uma.
Conclui o que quiseres, minha dona; ela recolheu-se para dormir, e reconheceu
que, se se no dorme com uma tristeza na alma, muito menos com duas.

CAPTULO LXXXIII

A GRANDE NOITE

H muito remdio contra a insnia.
O mais vulgar  contar de um at mil, dois mil, trs mil ou mais, se a insnia
no ceder logo.  remdio que ainda no fez dormir ningum, ao que parece, mas
no importa. At agora, todas as aplicaes eficazes contra a tsica vo de par
com a noo de que a tsica  incurvel. Convm que os homens afirmem o que no
sabem, e, por ofcio, o contrrio do que sabem; assim se forma esta outra
incurvel, a Esperana.

Flora, incurvel tambm, se no
preferes a definio de inexplicvel, que lhe deu Aires, a graciosa Flora teve
naquela noite a sua insnia. Mas foi um tanto culpa sua. Em vez de se deitar
quietinha e dormir com os anjos, achou melhor velar com um ou dois deles, e gastar
uma parte da noite,  janela ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar e a
completar, metida no roupo de linho, com os cabelos atados para dormir.

A princpio pensou no que l
estivera, e evocou todas as suas graas, realadas pela virtude particular de a
ter ido ver  noite, sem embargo de se terem visto de manh. Sentia-se grata.
Toda a conversao foi ali repetida na solido da alcova, com as entonaes
diversas, o vrio assunto, e as interrupes freqentes, ora dos outros, ora
dela mesma. Ela, em verdade, s interrompia, para pensar no ausente,  e
portanto no fazia mais que converter o dilogo em monlogo, o qual por sua vez
acabava em silncio e contemplao.

Agora, pensando em Paulo, queria
saber por que  que o no escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a
nota aventurosa do carter, e esta feio no lhe desprazia. Inexplicvel ou
no, deixava-se levar pelos mpetos do rapaz, que queria trocar o mundo e o
tempo por outros mais puros e felizes. Aquela cabea, apenas masculina, era
destinada a mudar a marcha do Sol, que andava errado. A Lua tambm. A Lua pedia
um contato mais freqente com os homens, menos quartos, no descendo o
minguante de metade. Visvel todas as noites, sem que isso acarretasse a
decadncia das estrelas, continuaria modestamente o ofcio do Sol, e faria
sonhar os olhos insones ou s cansados de dormir. Tudo isso cumpriria a alma de
Paulo, faminta de perfeio. Era um bom marido, em suma. Flora cerrou as plpebras, para v-lo melhor, e achou-o a seus ps, com as mos dela
entre as suas, risonho e exttico.

 Paulo! meu querido Paulo!

Inclinou-se, para v-lo de mais
perto, e no perdeu o tempo nem a inteno. Visto assim, era mais belo que
simplesmente conversando das coisas vulgares e passageiras. Enfiou os olhos nos
olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O que l viu no soube diz-lo bem;
foi tudo to novo e radiante que a pobre retina da moa no podia fitar nada
com segurana nem continuidade. As idias faiscavam como saindo de um fogareiro
 fora de abano, as sensaes batiam-se em duelo, as reminiscncias subiam
frescas, algumas saudades, e ambies principalmente, umas ambies de asas
largas, que faziam vento s com agit-las. Sobre toda essa mescla e confuso
chovia ternura, muita ternura...

Flora recolheu os olhos, Paulo
estava na mesma postura; mas, do lado da porta, metido na penumbra, a figura de
Pedro aparecia, no menos bela, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada
daquela tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo
podia chorar lgrimas de sangue, sem lhe merecer a menor simpatia. Que o amor,
conforme as ninfas antigas e modernas, no tem piedade. Quando h piedade para
outro, dizem elas,  que o amor ainda no nasceu de verdade, ou j morreu de
todo, e assim o corao no lhe importa vestir essa primeira camisa do afeto.
Perdoa a figura; no  nobre, nem clara, mas a situao no me d tempo de ir 
cata de outra.

Pedro aproximou-se, a passo lento,
ajoelhou-se tambm e tomou-lhe as mos que Paulo apertava entre as suas. Paulo
ergueu-se e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava entre
elas. Talvez Paulo fosse bramindo de clera; ela  que no ouviu nada, to
docemente vivo era o gesto de Pedro, j agora sem melancolia, e os olhos to
extticos como os do irmo. No eram tais que sassem, como os deste, s
aventuras. Tinham a quietao de quem no queria mais sol nem lua que esses que
andam a, que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, no cuida de os
trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade, o acordo entre si e
as coisas, no menos simpticos ao corao da moa, ou por trazerem a idia de
perptua ventura, ou por darem a sensao de uma alma capaz de resistir.

Nem por isso os olhos de Flora
deixaram de penetrar os de Pedro, at chegar  alma do rapaz. O motivo secreto
desta outra entrada podia ser o escrpulo de cotejar as duas para julg-las, se
no era somente o desejo de no parecer menos curiosa de uma que de outra.
Ambas as razes so boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de fitar
os olhos de Pedro era to natural que no exigia inteno particular nenhuma, e
bastava fit-los para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gmea da
outra; no lhe viu mais nem menos que nesta.

Unicamente,  e aqui toco o ponto
escabroso do captulo,  achou c alguma coisa indefinvel que no sentira l;
em compensao sentiu l outra que no se lhe deparou c. Indefinvel, no
esqueas. E escabroso porque nada h pior que falar de sensaes sem nome.
Crede-me, amigo meu, e tu, no menos amiga minha, crede-me que eu preferia
contar as rendas do roupo da moa, os cabelos apanhados atrs, os fios do
tapete, as tbuas do teto e por fim os estalinhos da lamparina que vai
morrendo... Seria enfadonho, mas entendia-se.

Sim, a lamparina ia morrendo, mas
ainda podia dar luz ao regresso de Paulo. Quando Flora o viu entrar e
ajoelhar-se outra vez, ao p do irmo, e ambos dividirem entre si as mos dela,
mansos e cordatos, ficou longamente atnita. Obra de um credo, como diziam os
nossos antigos, quando havia mais religio que relgios. Voltando a si, puxou
as mos, estendeu-as depois sobre a cabea deles, como se lhes apalpasse a
diferena, o quid, o algo, o indefinvel. A lamparina ia morrendo...
Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamaes, por exortaes, por splicas, a que
ela respondia mal e tortamente, no que os no entendesse, mas por no os
agravar, ou acaso por no saber a qual deles diria melhor. A ltima hiptese
tem ar de ser a mais provvel. Em todo caso,  o prlogo do que sucedeu, quando
a lamparina chegou aos ltimos arrancos.

Tudo se mistura,  meia claridade;
tal seria a causa da fuso dos vultos, que de dois que eram, ficaram sendo um
s. Flora, no tendo visto sair nenhum dos gmeos, mal podia crer que formassem
agora uma s pessoa, mas acabou crendo, mormente depois que esta nica pessoa
solitria parecia complet-la interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas no; era uma
s pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nela o corao.
Estava to cansada de emoes que tentou erguer-se e ir fora, mas no pde; as
pernas pareciam de chumbo e coladas ao solo. Assim esteve at que a lamparina,
ao canto, morreu de todo. Flora teve um sobressalto na poltrona, e ergueu-se:

 Que  isto?

A lamparina apagou-se. Foi
acend-la. Viu ento que estava sem um nem outro, sem dois nem um s fundido de
ambos. Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava o
seu quarto de dormir, e a imaginao criara tudo. Foi o que ela sups, e o
leitor sabe. Flora compreendeu que era tarde, e um galo confirmou essa opinio,
cantando; outros galos fizeram a mesma coisa.

 Ora, meu Deus! exclamou a filha
de Batista.

Meteu-se na cama, e, se no dormiu
logo, tambm no se demorou muito; no tardou a estar com os anjos. Sonhou com
o canto dos galos, uma carroa, um lago, uma cena de viagem do mar, um discurso
e um artigo. O artigo era de verdade. A me veio acord-la, s dez horas da
manh, chamando-lhe dorminhoca, e ali mesmo na cama, lhe leu uma folha da manh
que recomendava o marido ao governo. Flora ouviu satisfeita; acabara a grande
noite.

CAPTULO LXXXIV

O VELHO SEGREDO

Natividade dormiu tranqila, em
Botafogo, mas acordou pensando nos filhos e na moa de So Clemente. Viera
reparando nos trs. Parecera-lhe antes que Flora no aceitava um nem outro,
logo depois que os aceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente.
Concluiu que ainda no sentiria nada particular e decisivo; naturalmente iria
com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Eles  que pareciam sentir
igual inclinao e igual cime. Da alguma possvel catstrofe. A separao no
suprimiria tudo; mas, alm de que, separadas as famlias, nem tudo seria
presente a seus olhos, as visitas podiam ser menos freqentes e at raras.
Tinha assim o que quisera.

Ao demais, ia chegando o tempo de
ir para Petrpolis; propriamente, chegara. Natividade cuidava de subir com os
filhos. Sempre haveria l no alto damas elegantes, diverses, alegria. Podia
ser at que eles achassem noivas, e bastava uma para um. O que ficasse sem ela
teria a liberdade de desposar Flora. Clculos de me; vieram outros que os modificaram,
e outros que os restauraram. Quem for me que lhe atire a primeira pedra.

Nenhuma outra me atirou a
primeira pedra  nossa amiga. Quero crer que a razo disto no foi seno a
prpria discrio de Natividade. Suspeitas e clculos iam ficando no corao
dela. Calou tudo e esperou.

Ao cabo, Flora cada vez gostava
mais de Natividade. Queria-lhe como se ela fosse sua me, duplamente me, uma
vez que no escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser que as duas
ndoles se ajustassem melhor que entre Flora e D. Cludia. A princpio, sentiu
no sei que inveja amiga, antes desejo, quando via que as formas da outra,
embora arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da escultura
antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o intrito de uma beleza,
que devia ser longa e fina, e de uma vida, que podia ser grande...

Flora conhecia a predio da
cabocla do Castelo, relativamente aos dois gmeos. A predio no era j
segredo para ningum. Santos falara dela em tempo, apenas ocultando a subida de
Natividade ao Castelo; emendou a verdade, dizendo que a cabocla  que viera a
Botafogo. O resto foi revelado em confiana, como ao finado Plcido, e ainda
depois de alguma luta. Trs ou quatro vezes investiu e recuou. Um dia, a lngua
deu sete voltas na boca, e o segredo saiu medroso e sussurrado, mas perdeu o
medo pelo gosto de mostrar que os rapazes seriam grandes. Enfim, o segredo foi
esquecendo. Mas Perptua, por isto ou aquilo, contou-o agora  moa Batista,
que a ouviu incrdula. Que podia saber a cabocla do futuro?

 Sabia, e a prova  que adivinhou
outras coisas, que no posso contar e eram verdadeiras. Voc no imagina como o
diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o corao.

 No acredito, D. Perptua. Pois
agora o futuro da gente... E grandes como?

 Isso no disse por mais que
Natividade lhe perguntasse; disse s que seriam grandes e subiriam muito.
Talvez venham a ser ministros de Estado.

Perptua parecia haver comprado os
olhos  cabocla. Enfiava-os pela amiga abaixo, at o corao, que alis no
batia com fora nem apressado, mas to regular como de costume. Entretanto, no
sendo impossvel que os dois rapazes chegassem aos altos deste mundo, Flora
deixou de objetar e aceitou a predio, sem outra palavra mais que um gesto, 
sabes, creio,  um gesto de boca, fazendo descair os cantos dela, levantando os
ombros levemente, e espalmando as mos, como se dissesse: Enfim, pode ser.

Perptua acrescentou que, mudado o
regime, era natural que Paulo chegasse primeiro  grandeza,  e aqui espetou
bem os olhos. Era um modo de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe com
a elevao de Paulo, pois bem podia ser que viesse a amar antes o destino que a
pessoa. No achou nada. Flora continuou a no se deixar ler. No lhe atribuas
isto a clculo, no era clculo. Seriamente, no pensava em nada acima de si.

CAPTULO LXXXV

TRS CONSTITUIES

 Voc cr deveras que venhamos a
ser grandes homens? perguntara Pedro a Paulo, antes da queda do imprio.

 No sei; voc pode vir a ser,
quando menos, primeiro ministro.

Depois de 15 de novembro, Paulo
retorquiu a pergunta, e Pedro respondeu como o irmo, emendando o resto:

 No sei; voc pode vir a ser
presidente da Repblica.

J l iam dois anos. Agora
pensavam mais em Flora que na subida. A boa moral pede que ponhamos a coisa
pblica acima das pessoas, mas os moos nisto se parecem com velhos e vares de
outra idade, que muita vez pensam mais em si que em todos. H excees, nobres algumas, outras nobilssimas. A histria guarda muitas delas, e os
poetas, picos e trgicos, esto cheios de casos e modelos de abnegao.

Praticamente, seria exigir muito
de Pedro e Paulo que cuidassem mais da Constituio de 24 de fevereiro que da
moa Batista. Pensavam em ambas,  verdade, e a primeira j dera lugar a alguma
troca de palavras acerbas. A Constituio, se fosse gente viva e estivesse ao
p deles, ouviria os ditos mais contrrios deste mundo, porque Pedro ia ao
ponto de a achar um poo de iniqidades, e Paulo a prpria Minerva nascida da
cabea de Jove. Falo por metfora para no descair do estilo. Em verdade, eles
empregavam palavras menos nobres e mais enfticas, e acabavam trocando as
primeiras entre si. Na rua, onde o encontro de manifestaes polticas era
comum, e as notcias  porta dos jornais freqentes, tudo era ocasio de
debate.

Quando, porm, a imagem de Flora
aparecia entre eles por imaginao, o debate esmorecia, mas as injrias
continuavam e at cresciam, sem confisso do novo motivo, que era ainda maior
que o primeiro. Efetivamente, eles iam chegando ao ponto em que dariam as duas
constituies, a republicana e a imperial, pelo amor exclusivo da moa, se
tanto fosse exigido. Cada um faria com ela a sua Constituio, melhor que outra
qualquer deste mundo.

CAPTULO LXXXVI

ANTES QUE ME ESQUEA

Uma coisa  preciso dizer antes
que me esquea. Sabes que os dois gmeos eram belos e continuavam parecidos;
por esse lado no supunham ter motivo de inveja entre si. Ao contrrio, um e
outro achavam em si qualquer coisa que acentuava, se no melhorava, as graas
comuns. No era verdade, mas no  a verdade que vence,  a convico.
Convence-te de uma idia, e morrers por ela, escreveu Aires por esse tempo no Memorial,
e acrescentou: 'nem  outra a grandeza dos sacrifcios, mas se a verdade
acerta com a convico, ento nasce o sublime, e atrs dele o til...' No
acabou ou no explicou esta frase.

CAPTULO LXXXVII

ENTRE AIRES E FLORA

Aquela citao do velho Aires faz-me
lembrar um ponto em que ele e a moa Flora divergiam ainda mais que na idade.
J contei que ela, antes da comisso do pai, defendia Pedro e Paulo, conforme
estes diziam mal um do outro. Naturalmente fazia agora a mesma coisa, mas a
mudana do regime trouxe ocasio de defender tambm monarquistas e
republicanos, segundo ouvia as opinies de Paulo ou de Pedro. Esprito de
conciliao ou de justia, aplacava a ira ou o desdm do interlocutor:
'No diga isso... So patriotas tambm... Convm desculpar algum
excesso...' Eram s frases, sem mpeto de paixo nem estmulo de
princpios; e o interlocutor conclua sempre:

 A senhora  boa.

Ora, o costume de Aires era o
oposto dessa contradio benigna. Hs de lembrar-te que ele usava sempre
concordar com o interlocutor, no por desdm da pessoa, mas para no dissentir
nem brigar. Tinha observado que as convices, quando contrariadas, descompem
o rosto  gente, e no queria ver a cara dos outros assim, nem dar  sua um
aspecto abominvel. Se lucrasse alguma coisa, v; mas, no lucrando nada,
preferia ficar em paz com Deus e os homens. Da o arranjo de gestos e frases
afirmativas que deixavam os partidos quietos, e mais quieto a si mesmo.

Um dia, como ele estivesse com
Flora, falou daquele costume dela, dizendo-lhe que parecia estudado. Flora
negou que o fosse; era inclinao natural defender os ausentes, que no podiam
responder por nada; demais, aplacava assim um dos gmeos com que falasse, e
depois o outro.

 Tambm concordo.

 E por que h de o senhor
concordar sempre? perguntou ela sorrindo.

 Posso concordar com a senhora,
porque  uma delcia ir com as suas opinies, e seria mau gosto rebat-las;
mas, em verdade, no h clculo. Com os mais, se concordo,  porque eles s
dizem o que eu penso.

 J o tenho achado em
contradio.

 Pode ser. A vida e o mundo no
so outra coisa. A senhora no saber isto bem, porque  moa e ingnua, mas
creia que a vantagem  toda sua. A ingenuidade  o melhor livro e a mocidade a
melhor escola. V desculpando esta minha pedanteria; alguma vez  um mal
necessrio.

 No se acuse, conselheiro. O
senhor sabe que eu no creio nada contra a sua palavra, nem contra a sua
pessoa; a prpria contradio que lhe acho  agradvel.

 Tambm concordo.

 Concorda com tudo.

 Olha aqui, Flora; d licena,
conselheiro?

Esqueceu-me dizer que esta
conversao era  porta de uma loja de fazendas e modas, Rua do Ouvidor. Aires
ia na direo do Largo de So Francisco de Paula e viu a me e a filha dentro,
sentadas, a escolher um tecido. Entrou, cumprimentou-as, e veio  porta com a
filha. O chamado de D. Cludia interrompeu a conversao por alguns instantes.
Aires ficou a olhar para a rua, onde subiam e desciam mulheres de todas as
classes, homens de todos os ofcios, sem contar as pessoas paradas de ambos os
lados e no centro. No havia burburinho grande, nem sossego puro, um
meio-termo.

Talvez algumas pessoas fossem
conhecidas de Aires e o cumprimentassem; mas este tinha a alma to metida em si
mesma que, se falou a uma ou duas, foi o mais. De quando em quando, voltava a
cabea para dentro, onde Flora e a me faziam a sua consulta. Ouvia as palavras
trocadas ainda agora. Sentia-se curioso de saber se finalmente a moa escolhia
a um dos gmeos, e qual destes. V tudo; tinha j pesar que no fosse algum,
posto no lhe importasse saber se Pedro ou Paulo. Quisera v-la feliz, se a
felicidade era o casamento, e feliz o marido, sem embargo da excluso; o
excludo seria consolado. Agora, se era por amor deles, se dela,  o que propriamente
se no pode dizer com verdade. Quando muito, para levantar a ponta do vu,
seria preciso entrar na alma dele, ainda mais fundo que ele mesmo. L se
descobriria acaso, entre as runas de meio celibato, uma flor descorada e
tardia de paternidade, ou, mais propriamente, de saudade dela...

Flora trouxe novamente a rosa
fresca e rubra da primeira hora. No falaram mais de contradio, mas da rua,
da gente e do dia. Nenhuma palavra acerca de Pedro ou Paulo.

CAPTULO LXXXVIII

NO, NO, NO

Eles, onde quer que estivessem
naquele momento, podiam falar ou no. A verdade  que, se nenhum consentia em
deixar a moa, tambm nenhum contava obt-la, por mais que a achassem
inclinada. Tinham j combinado que o rejeitado aceitaria a sorte, e deixaria o
campo ao vencedor. No chegando a vitria, no sabiam como resolver a batalha.
Esperar, seria o mais fcil, se a paixo no crescesse, mas a paixo crescia.

Talvez no fosse exatamente
paixo, se dermos a esta palavra o sentido de violncia; mas, se lhe
reconhecermos uma forte inclinao de amor, um amor adolescente ou pouco mais,
era o caso. Pedro e Paulo cederiam a mo da pequena, se houvessem de consultar
s a razo, e mais de uma vez estiveram a pique de o fazer; raro lampejo, que
para logo desaparecia. A ausncia era j insofrvel, a presena necessria. Se
no fora o que aconteceu e se contar por essas pginas adiante, haveria
matria para no acabar mais o livro; era s dizer que sim e que no, e o que
estes pensaram e sentiram, e o que ela sentiu e pensou, at que o editor
dissesse: basta! Seria um livro de moral e de verdade, mas a histria comeada
ficaria sem fim. No, no, no... Fora  continu-la e acab-la. Comecemos por
dizer o que os dois gmeos ajustaram entre si, poucos dias depois daquele sonho
ou delrio da moa Flora,  noite, no quarto.

CAPTULO LXXXIX

O DRAGO

Vejamos o que  que estes
ajustaram. Vinham de estar com Aires no teatro, uma noite, matando o tempo.
Conheceis este drago; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que
pode, ele esperneia, expira e renasce. Assim se fez naquela noite. No sei que
teatro foi, nem que pea, nem que gnero; fosse o que fosse, a questo era
matar o tempo, e os trs o deixaram estirado no cho.

Foram dali a um restaurante. Aires
disse-lhes que, antigamente, em rapaz, acabava a noite com amigos da mesma
idade. Era o tempo de Offenbach e da opereta. Contou anedotas, disse as peas,
descreveu as damas e os partidos, quase deu por si repetindo um trecho, msica
e palavras. Pedro e Paulo ouviam com ateno, mas no sentiam nada do que
espertava os ecos da alma do diplomata. Ao contrrio, tinham vontade de rir.
Que lhes importava a notcia de um velho caf da Rua Uruguaiana, trocado depois
em teatro, agora em nada, uma gente que viveu e brilhou, passou e acabou antes
que eles viessem ao mundo? O mundo comeou vinte anos antes daquela noite, e
no acabaria mais, como um viveiro de moos eternos que era.

Aires sorriu, porquanto ele tambm
assim cuidou, aos vinte e dois anos de idade, e ainda se lembrava do sorriso do
pai, j velho, quando lhe disse algo parecido com isso. Mais tarde, tendo
adquirido do tempo a noo idealista que ora possua, compreendeu que tal
drago era juntamente vivo e defunto, e tanto valia mat-lo como nutri-lo. No
obstante, as recordaes eram doces, e muitas delas viviam ainda frescas, como
se viessem da vspera.

A diferena da idade era grande,
no podia entrar em pormenores com eles. Ficou s em lembranas, e cuidou de
outra coisa. Pedro e Paulo, entretanto, receosos de que ele os adivinhasse e
compreendesse o desprezo que lhes inspiravam as saudades de tempos remotos e
estranhos, pediram-lhe informaes, e ele deu as que podia, sem intimidade.

Ao cabo, a conversao valeu mais
que este resumo, e a separao no custou pouco. Paulo ainda lhe pediu
Offenbach, Pedro uma descrio das paradas de 7 de setembro e 2 de dezembro;
mas o diplomata achou meio de saltar ao presente e particularmente a Flora, que
louvou como uma bela criatura. Os olhos de ambos concordaram que era belssima.
Tambm louvou as qualidades morais, a finura do esprito, tais dotes que Pedro
e Paulo reconheceram tambm, e da a conversao, e por fim o ajuste a que me
referi no comeo deste captulo e pede outro.

CAPTULO XC

O AJUSTE

 Quanto a mim, um de vocs gosta
dela, seno ambos, disse Aires.

Pedro mordeu os beios, Paulo
consultou o relgio; iam j na rua. Aires concluiu o que sabia, que sim, que
ambos, e no trepidou em diz-lo, acrescentando que a moa no era como a
Repblica, que um podia defender e o outro atacar; cumpria ganh-la ou perd-la
de vez. Que fariam eles, dada a escolha? Ou j estava feita a escolha, e o
preterido teimava em a torcer para si?

Nenhum falou logo, posto que ambos
sentissem necessidade de explicar alguma coisa. Tinham que a escolha no era
clara ou decisiva. Outrossim, que lhes cabia o direito de esperar a
preferncia, e fariam o diabo para alcan-la. Tais e outras idias vagavam
silenciosamente neles, sem sair c fora. A razo percebe-se, e devia ser mais
de uma,  primeiro, a matria da conversao,  depois, a gravidade do
interlocutor. Por mais que Aires abrisse as portas  franqueza dos rapazes,
estes eram rapazes e ele velho. Mas o assunto em si era to sedutor, o corao,
apesar de tudo, to indiscreto, que no houve remdio seno falar negando.

 No me neguem, interrompeu
Aires; a gente madura sabe as manhas da gente nova, e adivinha com facilidade o
que ela faz. Nem  preciso adivinhar; basta ver e ouvir. Vocs gostam dela.

Eles sorriam, mas j agora com tal
amargor e acanhamento que mostravam o desgosto da rivalidade, alis sabida
deles. Tal rivalidade era tambm sabida de outros, devia s-lo de Flora, e a
situao lhes parecia agora mais complicada e fechada que dantes.

Tinham chegado ao Largo da
Carioca, era uma hora da noite. Um vitria da Santos esperava ali os rapazes, a
conselho e por ordem da me, que buscava todas as ocasies e meios de os fazer
andar juntos e familiares. Teimava em emendar a natureza. Levava-os muita vez a
passeio, ao teatro, a visitas. Naquela noite, como soubesse que iam ao teatro,
mandou aprestar a vitria que os conduziu para a cidade, e ficou  espera
deles.

 Entre, conselheiro, disse Pedro,
o carro d para trs; eu vou no banquinho da frente.

Entraram e partiram.

 Bem, continuou Aires,  certo
que vocs gostam dela, e igualmente certo que ela ainda no escolheu entre os
dois. Provavelmente, no sabe que faa. Um terceiro resolveria a crise, porque
vocs se consolariam depressa; tambm eu me consolei em rapaz. No havendo terceiro, e no se podendo prolongar a situao, por que  que vocs no
combinam alguma coisa?

 Combinar qu? Perguntou Pedro
sorrindo.

 Qualquer coisa. Combinem um modo
de cortar este n grdio. Cada um que siga a sua vocao. Voc, Pedro, tentar
primeiro desat-lo; se ele no puder, Paulo, voc pegue da espada de Alexandre,
e d-lhe o golpe. Fica tudo feito e acabado. Ento o destino, que os espera,
com duas belas criaturas, vir traz-las pela mo a um e a outro, e tudo se
compe na Terra como no Cu.

Aires disse mais coisas antes de
se apear  porta da casa. Apeado, ainda lhes perguntou:

 Estamos de acordo?

Os dois responderam de cabea
afirmativamente, e, ficando ss, no disseram nada. Que fossem pensando, 
natural, e porventura o tempo lhes pareceu curto entre o Catete e Botafogo.
Chegaram a casa, subiram a escada do jardim, falaram da temperatura, que Pedro
achava deliciosa e Paulo abominvel, mas no disseram assim para no irritar um
ao outro. A esperana do ajuste  que os levava  moderao relativa e
passageira. Vivam os frutos pendentes do dia seguinte!

C estava o quarto  espera deles,
um brinco de arranjo e graa, de comodidade e repouso. Era a me que dava os
ltimos retoques todos os dias; ela cuidava das flores que seriam postas nos
vasinhos de porcelana, e ela mesma as ia tirar  noite e pr fora das janelas
para que eles no as respirassem dormindo. C estavam as velas ao p das duas
camas, metidas nos seus castiais de prata, um com o nome de Pedro, outro com o
de Paulo, gravados. Tapetinhos de suas mos, laos dados por ela nos
cortinados, finalmente o retrato dela e o do marido pendurados  parede, entre
as duas camas, naquele mesmo lugar em que estiveram os de Lus XVI e
Robespierre, comprados na Rua da Carioca.

Ao p de cada um dos castiais
acharam um bilhetinho de Natividade. Aqui est o que ela dizia: 'Algum de
vocs quer ir comigo  missa, amanh? Faz anos que seu av morreu, e Perptua
est adoentada.' Natividade esquecera de lhes falar antes, e, alis,
andava bem sem eles, mormente de carruagem; mas gostava de os ter consigo.

Pedro e Paulo riram do convite e
da forma, e um deles props que, para agradar  me, fossem ambos  missa. A
aceitao da proposta veio pronta; j no era harmonia, era uma espcie de
dilogo na mesma pessoa. O Cu parecia escrever o tratado de paz que ambos
teriam de assinar; ou, se preferes, a natureza corrigia as ndoles, e os dois
rixosos comeavam a ajustar o ser e o parecer. Tambm no juro isto, digo o que
se pode crer s pelo aspecto das coisas.

 Vamos  missa, repetiram.

Seguiu-se um grande silncio. Cada
um ruminava o ajuste e o modo de o propor. Enfim, de cama a cama, disseram o
que lhes parecia melhor, propuseram, discutiram, emendaram e concluram sem
escritura de tabelio, apenas por aceitao de palavra. Poucas clusulas.
Confessando que no podiam assegurar a escolha de Flora, concordaram em esperar
por ela durante um prazo curto; trs meses. Dada a escolha, o rejeitado
obrigava-se a no tentar mais nada. Como tivessem a certeza final da escolha, o
acordo era fcil; cada um no faria mais que excluir o outro. No obstante, se
ao fim do prazo, nenhuma escolha houvesse, cumpria adotar uma clusula ltima.
A primeira que acudiu foi deixarem ambos o campo, mas no os seduziu.
Lembrou-lhes recorrer  sorte, e aquele que fosse designado por ela, deixaria o
campo ao rival. Assim passou uma hora de conversao, aps a qual, cuidaram de
dormir.

CAPTULO XCI

NEM S A VERDADE SE
DEVE S MES

s nove horas da manh seguinte,
Natividade estava pronta para ir  missa que mandava dizer na Matriz da Glria;
nenhum dos filhos se lhe apresentou.

 Parece que dormem.

E duas, trs, quatro, cinco vezes,
foi at  porta do quarto a ver se ouvia rumor, como resposta ao bilhete que
deixara. Nada. Concluiu que teriam entrado tarde. S no atinou que dormissem
sobre o ajuste, nem que ajuste era. Uma vez que o fizessem em cama fofa, tudo
ia bem. Enfim, acabou de calar as luvas, desceu, entrou no carro e foi para a
igreja.

A missa era aniversria, como
dizia o bilhete. Uso velho; o pai tinha a sua missa, a me outra, os irmos e
parentes outras. No lhe esqueciam datas obiturias, como no lhe esqueciam
natalcias, quaisquer que fossem, amigas ou parentas; trazia-as todas de cor.
Doce memria! H pessoas a que no ajudas, e chegam a brigar consigo e com
outros por abandono teu. Felizes os que tu proteges; esses sabem o que  24 de
maro, 10 de agosto, 2 de abril, 7 e 31 de outubro, 10 de novembro, o ano todo,
suas tristezas e alegrias particulares.

Voltando a casa, viu Natividade os
dois filhos no jardim,  espera dela. Eles correram a abrir-lhe a portinhola do
carro, e depois de a apearem e lhe beijarem a mo, explicaram a falta. Tinha
resolvido ir ambos, mas o sono...

 O sono e a preguia, concluiu a
me rindo.

 Foi s o sono, disse Pedro.

 Acordamos agora mesmo, acabou
Paulo.

Disputaram dar-lhe o brao;
Natividade os satisfez dando um brao a cada um. Em casa, ao mudar de roupa,
Natividade refletiu que, se Flora lhes tivesse feito algum pedido, eles
acordariam cedo, por mais tarde que se deitassem; a memria serviria de despertador.
Passou-lhe uma sombra rpida, mas depressa se reconciliou com a diferena.
Assim que, no foi por cime, mas para os trazer a outras sedues e separ-los
da guerra ante a bela Flora, que a me teimou em levar os filhos para
Petrpolis. Subiriam na primeira semana de janeiro. A estao seria excelente;
anunciou festas, citou nomes, notou-lhe que Petrpolis era a cidade da paz. O
governo pode mudar c embaixo e nas provncias...

 Que provncias, mame? atalhou
Paulo.

Natividade sorriu e emendou:

 Nos Estados. Vai desculpando os
descuidos de tua me. Bem sei que so Estados; no so como as provncias
antigas, no esperam que o presidente lhes v aqui da Corte...

 Que Corte, baronesa?

Agora os dois riram, me e filho.
Passado o riso, Natividade continuou:

 Petrpolis  a cidade da paz; ,
como dizia outro dia o Conselheiro Aires,  a cidade neutra,  a cidade das
naes. Se a capital do Estado fosse ali, no haveria deposio de governo.
Petrpolis,  vejam vocs que o nome, apesar da origem, ficou e ficar,   de
todos. A estao dizem que vai ser encantadora...

 Eu no sei se posso ir j, disse
Paulo.

 Nem eu, acudiu Pedro.

Ainda uma vez estavam de acordo,
mas aqui o acordo trazia provavelmente o divrcio, refletiu a me, e o prazer
que lhe deram aquelas duas palavras morreu depressa. Perguntou-lhes que razo
tinham para ficar e at quando. Se estivessem estabelecidos com o seu
consultrio mdico e a sua banca de advogado, era bem; mas, se nenhum deles
comeara ainda a carreira, que fariam c embaixo, quando ela e o marido...

 Justamente; eu tenho que fazer
uns estudos de clnica na Santa Casa, respondeu Pedro.

Paulo explicou-se. No ia praticar
a advocacia, mas precisava de consultar certos documentos do sculo XVIII na
Biblioteca Nacional; ia escrever uma histria das terras possudas.

Nada era verdade, mas nem s a
verdade se deve dizer s mes. Natividade ponderou que eles podiam fazer tudo
entre as duas barcas de Petrpolis; desciam, almoavam, trabalhavam, e s
quatro horas subiriam, como a demais gente. Em cima achariam visitas, msica,
bailes, mil coisas belas, sem contar as manhs, a temperatura e os domingos.
Eles defenderam o estudo, como sendo melhor por muitas horas seguidas.

Natividade no teimou. Mais
depressa ficaria esperando que os filhos acabassem os documentos da Biblioteca
e a clnica da Santa Casa. Esta idia f-la atentar para a necessidade de ver
estabelecidos o jovem mdico e o jovem advogado. Trabalhariam com outros
profissionais de reputao e iriam adiante e acima. Talvez a carreira
cientfica lhes desse a grandeza anunciada pela cabocla do Castelo, e no a
poltica ou outra. Em tudo se podia resplandecer e subir. Aqui fez a crtica de
si mesma, quando imaginou que Batista abriria a carreira poltica de algum
deles, sem advertir que o pai de Flora mal continuaria a prpria carreira,
alis obscura. Mas a idia do mando tornava a ocupar a cabea da me, e cheios
dela os olhos fitavam ora Pedro, ora Paulo.

Chegaram a acordo. Eles subiriam
aos sbados e desceriam s segundas; o mesmo por ocasio de dias santos e
festas de gala. Natividade contava com o costume e as atraes.

Na barca e em Petrpolis era
objeto de conversao a diferena entre os filhos, que s iam l uma vez por
semana, e o pai, que trazia tantos negcios s costas, e subia todas as tardes.
Que fariam eles c embaixo, quando alguns olhos podiam atra-los e agarr-los
l em cima? Natividade defendia os gmeos, dizendo que um ia  Santa Casa e
outro  Biblioteca Nacional, e estudavam muito, s noites. A explicao era
aceitvel, mas alm de fazer perder um assunto aos bonitos dentes do vero,
podia ser inveno dos rapazes; naturalmente, iriam s moas.

A verdade  que eles faziam rumor
em Petrpolis, durante as poucas horas que l passavam. Alm do mais, tinham a
semelhana e a graa. As mes diziam bonitas coisas  me deles, e indagavam da
razo verdadeira que os prendia  capital, no assim como eu digo, nu e cru,
mas com arte fina e insidiosa, arte perdida, porque a me insistia na
Biblioteca e na Santa Casa. Deste jeito, a mentira, j servida em primeira mo,
era servida em segunda, e nem por isso melhor aceita.

CAPTULO XCII

SEGREDO ACORDADO

Enfim, que segredo h que se no
descubra? Sagacidade, boa vontade, curiosidade, chama-lhe o que quiseres, h
uma fora que deita c para fora tudo o que as pessoas cuidam de esconder. Os
prprios segredos cansam de calar,  calar ou dormir; fiquemos com este outro
verbo, que serve melhor  imagem. Cansam, e ajudam a seu modo aquilo que
imputamos  indiscrio alheia.

Quando eles abrem os olhos,
faz-lhes mal a escurido. Um raio de sol basta. Ento pedem aos deuses (porque
os segredos so pagos) um quase nada de crepsculo, aurora ou tarde, posto que
a aurora prometa dia, enquanto a tarde cai outra vez na noite, mas tarde que
seja, tudo  respirar claridade. Que os segredos, amiga minha, tambm so
gente; nascem, vivem e morrem. Agora o que sucede, quando um olhar de sol penetra
na solido deles,  que dificilmente sai mais, e geralmente cresce, rasga,
alaga, e os traz pela orelha c para fora. Vexados da grande luz, eles a
princpio andam de ouvido em ouvido, cochichados, alguma vez escritos em
bilhetes, ainda que to vagamente e sem nomes, que mal se adivinhar quais
sejam.  o perodo da infncia, que passa depressa; a mocidade pula por cima da
adolescncia, e eles aparecem fortes e derramados, sabidos como gazetas. Enfim,
se a velhice chega, e eles no se vexam dos cabelos brancos, tomam conta do
mundo, e acaso conseguem, no digo esquecer, mas aborrecer; entram na famlia
do prprio sol, que quando nasce  para todos, segundo dizia uma tabuleta da
minha infncia.

Tabuletas da minha infncia, ai,
tabuletas! Quisera acabar por elas este captulo, mas o assunto no teria
nobreza nem interesse, e ainda uma vez interromperamos a nossa histria.
Fiquemos no segredo divulgado;  quanto basta. Uma veranista elegante no
dissimulou o seu espanto ao saber que os dois irmos combinavam num ponto que
faria romper os maiores amigos deste mundo. Um secretrio de legao insinuou
que podia ser brincadeira dos dois.

 Ou dos trs, acrescentou outra
veranista.

Iam de passeio  Quitandinha, a
cavalo. Aires acompanhava-os, e no dizia nada. Quando lhe perguntaram se Flora
era bonita, respondeu que sim, e falou da temperatura. A primeira veranista
perguntou-lhe se era capaz de suportar aquela situao. Aires respirou, como
quem vem de longe, e declarou que aos ps de um padre seria obrigado a mentir,
tais eram os seus pecados; mas ali, na estrada, ao ar livre, entre senhoras,
confessou que matara mais de um rival. Que se lembrasse trazia sete mortes s
costas, com vrias armas. As senhoras riam; ele falava soturno. S uma vez
escapou de morrer primeiro, e inventou uma anedota napolitana. Fez a apologia
do punhal. Um que tivera, h muitos anos, o melhor ao do mundo, foi obrigado a
d-lo de presente a um bandido, seu amigo, quando lhe provou que completara na
vspera o seu vigsimo nono assassinato.

 Aqui est para o trigsimo,
disse-lhe entregando a arma.

Poucos dias depois soube que o
bandido, com aquele punhal, matara o marido de uma senhora, e depois a senhora,
a quem amava sem ventura.

 Deixei-o com trinta e um crimes
de primeira ordem.

As damas continuavam a rir; ele
conseguiu assim desviar a conversao de Flora e seus namorados.

CAPTULO XCIII

NO ATA NEM DESATA

Enquanto indagavam dela em
Petrpolis, a situao moral de Flora era a mesma,  o mesmo conflito de
afinidades, o mesmo equilbrio de preferncias. Cessado o conflito, roto o
equilbrio, a soluo viria de pronto, e, por mais que doesse a um dos
namorados, venceria o outro, a menos que interviesse o punhal da anedota de
Aires.

Assim passaram algumas semanas
desde a subida de Natividade. Quando Aires vinha ao Rio de Janeiro, no deixava
de ir v-la a So Clemente, onde a achava qual era dantes, salvo um pouso de
silncio em que a viu metida uma vez. No dia seguinte recebeu uma carta de
Flora, pedindo-lhe desculpa da desateno, se a houve, e mandando-lhe saudades.
'Mame pede que a recomende tambm ao senhor e  famlia da
baronesa'. Esta recomendao exprimia o consentimento obtido da me para
que lhe escrevesse a carta. Quando ele tornou ao Rio, correu a So Clemente e
Flora pagou-lhe com alegria grande o silncio daquela outra manh. Todavia, no
era espontnea nem constante; tinha seus cochilos de melancolia. Aires voltou
ainda algumas vezes na mesma semana. Flora aparecia-lhe com a alegria
costumada, e, para o fim, a mesma alterao dos ltimos dias.

Talvez a causa daquelas sncopes
da conversao fosse a viagem que o esprito da moa fazia  casa da gente
Santos. Uma das vezes, o esprito voltou para dizer estas palavras ao corao:
'Quem s tu, que no atas nem desatas? Melhor  que os deixes de vez. No
ser difcil a ao, porque a lembrana de um acabar por destruir a de outro,
e ambas se iro perder com o vento, que arrasta as folhas velhas e novas, alm
das partculas de coisas, to leves e pequenas, que escapam ao olho humano.
Anda, esquece-os; se os no podes esquecer, faze por no os ver mais; o tempo e
a distncia faro o resto'.

Tudo estava acabado. Era s
escrever no corao as palavras do esprito, para que lhe servissem de
lembrana. Flora escreveu-as, com a mo trmula e a vista turva; logo que
acabou, viu que as palavras no combinavam, as letras confundiam-se, depois iam
morrendo, no todas, mas salteadamente, at que o msculo as lanou de si. No
valor e no mpeto podia comparar o corao ao gmeo Paulo; o esprito, pela
arte e sutileza, seria o gmeo Pedro. Foi o que ela achou no fim de algum
tempo, e com isso explicou o inexplicvel.

Apesar de tudo, no acabava de
entender a situao, e resolveu acabar com ela ou consigo. Todo esse dia foi
inquieto e complicado. Flora pensou em ir ao teatro para que os gmeos no a
achassem  noite. Iria cedo, antes da hora da visita. A me mandou comprar o
camarote, e o pai aprovou a diverso, quando veio jantar, mas a filha acabou
com dor de cabea, e o camarote ficou perdido.

 Vou mand-lo aos jovens Santos,
insinuou Batista.

D. Cludia ops-se e guardou o
camarote. A razo era de me; posto lhe tardasse a escolha e o casamento, ela
queria v-los ali consigo, falando, rindo, debatendo que fosse, com os olhos
pendentes da filha. Batista no entendeu logo nem depois; mas para no
desagradar  esposa, deixou de obsequiar os rapazes. Uma ocasio to boa! No
era muito para eles que possuam com que despender, e despendiam; o obsquio
estava na lembrana, e tambm na cartinha que lhes escreveria, mandando o
camarote. Chegou a redigi-la de cabea, apesar de j intil. A mulher, ao v-lo
calado e srio, cuidou que fosse zanga e quis fazer as pazes; o marido
arredou-a brandamente com a mo. Redigia a cartinha, punha no texto um gracejo
sisudo, dobrava o papel e lanava-lhe este sobrescrito gmeo: 'Aos jovens
apstolos Pedro e Paulo'. O trabalho intelectual tornou mais dura a
oposio de D. Cludia. Uma cartinha to bonita!

CAPTULO XCIV

GESTOS OPOSTOS

Como pode um s teto cobrir to
diversos pensamentos? Assim  tambm este cu claro ou brusco,  outro teto
vastssimo que os cobre com o mesmo zelo da galinha aos seus pintos... Nem
esquea o prprio crnio do homem, que os cobre igualmente, no s diversos,
seno opostos.

Flora, no quarto, no cuidava
ento de bilhetes nem camarotes; tambm no acudia  dor de cabea, que no
tinha. Se falou nela foi por ser uma razo prxima e aceitvel, breve ou longa,
conforme a necessidade da ocasio. No suponhas que est rezando, embora tenha
ali um oratrio e um crucifixo. No viria pedir a Jesus que lhe livrasse a alma
daquela inclinao desencontrada. Posta  beira da cama, os olhos no cho,
pensava naturalmente em alguma coisa grave, se no era nada, que tambm agarra
os olhos e o pensamento de uma pessoa. Mordeu os beios sem raiva; meteu a
cabea entre as mos, como se quisesse concertar os cabelos, mas os cabelos
estavam e ficavam como dantes.

Quando se levantou era totalmente
noite, e acendeu uma vela. No queria gs. Queria uma claridade branda que
desse pouca vida ao quarto e aos seus mveis, que deixasse algumas partes na
meia escuridade. O espelho, se fosse a ele, no lhe repetiria a beleza de todos
os dias, com a vela posta em cima de uma papeleira antiga, a distncia.
Mostrar-lhe-ia a nota de palidez e de melancolia,  verdade, mas a nossa
amiguinha no se sabia plida, nem se sentia melanclica. Tinha na tristeza
desvairada daquela ocasio uma pontinha de abatimento.

Como tudo isso se combinava, no
sei, nem ela mesma. Ao contrrio, Flora parecia, s vezes, tomada de um
espanto, outras de uma inquietao vaga, e, se buscava o repouso de uma cadeira
de balano, era para o deixar logo. Ouviu bater oito horas. Da a pouco,
entrariam provavelmente Pedro e Paulo. Teve lembrana de ir dizer  me que a
no mandasse chamar; estava de cama. Esta idia no durou o que me custa
escrev-la, e alis j l vai na outra linha. Recuou a tempo.

  um despropsito, disse
consigo; basta no aparecer. Mame dir que estou adoentada, tanto que perdemos
o teatro, e, se vier aqui, digo-lhe que no posso aparecer...

As ltimas palavras saram-lhe de
viva voz, para maior firmeza da resoluo. Projetou reclinar-se j na cama;
depois achou melhor faz-lo quando ouvisse o passo da me no corredor. Todas
essas alternativas podiam vir de si mesmas; entretanto, no  impossvel que
fosse tambm um modo de sacudir quaisquer lembranas aborrecveis. A moa temia
ir atrs delas.

CAPTULO XCV

O TERCEIRO

Temendo ir atrs delas, que havia
de fazer Flora? Abriu uma das janelas do quarto, que dava para a rua,
encostou-se  grade e enfiou os olhos para baixo e para cima. Viu a noite sem
estrelas, pouca gente que passava, calada ou conversando, algumas salas
abertas, com luzes, uma com piano. No viu certa figura de homem na calada
oposta, parada, olhando para a casa de Batista. Nem a viu, nem lhe importaria
saber quem fosse. A figura  que to depressa a viu como estremeceu e no
despegou mais os olhos dela, nem os ps do cho.

Lembras-te daquela veranista de
Petrpolis que atribuiu um terceiro namorado  nossa amiguinha? 'Um dos
trs', disse ela. Pois aqui est o terceiro namorado e pode ser que ainda
aparea outro. Este mundo  dos namorados. Tudo se pode dispensar nele; dia
vir em que se dispensem at os governos, a anarquia se organizar de si mesma,
como nos primeiros dias do paraso. Quanto  comida, vir de Boston ou de New
York um processo para que a gente se nutra com a simples respirao do ar. Os
namorados  que sero perptuos.

Aquele era oficial de secretaria.
Geralmente os empregados de secretaria casam cedo. Gouveia era solteiro, andava
s moas. Um domingo,  missa, reparou na filha do ex-presidente, e saiu da
igreja to apaixonado que no quis outra promoo. Tinha gostado de muitas,
acompanhou algumas, esta foi a primeira que o feriu deveras. Pensava nela dia e
noite. A Rua de So Clemente era o caminho que o levava e trazia da repartio.
Se a via, olhava muito para ela, detinha-se a distncia,  porta de uma casa,
ou ento fingia acompanhar com os olhos um carro que passava, e tirava-os do
carro para a moa.

Quando amanuense, fizera versos;
nomeado oficial, perdeu o costume, mas um dos efeitos da paixo foi
restituir-lho. Consigo, em casa da me, gastava papel e tinta a metrificar as
esperanas. Os versos escorriam da pena, a rima com eles, e as estrofes vinham
seguindo direitas e alinhadas, como companhias de batalho; o ttulo seria o
coronel, a epgrafe a msica, uma vez que regulava a marcha dos pensamentos.
Bastaria essa fora  conquista? Gouveia imprimiu alguns em jornais, com esta
dedicatria: A algum. Nem assim a praa se rendia.

Uma vez deu-lhe na cabea mandar
uma declarao de amor. Paixo concebe despropsitos. Escreveu duas cartas, sem
o mesmo estilo, antes contrrio. A primeira era de poeta; dava-lhe tu,
como nos versos, adjetivava muito, chamava-lhe deusa por aluso ao nome de
Flora, e citava Musset e Casimiro de Abreu. A segunda carta foi um desforo do
oficial sobre o amanuense. Saiu-lhe ao estilo das informaes e dos ofcios,
grave, respeitoso, com Excelncias. Comparando as duas cartas, no acabou de escolher
nenhuma. No foi s o texto diverso e contrrio, foi principalmente a falta de
autorizao que o levou a rasgar as cartas. Flora no o conhecia; quando menos,
fugia de o conhecer. Os olhos dela, se encontravam os dele, retiravam-se logo
indiferentes. Uma s vez cuidou que traziam a inteno de perdoar. Que esse
breve raio de luz lhe desabotoasse as flores da esperana (comeo a falar com a
primeira carta) era possvel e at certo; to certo que lhe fez perder o ponto
na repartio. Felizmente, era timo empregado; o diretor ampliou o quarto de
hora de tolerncia, e atendeu  dor de cabea, causa de triste insnia.

 Dormi sobre a madrugada, acabou
o oficial.

 Assine.

Seno quando, morre-lhe o padrinho
ao Gouveia, e em testamento deixou ao afilhado trs contos de ris. Qualquer
acharia nisso um benefcio, Gouveia achou dois; o legado e a ocasio de travar
relaes com o pai de Flora. Correu a pedir-lhe que aceitasse a procurao de
legatrio, ajustando logo os honorrios e as despesas. Com pouco, foi
procur-lo  casa, e para que o advogado desse a notcia do constituinte 
famlia, empregou muitos ditos sutis e graciosos, contou anedotas do padrinho,
exps conceitos filosficos e um programa de marido. Descreveu tambm a
situao administrativa, a promoo iminente, os louvores recebidos, comisses
e gratificaes, tudo o que o distinguia de outros companheiros. De resto,
ningum na repartio lhe queria mal. Aqueles mesmos que se creram
prejudicados, acabavam confessam do que era justa a preferncia dada ao
Gouveia. No seria tudo exato; ele o cria assim, ao menos, e, se no cria tudo,
no desmentiu nada. Perdeu tempo e trabalho. Flora no soube da conversao.

Nem soube da conversao, nem deu
agora pelo vulto, como l disse. Tambm disse que a noite era escura.
Acrescento que comeou a pingar fino e a ventar fresco. Gouveia trazia
guarda-chuva e ia a abri-lo, mas recuou. O que se passou na alma dele foi uma
luta igual  dos dois textos da carta. O oficial queria abrigar-se da chuva, o
amanuense queria apanh-la, isto , o poeta renascia contra as intempries, sem
medo ao mal, prestes a morrer por sua dama, como nos tempos da cavalaria.
Guarda-chuva era ridculo; poupar-se  constipao desmentia a adorao. Tal
foi a luta e o desfecho; venceu o amanuense, enquanto a chuva ia pingando
grosso, e outra gente passava abrigada e depressa. Flora entrou e fechou a
janela. O amanuense esperou ainda algum tempo, at que o oficial abriu o
guarda-chuva e fez como os outros. Em casa achou a triste consolao da me.

CAPTULO XCVI

RETRAIMENTO

Aquela noite acabou sem incidente.
Os gmeos vieram, Flora no apareceu, e no dia seguinte duas cartinhas
perguntavam a D. Cludia como passara a filha. A me respondeu que bem. Nem por
isso Flora os recebeu com a alegria do costume. Tinha alguma coisa que a fazia
falar pouco. Pediram-lhe msica, tocou; foi bom, porque era um meio de se meter
consigo. No respondeu aos apertos de mo, como eles supunham que fazia at h
pouco. Assim foi essa noite, assim foram as outras. Ora um, ora outro chegava
primeiro, imaginando que a presena do rival  que tolhia a moa; mas a
precedncia no valia nada.

CAPTULO XCVII

UM CRISTO PARTICULAR

Tudo isso lhe custava tanto, que
ela acabou pedindo ao seu Cristo um lugar de governador para o pai,  ou
qualquer comisso fora daqui. Jesus Cristo no distribui os governos deste
mundo. O povo  que os entrega a quem merece, por meio de cdulas fechadas,
metidas dentro de uma urna de madeira, contadas, abertas, lidas, somadas e
multiplicadas. A comisso podia vir, isso sim; a questo era saber se Jesus
Cristo acudir a todos os que lhe pedem a mesma coisa. Os comissrios seriam
infinitamente mais que as comisses. Esta objeo foi logo expelida do esprito
de Flora, porque ela pedia ao seu Cristo, um de marfim velho, deixa da av, um
Cristo que nunca lhe negou nada, e a quem as outras pessoas no vinham
importunar com splicas. A prpria me tinha o seu particular, confidente de
ambies, consolo de desenganos; no recorria ao da filha. Tal era a f ingnua
da moa.

Certamente, j lhe havia pedido
que a livrasse daquela complicao de sentimentos, que no acabavam de ceder um
ao outro, daquela hesitao cansativa, daquele empuxar para ambos os lados. No
foi ouvida. A causa seria talvez por no haver dado ao pedido a forma clara que
aqui lhe ponho, com escndalo do leitor. Efetivamente, no era fcil pedir
assim por palavras seguidas, faladas ou s pensadas; Flora no formulou a
splica. Ps os olhos na imagem e esqueceu-se de si, para que a imagem lesse
dentro dela o seu desejo. Era demais; requerer o favor do Cu e obrig-lo a
adivinhar o que era... Assim cuidou Flora, e resolveu emendar a mo. No chegou
l; no ousou dizer a Jesus o que no dizia a si mesma. Pensava nos dois, sem
confessar a nenhum. Sentia a contradio, sem ousar encar-la por muito tempo.

CAPTULO XCVIII

O MDICO AIRES

Um dia pareceu  me que a filha
andava nervosa. Interrogou-a e apenas descobriu que Flora padecia de vertigens
e esquecimentos. Foi justamente um dia em que Aires l apareceu de visita, com recados de Natividade. A me falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus sustos.
Pediu-lhe que a interrogasse tambm. Aires fez de mdico, e, quando a moa
apareceu e a me os deixou na sala, cuidou de a interrogar cautelosamente.

Vo propsito, porque ela mesma
iniciou a conversao, queixando-se de dor de cabea. Aires observou que dor de
cabea era molstia de moa bonita, e, tendo confessado que este dito era
banal, descobriu-lhe o motivo. No queria perder a ocasio de lhe dizer o que
toda a gente sabia e dizia, no s aqui, como em Petrpolis.

 Por que no vai a Petrpolis?
concluiu.

 Espero fazer outra viagem mais
longa, muito longa...

 Para o outro mundo, aposto?

 Acertou.

 J tem bilhete de passagem?

 Comprarei no dia do embarque.

 Talvez no ache. H grande
concorrncia para aquelas paragens; melhor  comprar antes, e, se quer, eu me
encarrego disso; comprarei outro para mim, e iremos juntos. A travessia, quando
no h conhecidos, deve ser fastidiosa; s vezes, os prprios conhecidos
aborrecem, como sucede neste mundo. As saudades da vida  que so agradveis. A
gente de bordo  vulgar, mas o comandante impe confiana. No abre a boca, d
as suas ordens por gestos, e no consta que haja naufragado.

 O senhor est caoando comigo;
eu creio at que estou com febre.

 Deixe ver.

Flora estendeu-lhe o pulso; ele,
com ar profundo:

 Est; febre de quarenta e sete
graus, a mo est ardendo, mas isto mesmo prova que no  nada, porque aquelas
viagens fazem-se com as mos frias. H de ser constipao, fale a sua me.

 Mame no cura.

 Pode curar, h remdios
caseiros; em todo caso, pea-lhe, e ela pode mandar chamar um mdico.

 Mdico d tisanas, e eu no gosto
de tisanas.

 Nem eu, mas tolero-as. Por que
no experimenta a homeopatia, que no tem gosto, como a alopatia?

 Qual  a que lhe parece melhor?

 A melhor? S Deus  grande.

Flora sorriu, de um sorriso
plido, e o conselheiro percebeu algo que no era tristeza de passagem ou de
criana. Novamente lhe falou de Petrpolis, mas no insistiu. Petrpolis era a
agravao do momento atual.

 Petrpolis tem o mal das chuvas,
continuou. Eu, se fosse a senhora, saa desta casa e desta rua; v para outro
bairro, casa amiga, com sua me ou sem ela...

 Para onde? perguntou Flora
ansiosa.

E ficou a olhar, esperando. No
tinha casa amiga, ou no se lembrava, e queria que ele mesmo escolhesse alguma,
onde quer que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que ele leu nos olhos
parados.  ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento de saber tudo o
que lhes diz um rosto calado, e at o contrrio. Aires fora diplomata
excelente, apesar da aventura de Caracas, se no  que essa mesma lhe aguou a
vocao de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia est nestes dois verbos
parentes.

CAPTULO XCIX

A TTULO DE ARES NOVOS

 Vou arranjar-lhe uma casa boa,
disse ele,  despedida.

Desde que estava em Petrpolis,
Aires no ia jantar a Andara, com a irm, s quintas-feiras, segundo ajustara
e consta do captulo XXXII. Agora foi l, e cinco dias depois Flora
transferia-se para a casa dela, a ttulo de ares novos. D. Rita no consentiu
que D. Cludia lhe levasse a filha, ela mesma a foi buscar a So Clemente, e
Aires acompanhou as trs.

A mocidade de Flora na casa de D.
Rita foi como uma rosa nascida ao p do paredo velho. O paredo remoou. A
simples flor, ainda que plida, alegrou o barro gretado e as pedras despidas.
D. Rita vivia encantada; Flora pagava o agasalho da dona da casa com tanta
ingenuidade e graa, que esta acabou por lhe dizer que a roubaria  me e ao
pai, e foi ainda ocasio de riso para as duas.

Voc me deu um lindo presente com
esta moa, escrevia D. Rita ao irmo; foi uma alma nova, e veio em boa ocasio,
porque a minha anda j caduca.  muito docilzinha, conversa, toca e desenha que
faz gosto, tem aqui tirado riscos de vrias coisas, e eu saio com ela para lhe
mostrar vistas apreciveis. s vezes, apresenta uma cara triste, olha
vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se so saudades de So Clemente, ela
sorri e faz um gesto de indiferena No lhe falo dos nervos, para a afligir,
mas creio que vai melhor...

Flora tambm escreveu ao
Conselheiro Aires, e as duas cartas chegaram  mesma hora a Petrpolis. A de
Flora era um agradecimento grande e cordial, mal entremeado de alguma palavra
saudosa; confirmava assim a carta da outra, posto no a houvesse lido. Aires
comparou-as, lendo duas vezes a da moa para ver se ela escondia mais do que
transparecia do papel. Em suma, confiava no remdio.

 No os vendo, esquece-os, pensou
ele; e se na vizinhana houver algum que pensa em gostar dela,  possvel que
acabe casando.

Respondeu a ambas, na mesma noite,
dizendo-lhes que na quinta-feira iria almoar com elas. A D. Cludia escreveu
mandando-lhe a carta da irm, e foi passar a noite em casa de Natividade, a
quem deu a ler as cinco cartas. Natividade aprovou tudo. Notava s que os
filhos no lhe escreviam, e deviam estar desesperados.

 A Santa Casa cura, e a
Biblioteca Nacional tambm, retorquiu Aires.

Na quinta-feira, Aires desceu e
foi almoar a Andara. Achou-as como as tinha lido nas cartas. Interrogou-as
separadamente para ouvir por boca as confisses do papel; eram as mesmas. D.
Rita parecia ainda mais encantada. Talvez a causa recente fosse a confidncia
que fez a moa, na vspera. Como falassem de cabelos, D. Rita referiu o que
tambm consta do cap. XXXII, isto , que cortara os seus para os meter no
caixo do marido, quando o levaram a enterrar. Flora no a deixou acabar;
pegou-lhe das mos e apertou-as muito.

 Nenhuma outra viva faria isto,
disse ela.

Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas
mos, p-las sobre os seus ombros, e concluiu o gesto por um abrao. Todas as
pessoas louvaram-lhe a abnegao do ato; esta era a primeira que a achou nica.
E da outro abrao longo, mais longo...

CAPTULO C

DUAS CABEAS

To longo foi o abrao que tomou o
resto ao captulo. Este comea sem ele nem outro. O mesmo aperto de mo de
Aires e Flora, se foi demorado, tambm acabou. O almoo fez gastar algum tempo
mais que de costume, porque Aires, alm de conversador emrito, no se fartava
de ouvir as duas, principalmente a moa. Achava-lhe um toque de languidez,
abatimento ou coisa prxima, que no encontro no meu vocabulrio.

Flora mostrou-lhe os desenhos que
fizera, paisagens, figuras, um pedao da estrada da Tijuca, um chafariz antigo,
um Princpio de casa. Era uma dessas casas, que algum comeou muitos
anos antes, e ningum acabou, ficando s duas ou trs paredes, runa sem
histria. Havia ainda outros desenhos, uma revoada de pssaros, um vaso 
janela. Aires ia folheando, cheio de curiosidade e pacincia; a inteno da obra
supria a perfeio, e a fidelidade devia ser aproximada. Enfim, a moa atou os
cordes  pasta. Aires, parecendo-lhe que ficara um desenho ltimo e escondido,
pediu que lho mostrasse.

  um esboo, no vale a pena.

 Tudo vale a pena; quero acompanhar
as tentativas da artista; deixe ver.

 No vale a pena...

Aires insistiu; ela no pde
recusar mais tempo, abriu a pasta, e tirou um pedao de papel grosso em que
estavam desenhadas duas cabeas juntas e iguais. No teriam a perfeio
desejada por ela; no obstante, dispensavam os nomes. Aires considerou a obra,
durante alguns minutos, e duas ou trs vezes levantou os olhos para a autora.
Flora j os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a crtica, mas
no ouviu nada. Aires acabou de observar as duas cabeas, e pousou o desenho
entre os papis.

 No lhe dizia que era um esboo?
perguntou Flora, a ver se lhe arrancava uma palavra.

Mas o ex-ministro preferiu no
dizer nada. Em vez de achar quase extinta a influncia dos gmeos, vinha dar
com ela feita consolao da ausncia, to viva que bastava a memria, sem
presena dos modelos. As duas cabeas estavam ligadas por um veculo escondido.
Flora, vendo continuar o silncio de Aires, compreendeu acaso parte do que lhe
passava no esprito. Com um gesto pronto, pegou do desenho e deu-lho. No lhe
disse nada, menos ainda escreveu qualquer palavra. Qualquer que fosse, seria
indiscreta. Demais, era o nico desenho a que ela no ps assinatura. Deu-lho
como se fora um penhor de arrependimento. Em seguida, atou novamente as fitas
da pasta, enquanto Aires rasgava calado o desenho e metia os pedaos no bolso.
Flora ficou por um instante parada, boca entreaberta, mas logo lhe apertou a
mo, agradecida. No pde evitar que lhe cassem duas pequeninas lgrimas, 
como outras tantas fitas que lhe atavam para sempre a pasta do passado.

A imagem no  boa, nem
verdadeira; foi a que acudiu ao conselheiro, andando, ao voltar de Andara.
Chegou a escrev-la no Memorial, depois riscou-a, e escreveu uma
reflexo menos definitiva: 'Talvez seja uma lgrima para cada gmeo'.

'Pode acabar com o tempo,
pensou ele indo para a barca de Petrpolis. No importa;  um caso embrulhado.

CAPTULO CI

O CASO EMBRULHADO

Tambm os gmeos achavam o caso
embrulhado. Quando iam a So Clemente, tinham notcias da moa, sem que lhes
dessem certeza do regresso. O tempo andava; no tardaria que consultassem a
sorte, como dois antigos.

A giro, no contavam as semanas de
interrupo, uma vez que a escolha se no dava, e eles podiam trazer da
consulta o contrrio da inclinao definitiva da moa. Reflexo justa, posto
que interessada. Cada um deles no queria mais que prolongar a batalha,
esperando venc-la. Entretanto, no confiavam um do outro este pensamento
gmeo, como eles. Ambos se iam sentindo exclusivos, a afeio tinha agora o seu
pudor e necessidade de calar. J no falavam de Flora.

Nem s de Flora. Crescendo a
oposio, recorriam ao silncio. Evitavam-se; se podiam, no comiam juntos; se
comiam juntos, diziam pouco ou nada. s vezes, falavam para tirar aos criados
qualquer suspeita, mas no advertiam que falavam mal e foradamente, e que os
criados iam comentar as palavras e a expresso deles na copa. A satisfao com
que estes comunicavam os seus achados e concluses  das poucas que adoam o
servio domstico, geralmente rude. No chegavam, porm, ao ponto de concluir
tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponta de dio que crescia
com a ausncia da me. Era mais que Flora, como sabeis; eram as prprias
pessoas inconciliveis. Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade.
Pedro, a pretexto de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir
mal em outro no menos quente que o primeiro.

CAPTULO CII

VISO PEDE MEIA SOMBRA

Entretanto, a bela moa no os
tirava da mesma alcova sua, por mais que buscasse deveras fugir-lhes. A memria
os trazia pela mo, eles entravam e ficavam. Iam depois embora, ou de si
mesmos, ou empurrados por ela. Quando tornavam, era de surpresa. Um dia, Flora
aproveitou a presena para fazer um desenho igual ao que dera ao conselheiro,
mais perfeito agora, muito mais acabado.

Tambm cansava. Ento saa do
quarto e ia para o piano. Eles iam com ela, sentavam-se aos lados ou ficavam
defronte, em p, e ouviam com ateno religiosa, ora um noturno, ora uma
tarantela. Flora tocava ao sabor de ambos, sem deliberao; os dedos  que
obedeciam  mecnica da alma. Para os no ver, inclinava a cabea sobre o
teclado; mas o campo da viso os guardava, se no era a respirao que se fazia
sentir defronte ou dos lados. Tal era a sutileza dos seus sentidos.

Se fechava o piano e descia ao
jardim, sucedia muita vez que os ia achar ali, passeando, e a cumprimentavam
com to boa sombra, que ela esquecia por instantes a impacincia. Depois, sem
que os mandasse, iam embora. Nos primeiros tempos, Flora tinha medo que a
houvessem abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos tornavam logo,
to dceis, que ela acabou de se convencer que a fuga no era fuga, nem eles
sentiam desespero, e no os evocou mais. No jardim era mais rpido o
desaparecimento, talvez pela extrema claridade do lugar. Viso pede meia
sombra.

CAPTULO CIII

O QUARTO

Sei, sei, trs vezes sei que h
muitas vises dessas nas pginas que l ficam. Ulisses confessa a Alcinoos que
lhe  enfadonho contar as mesmas coisas. Tambm a mim. Sou, porm, obrigado a
elas, porque sem elas a nossa Flora seria menos Flora, seria outra pessoa que
no conheci. Conheci esta, com as suas obsesses ou como quer que lhes chames.

Nem por isso, nem ainda porque
houvesse colhido algum abatimento e nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de
se fazer mais linda, e ter mais de um namorado incgnito, que suspirava por
ela. No faltava quem a admirasse de passagem, e fosse v-la, quando menos, no
banco verde,  porta do jardim, ao p da irm de Aires. Pode ser que conhecesse
algum, Gouveia, por exemplo; em verdade, era como se os no visse.

Um deles valia mais que todos pela
carruagem,  tirada por uma bela parelha de cavalos,  capitalista do bairro. A
casa dele era um palacete, os mveis feitos na Europa, estilo imprio,
aparelhos de Svres e de prata, tapetes de Esmirna, e uma vasta cmara com dois
leitos, um de solteiro, outro de casados. O segundo esperava a esposa.

'A esposa h de ser
esta', pensou ele um dia, ao ver Flora.

Era maduro; trazia o rosto batido
dos ventos da vida, a despeito das muitas guas de toucador; ao corpo faltava
aprumo, e as maneiras no tinham graa nem naturalidade. Era o Nbrega, aquele
da nota de dois mil-ris, nota fecunda, que deitou de si muitas outras, mais de
dois mil contos de ris. Para as notas recentes, a av perdia-se na noite dos
tempos. Agora os tempos eram claros, a manh doce e pura.

Quando viu a moa, e fez a
reflexo que l fica, estranhou-se a si prprio. Vira outras damas, e mais de
uma com escritos nos olhos, dizendo-lhe o vazio do corao. Esta era a primeira
que veramente lhe prendeu a vontade e lhe deteve o pensamento. Tornou a v-la;
a gente vizinha notou porventura a freqncia recente do capitalista. Enfim,
Nbrega acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto dos seus
habitantes, que assim se viam esquecidos do anfitrio. Nbrega, entretanto,
dera ordens bastantes para que fossem todos servidos e agasalhados, como se ele
estivesse presente.

A ausncia no lhe faria perder as
loas dos amigos. Ao contrrio, os servos podiam dar testemunho do que todos
eles pensavam do 'grande homem'. Tal era o nome que lhe aplicara o
secretrio particular, e pegou. Nbrega sabia pouca ortografia, nenhuma
sintaxe, lies teis, decerto, mas que no valiam a moral, e a moral, diziam
todos, acompanhando o secretrio, era o seu principal e maior mrito. O fiel
escriba acrescentava que, sendo preciso despir a camisa e d-la a um mendigo,
Nbrega o faria, ainda que a camisa fosse bordada.

Agora mesmo, este amor era, ao
cabo, um movimento de caridade. Em pouco tempo, aquele gosto de relance passou
a grande paixo, to grande que ele no a pde conter, e resolveu confess-la.
Hesitou se o faria  prpria moa ou  dona da casa. No tinha nimo para uma
nem outra. Uma carta supria tudo, mas a carta pedia lngua, calor e respeito.
Se, ao menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma coisa, ainda que pouca, v;
a carta seria ento uma resposta. Mas no lhe dizia nada o gesto da moa. Era
s corts e gracioso; no ia alm dessas duas expresses.

D. Rita percebeu a inclinao de
Nbrega e achou que era a melhor soluo da vida para a hspede. Todas as
incertezas, angstias e melancolias vinham acabar nos braos de um ricao,
estimado, respeitado, dentro de um palacete com uma carruagem s ordens... Ela
mesma punha em relevo este prmio grande da loteria de Espanha.

Enfim, o secretrio de Nbrega
redigiu com a melhor linguagem que possua uma carta em que o capitalista pedia
a D. Rita o favor de consultar a moa amada.

 No escreva palavrinhas doces,
recomendou ele ao secretrio. Gosto dessa moa com um sentimento de proteo,
antes que outra coisa. No  carta de namorado. Estilo grave...

 Uma carta seca, concluiu o
secretrio.

 Totalmente seca, no, emendou
Nbrega, uma carta lisonjeira, sem esquecer que no sou criana.

Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se
demais; Nbrega achou que o estilo podia ser um tanto ameno; no fazia mal pr
duas ou trs palavras apropriadas ao objeto, beleza, corao, sentimento...
Assim se cumpriu finalmente, e a carta foi levada ao seu destino. D. Rita ficou
contentssima. Justamente o que ela queria. Tinha o plano feito de concluir,
por ato seu, uma histria melanclica, a que daria, por derradeira pgina,
concluso deslumbrante. No pensou em diz-lo primeiro ao irmo, pela razo de
querer que ele recebesse a notcia completa, tudo feito e acabado. Releu a
carta; disps-se a ir logo, mas h pessoas para quem o adgio que diz que
'o melhor da festa  esperar por ela', resume todo o prazer da vida.
D. Rita tinha essa opinio. Todavia, entendeu que tais cartas no so das que
se guardam largo tempo, nem alis das que se comunicam sem cautela. Esperou
vinte e quatro horas. Na manh seguinte, depois de almoadas, leu a carta 
moca. O natural  que Flora ficasse espantada. Ficou, mas no tardou que risse,
de um riso franco e sonoro, como ainda no rira em Andara. D. Rita ficou espantadssima. Supunha que, no a pessoa, mas as vantagens e
circunstncias pleiteassem a favor do candidato. Esquecia os seus cabelos
entregues  sepultura do marido. Deu conselhos  moa, ps em relevo a posio
do pretendente, o presente e o futuro, a situao esplndida que lhe dava este
casamento, e por fim as qualidades morais de Nbrega. A moa escutou calada, e
acabou rindo outra vez.

 A senhora sabe se serei feliz?
perguntou.

 Creio que sim; agora, o futuro 
que confirmar ou no.

 Esperemos que o futuro chegue,
conquanto me parea muito demorado. No nego as qualidades daquele homem,
parece bom, e trata-me bem, mas eu no quero casar, D. Rita.

 Realmente, a idade... Mas nem,
ao menos, quer pensar alguns dias?

 Est pensado.

D. Rita ainda esperou um dia. A
resposta negativa, dado que Flora viesse a mudar de opinio, podia ser uma
desgraa para esta. Uso os prprios termos dela, consigo, grande desgraa,
posio esplndida, sentimento profundo. D. Rita ia aos extremos,
diante daquele rico-homem dos ltimos anos do sculo.

CAPTULO CIV

A RESPOSTA

No querendo dar a resposta nua e
crua, D. Rita consultou a moa, que lhe respondeu simplesmente:

 Diga que no pretendo casar.

Quando Nbrega recebeu as poucas
linhas que D. Rita lhe mandou, ficou assombrado. No contava com recusas. Ao
contrrio, era to certa a aceitao que ele tinha j um programa do noivado.
Imaginava a moa, os olhos tmidos, a boca cerrada, o cu que lhe cobriria a
linda carinha, a delicadeza dele, as palavras que lhe diria entrando em casa. Tinha j composto uma invocao  Me Santssima, para que os fizesse felizes.
'Dou-lhe carro, dizia consigo, jias, muitas jias, as melhores jias do
mundo...' Nbrega no fazia idia exata do mundo; era expresso. 'Hei
de dar-lhe tudo, sapatinhos de seda, meias de seda, que eu mesmo lhe
calarei...' Estremecia de cor, ao calar-lhe as meias. Beijava-lhe os ps
e os joelhos.

Tinha imaginado que ela, ao ler a
carta, devia ficar to pasmada e agradecida, que nos primeiros instantes no
pudera responder a D. Rita; mas logo depois as palavras sairiam do corao s
golfadas. 'Sim, senhora, queria, aceitava; no pensara em outra
coisa.' Escreveria logo ao pai e  me para lhes pedir licena; eles
viriam correndo, incrdulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita, no
duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez o pai lho fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente nada, uma simples recusa, uma recusa atrevida, por
que enfim quem era ela, apesar da beleza? uma criatura sem vintm, modestamente
vestida, sem brincos, nunca lhe vira brincos s orelhas, duas perolazinhas que
fossem. E por que  que lhe furaram as orelhas, se no tinham brincos que lhe
dar? Considerou que s mais pobres meninas do mundo furam as orelhas para os
brincos que lhes possam cair do cu. E vem esta, e recusa os mais ricos brincos
que o cu ia chover sobre ela...

Ao jantar, os amigos da casa
notaram que ele estava preocupado. De noite, ele e o secretrio saram a p.
Nbrega buscou em si o gesto mais frio e indiferente que pde, quase alegre, e
anunciou ao secretrio que Flora no queria casar. No se descreve a admirao
do secretrio, em seguida a consternao, finalmente a indignao. Nbrega
respondia magnnimo:

 No foi por mal; foi talvez por
se julgar abaixo, muito abaixo da fortuna. Creia que  boa moa. Pode ser
tambm, quem sabe? por ter sido um mau conselho do corao. Aquela moa 
doente.

 Doente?

 No afirmo; digo que pode ser.

O secretrio afirmou.

 S a doena, disse ele,
explicar a ingratido, porque o ato  de pura ingratido.

Aqui tornou a nota da indignao,
nota sincera, como as outras. Nbrega gostou de ouvi-la; era um compadecimento.
No fim, cumpriu a idia que trazia ao sair de casa; aumentou-lhe o ordenado.
Podia ser a paga da simpatia; o beneficiado foi mais longe, achou que era o
preo do silncio, e ningum soube de nada.

CAPTULO CV

A REALIDADE

A molstia, dada por explicao 
recusa do casamento, passou  realidade da a dias. Flora adoeceu levemente; D.
Rita, para no alarmar os pais, cuidou de a tratar com remdios caseiros;
depois, mandou chamar um mdico, o seu mdico, e a cara que este fez no foi
boa, antes m. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas molstias no
rosto dele, e sempre as achava gravssimas, cuidou de avisar os pais da moa.
Os pais vieram logo. Natividade tambm desceu de Petrpolis, no de vez; em
cima, tinham medo de algum movimento c embaixo. Veio a visitar a moa, e, a
pedido desta, ficou alguns dias.  S a senhora pode me curar, disse Flora; no
creio nos remdios que me do. As suas palavras  que so boas, e os seus
carinhos... Mame tambm, e D. Rita, mas no sei, h uma diferena, uma
coisa... Veja; parece-me que at j rio.

 J, j; ria mais.

Flora sorriu, ainda que daquele
sorriso descorado que aparece na boca do enfermo, quando a molstia consente,
ou ele fora a seriedade prpria da dor. Natividade dizia-lhe palavras de
animao; f-la prometer que iria convalescer em Petrpolis. A enfermidade comeou a ceder. D. Cludia aceitou a oferta de D. Rita, e l ficou
aposentada. Natividade ia  noite para Botafogo e voltava de manh. Aires
descia de Petrpolis um dia sim, um dia no.

Tambm os gmeos l iam saber da
enferma. Agora mais que dantes, sentiam a fortaleza do vnculo que os prendia 
moa. Pedro, j mdico, ainda que sem prtica, punha mais autoridade nas
perguntas, conclua melhor dos sintomas, mas as esperanas e os receios eram de
ambos. Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de convenincia. A
razo, por egosta que fosse, era perdovel. Supe que os cartes de visita
falassem; alguns, mais sfregos, proclamariam os seus nomes, para que soubessem
logo da presena, da cortesia e da ansiedade. Tal cuidado da parte dos dois era
intil, porque ela sabia deles e recebia as lembranas que lhe deixavam.

Flora ia assim passando os dias.
Queria Natividade sempre ao p de si, pela razo que j deu, e por outra que
no disse, nem porventura soube, mas podemos suspeit-la e imprimir. Estava ali
o ventre abenoado que gerara os dois gmeos. De instinto, achava nela algo
particular. Quanto ao influxo que exercia nela, por essa ou qualquer outra
causa, no a sabia Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal
crise, Flora no perdeu a amizade que lhe tinha. Passavam as horas juntas,
falando, se no fazia mal falar, ou ento uma com as mos da outra entre as
suas. Quando Flora adormecia, Natividade ficava a contempl-la, com o rosto
plido, os olhos fundos, as mos quentes, mas sem perder a graa dos dias da
sade. As outras entravam no quarto, p ante p, esticavam os pescoos para
v-la dormir, falavam por gestos ou to baixo que s o corao as adivinharia.

Quando pareceu melhorar, Flora
pediu um pouco mais de luz e de cu. Uma das duas janelas foi ento
escancarada, e a enferma encheu-se de vida e riso. No  que a Febre se fosse
de todo. Essa bruxa lvida estava ao canto do quarto, com os olhos espetados
nela; mas, ou de cansada, ou por obrigao imposta, cochilava a mido, e
longamente. Ento a enferma sentia s o calor do Mal, que o mdico graduava em
trinta e nove ou trinta e nove e meio, depois de consultar o termmetro. A
Febre, ao ver esse gesto, ria sem escndalo, ria para si.

CAPTULO CVI

AMBOS QUAIS?

Ficamos no ponto em que uma das
janelas do quarto aumentou a dose de luz e de cu que Flora pediu, sem embargo
da febre, alis pouca. O mais que se passou valia a pena de um livro. No foi
logo, logo, gastou longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que
entre a vida e Flora se fizesse a reconciliao ou a despedida. Uma e outra
podiam ser extensas; tambm podiam ser curtas. Conheci um homem que adoeceu
velho, se no de velho, e despendeu no rompimento final um tempo quase
infinito. J pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da derradeira
amiga espiar da porta entreaberta, voltava o seu para outro lado e engrolava
uma cantiga da infncia, para engan-la e viver.

Flora no recorria a tais
cantigas, alis to prximas. Quando via o cu e um pedao de sol no muro,
deleitava-se naturalmente, e uma vez quis desenhar, mas no lho consentiram. Se
a morte a espiava da porta, tinha um calafrio,  verdade, e fechava os olhos.
Ao abri-los fitava a triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ela.

 Voc amanh est pronta, e de
hoje a oito dias, ou antes, vamos para Petrpolis, disse Natividade disfarando
as lgrimas, mas a voz fazia o ofcio dos olhos.

 Petrpolis? suspirou a doente.

 L ter muito que desenhar.

Eram sete horas da manh. Na
vspera, quando os gmeos saram de l, j tarde, os receios da morte cresciam;
mas no bastam receios,  preciso que a realidade venha atrs deles; da as
esperanas. Tambm no bastam esperanas, a realidade  sempre urgente. A
madrugada trouxe algum sossego; s sete horas, depois daquelas palavras de
Natividade, Flora pde dormir.

Quando Pedro e Paulo voltaram a
Andara, a enferma estava acordada, e o mdico, sem dar grandes esperanas,
mandou fazer aplicaes, que declarou enrgicas. Todos tinham sinais de
lgrimas. De noite, Aires apareceu trazendo notcias de agitao na cidade.

 Que ?

 No sei; uns falam de
manifestaes ao Marechal Deodoro, outros de conspirao contra o Marechal
Floriano. H alguma coisa.

Natividade pediu aos filhos que se
no metessem em barulhos; ambos prometeram e cumpriram. Ao ver o aspecto de
algumas ruas, grupos, patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamarati
iluminado, tiveram a curiosidade de saber o que houve e havia; vaga sugesto,
que no durou dois minutos. Correram a meter-se em casa, e a dormir mal a
noite. Na manh seguinte os criados levaram os jornais com as notcias da
vspera.

 Veio algum recado de Andara?
perguntou um.

 No, senhor.

Ainda quiseram ler, por alto,
alguma coisa. No puderam; estavam ansiosos de sair de casa e saber notcias da
noite. Posto levassem os jornais consigo, no leram claramente nem
seguidamente. Viram nomes de pessoas presas, um decreto, movimento de gente e
de tropas, to confuso tudo, que deram por si na casa de D. Rita, antes de
entender o que houvera. Flora ainda vivia.

 Mame, a senhora est mais
triste hoje que estes dias.

 No fales tanto, minha filha,
acudiu D. Cludia. Triste estou sempre que adoeces. Fica boa e vers.

 Fica, fica boa, interveio
Natividade. Eu, em moa, tive uma doena igual que me prostrou por duas
semanas, at que me levantei, quando j ningum esperava.

 Ento j no esperam que me
levante?

Natividade quis rir da concluso
to pronta, com o fim de a animar. A doente fechou os olhos, abriu-os da a
pouco, e pediu que vissem se estava com febre. Viram; tinha, tinha muita.

 Abram-me a janela toda.

 No sei se far bem, ponderou D.
Rita.

 Mal no faz, disse Natividade.

E foi abrir, no toda, mas metade
da janela. Flora, posto que j mui cada, fez esforo e voltou-se para o lado
da luz. Nessa posio ficou sem dar de si; os olhos, a princpio vagos,
entraram a parar, at que ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e
abafando os passos, trazendo recados e levando-os; fora, espreitavam o mdico.

 Demora-se; j devia c estar,
dizia Batista.

Pedro era mdico, props-se a ir
ver a enferma; Paulo, no podendo entrar tambm, ponderou que seria
desagradvel ao mdico assistente; alm disso, faltava-lhe prtica. Um e outro
queriam assistir ao passamento de Flora, se tinha de vir. A me, que os ouviu,
saiu  sala, e, sabendo o que era, respondeu negativamente. No podiam entrar;
era melhor que fossem chamar o mdico.

 Quem ? perguntou Flora, ao
v-la tornar ao quarto.

 So os meus filhos que queriam
entrar ambos.

 Ambos quais? perguntou Flora.

Esta palavra fez crer que era o
delrio que comeava, se no  que acabava, porque, em verdade, Flora no
proferiu mais nada. Natividade ia pelo delrio. Aires, quando lhe repetiram o
dilogo, rejeitou o delrio.

A morte no tardou. Veio mais
depressa do que se receava agora. Todas e o pai acudiram a rodear o leito, onde
os sinais da agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes
rpidas, no tanto que no faam ir doendo as saudades do dia; acabou to serenamente
que a expresso do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta
que de escultura. As janelas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o cu.

CAPTULO CVII

ESTADO DE STIO

No h novidade nos enterros.
Aquele teve a circunstncia de percorrer as ruas em estado de stio. Bem
pensado, a morte no  outra coisa mais que uma cessao da liberdade de viver,
cessao perptua, ao passo que o decreto daquele dia valeu s por 72 horas. Ao
cabo de 72 horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver.
Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido aquela
moa, alm do de viver, e porventura o de amar, no se sabe a quem, mas amar?
Perdoai estas perguntas obscuras, que se no ajustam, antes se contrariam. A
razo  que no recordo este bito sem pena, e ainda trago o enterro  vista...

CAPTULO CVIII

VELHAS CERIMNIAS

Aqui vai a sair o caixo. Todos
tiram o chapu, logo que ele assoma  porta. Gente que passa, pra. Das janelas
debrua-se a vizinhana, em algumas atopeta-se, por serem as famlias maiores
que o espao; s portas, os criados. Todos os olhos examinam as pessoas que
pegam nas alas do caixo, Batista, Santos, Aires, Pedro, Paulo, Nbrega.

Este, posto j no freqentasse a
casa, mandara saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No
carro, em que levava o secretrio, e era puxado pela mais bela parelha do
prstito, quase nica, lembrava Nbrega ao secretrio:

 No lhe dizia eu que ela era
doente? Era muito doente.

 Muito.

No vou ao ponto de afirmar que
teve prazer com a morte de Flora, s por hav-lo feito acertar na notcia da
doena, estando ela perfeitamente s. Mas que ningum fosse seu marido, foi uma
espcie de consolao. Houve mais; supondo que ela o tivesse aceitado e
casassem, pensava agora no esplndido enterro que lhe faria. Desenhava na
imaginao o carro, o mais rico de todos, os cavalos e as suas plumas negras, o
caixo, uma infinidade de coisas que,  fora de compor, cuidava feitas. Depois
o tmulo; mrmore, letras de ouro... O secretrio, para o arrancar  tristeza,
falava dos objetos da rua.

 V. Excia.lembra-se do chafariz
que havia aqui h anos?

 No, resmungava Nbrega.

Ainda uma vez, no h novidade nos
enterros. Da o provvel tdio dos coveiros, abrindo e fechando covas todos os
dias. No cantam, como os de Hamlet, que temperam as tristezas do ofcio
com as trovas do mesmo ofcio. Trazem o caixo da cal e a colher para os
convidados, e para si as ps com que deitam a terra para dentro da cova. O pai
e alguns amigos ficaram ao p da cova de Flora, a ver cair a terra, a princpio
com aquele baque soturno, depois com aquele vagar cansativo, por mais que os
pobres homens se apressem. Enfim, caiu toda a terra, e eles puseram em cima as
grinaldas dos pais e dos amigos: ' nossa querida filha'; 
 nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade';  '
Flora, um amigo velho', etc. Tudo feito, vieram saindo; o pai, entre
Aires e Santos, que lhe davam o brao, cambaleava. Ao porto, foram tomando os
carros e partindo. No deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao p da
cova.

CAPTULO CIX

AO P DA COVA

Nenhum deles contou o tempo gasto
naquele lugar. Sabem s que foi de silncio, de contemplao e de saudade. No
digo, para os no vexar agora, mas  possvel que chorassem tambm. Tinham um
leno na mo, enxugavam os olhos; depois com os braos cados, as mos
prendendo o chapu, olhavam aparentemente para as flores que cobriam a
sepultura, mas na realidade para a criatura que l estava embaixo.

Enfim, cuidaram de arrancar-se
dali, e despedir-se da defunta, no se sabe com que palavras, nem se eram as
mesmas; o sentido seria igual. Como estivessem defronte um do outro,
acudiu-lhes a idia de um aperto de mo por cima da cova. Era uma promessa, um
juramento. Juntaram-se e vieram descendo, calados. Antes de chegar ao porto,
reduziram  palavra o gesto das mos feito sobre a cova. Que juravam a
conciliao perptua.

 Ela nos separou, disse Pedro;
agora, que desapareceu, que nos una.

Paulo confirmou de cabea.

 Talvez morresse para isso mesmo,
acrescentou.

Depois, abraaram-se. Gesto nem
palavra traziam nfase ou afetao; eram simples e sinceros. A sombra de Flora
decerto os viu, ouviu e inscreveu aquela promessa de reconciliao nas tbuas
da eternidade. Ambos, por um impulso comum, voltaram os olhos para ver ainda
uma vez a cova de Flora, mas a cova ficava longe e encoberta por grandes
sepulcros, cruzes, colunas, um mundo inteiro de gente passada, quase esquecida.
O cemitrio tinha um ar meio alegre, com todas aquelas grinaldas de flores,
baixo-relevos, bustos, e a cor branca dos mrmores e da cal. Comparado  cova
recente, parecia um renascimento de vida, que ficou deslembrada a um canto da
cidade.

Custou-lhes sair do cemitrio. No
supunham estar to presos  defunta. Cada um deles ouvia a mesma voz, com igual
doura e palavras especiais. Tinham chegado ao porto e o carro veio busc-los.
A cara do cocheiro era radiosa.

No se explica esta expresso do
cocheiro, seno porque, inquieto da demora, no cuidando que os dois fregueses
ficassem tanto tempo ao p da cova, entrara a recear que tivessem aceitado o
convite de algum amigo e voltado para casa. Tinha j resolvido esperar poucos minutos
mais, e ir embora; mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dor e o amor;
digamos, gmea.

CAPTULO CX

QUE VOA

Assim como o carro veio voando do
cemitrio, assim voar este captulo destinado a dizer primeiro que a me dos
gmeos conseguiu lev-los para Petrpolis. J no alegaram a clnica da Santa
Casa nem os documentos da Biblioteca Nacional. Clnica e documentos repousam
agora na cova n.o... No ponho o nmero, para que algum curioso, se
achar este livro na dita Biblioteca, se d ao trabalho de investigar e
completar o texto. Basta o nome da defunta, que l ficou dito e redito.

Voe este captulo, como o trem de
Mau, serra acima, at  cidade do repouso, do luxo e da galanteria. V
Natividade com os filhos, e Aires com os trs. Em cima,  noite, voltando este
 casa do baro, pde ver os efeitos da paz jurada, a conciliao final. No
sabia nada do pacto dos dois moos. Pai nem me sabiam coisa nenhuma. Foi um
segredo guardado no silncio e no desejo sincero de comemorar uma criatura que
os ligara, morrendo.

Natividade vivia agora enamorada
dos filhos. Levava-os a toda parte, ou guardava-os para si, a fim de os gostar
mais deliciosamente, de os aprovar por atos, de auxiliar a obra corretiva do
tempo. Notcias e boatos do Rio de Janeiro eram objeto de conversao nas casas
a que estes iam, sem os convidar a sair da absteno voluntria. As recreaes
pouco a pouco os tomaram, algum passeio de carro ou a cavalo, e outras
diverses os traziam unidos.

Assim chegaram ao tempo em que a
famlia Santos desceu, ainda que a contragosto de Natividade. Ela temia que,
mais perto do governo, a discrdia poltica acabasse com a recente harmonia dos
filhos, mas no podia l ficar. A outra gente vinha descendo. Santos queria os
seus velhos hbitos, e deu algumas razes boas, que Natividade ouviu depois ao
prprio Aires. Podia ser um encontro de idias, mas se estas eram boas, deviam
ser aceitas.

Natividade confiava ao tempo a
perfeio da obra. Cria no tempo. Eu, em menino, sempre o vi pintado como um velho
de barbas brancas e foice na mo, que me metia medo. Quanto a ti, amigo meu, ou
amiga minha, segundo for o sexo da pessoa que me l, se no forem duas, e os
sexos ambos,  um casal de noivos, por exemplo,  curiosos de saber como  que
Pedro e Paulo puderam estar no mesmo credo... No falemos desse mistrio...
Contenta-te de saber que eles tinham em mente cumprir o juramento daquele lugar
e ocasio. O tempo trouxe o fim da estao, como nos outros anos, e Petrpolis
deixou Petrpolis.

CAPTULO CXI

UM RESUMO DE ESPERANAS

'Quando um no quer, dois no
brigam' tal  o velho provrbio que ouvi em rapaz, a melhor idade para
ouvir provrbios. Na idade madura eles devem j fazer parte da bagagem da vida,
frutos da experincia antiga e comum. Eu cria neste; mas no foi ele que me deu
a resoluo de no brigar nunca. Foi por ach-lo em mim que lhe dei crdito.
Ainda que no existisse, era a mesma coisa. Quanto ao modo de no querer, no
respondo, no sei. Ningum me constrangia. Todos os temperamentos iam comigo;
poucas divergncias tive, e perdi s uma ou duas amizades, to pacificamente
alis, que os amigos perdidos no deixaram de me tirar o chapu. Um deles
pediu-me perdo no testamento.

No caso dos gmeos eram ambos que
no queriam; parecia-lhes ouvir uma voz de fora ou do alto que lhes pedia
constantemente a paz. Fora maior, portanto, e troca de frmula: 'Se
nenhum quer, nenhum briga'.

Naturalmente os atos do governo
eram aprovados e desaprovados, mas a certeza de que podia acender-lhes
novamente os dios fazia com que as opinies de Pedro e de Paulo ficassem entre
os seus amigos pessoais. No pensavam nada  vista um do outro. Divergncias de
teatro ou de rua, eram sopitadas logo, por mais que lhes doesse o silncio. No
doeria tanto a Pedro, como a Paulo, mas sempre era padecer alguma coisa.
Mudando de pensamento, esqueciam de todo, e o riso da me era a paga de ambos.

A carreira diferente ia separ-los
depressa, conquanto a residncia comum os trouxesse unidos. Tudo se podia
combinar; os interesses do ofcio serviriam a este efeito, as relaes pessoais
tambm, e afinal o uso, que vale por muito. Vou aqui resumindo, como posso, as
esperanas de Natividade. Outras havia a que chamarei conjugais; os rapazes, porm,
no pareciam inclinados a elas, e a me, quem lhe apalpasse o corao sentiria
j um antecipado cime das noras.

CAPTULO CXII

O PRIMEIRO MS

Na vspera do dia em que se
completou o primeiro ms da morte de Flora, Pedro teve uma idia, que no comunicou
ao irmo. No perderia nada em faz-lo, porque Paulo teve a mesma idia, e
tambm a calou. Dela nasce este captulo.

A pretexto de ir visitar um
doente, Pedro saiu de casa, antes das sete horas. Paulo saiu pouco depois, sem
pretexto algum. Pia leitora, adivinhas que ambos foram ao cemitrio; no
adivinhas, nem  fcil adivinhar que cada um deles levava uma grinalda. No
digo que fossem das mesmas flores, no s para respeitar a verdade, seno
tambm para afastar qualquer idia intencional de simetria na ao e no acaso.
Uma era de miostis, outra creio que de perptuas. Qual fosse a de um, qual a
do outro, no se sabe nem interessa  narrao. Nenhuma tinha letreiro.

Quando Paulo chegou ao cemitrio,
e viu de longe o irmo, teve a sensao de pessoa roubada. Cuidava ser nico e
era ltimo. A presuno, porm, de que Pedro no levara nada, uma folha sequer,
consolou-o da antecipao da visita. Esperou alguns instantes; advertindo que
podia ser visto, desviou-se do caminho, meteu-se por entre as sepulturas, at
ir colocar-se atrs daquela. A esperou cerca de um quarto de hora. Pedro no
se queria arrancar dali; parecia falar e escutar. Enfim, despediu-se e desceu.

Paulo, vagarosamente, caminhou
para a sepultura. Indo a depositar a grinalda, viu ali outra posta de fresco, e
entendendo que era do irmo, teve mpeto de ir atrs dele e pedir-lhe contas da
lembrana e da visita. No lhe leves a mal o mpeto; passou imediatamente. O
que ele fez foi colocar a coroa que levava no lado correspondente aos ps da
defunta, para no a irmanar com a outra, que estava do lado da cabea.

No viu, no adivinhou sequer que
Pedro naturalmente pararia um instante, para voltar a cara e mandar um
derradeiro olhar  moa enterrada. Assim foi, mas quando Pedro deu com o irmo,
no mesmo lugar que ele, os olhos no cho, teve tambm o seu impulso de ir
busc-lo e traz-lo daquela cova sagrada. Preferiu esconder-se e esperar. Os
gestos de piedade, quaisquer que fossem, ele os deu primeiro  querida comum.
Foi o primeiro em evocar a sombra de Flora falar-lhe, ouvi-la, gemer com ela a
separao eterna. Viera adiante do outro; lembrara-se dela mais cedo.

Assim consolado, podia seguir
caminho; Paulo, se sasse atrs dele, e o visse, entenderia que fizera a sua
visita em segundo lugar, e receberia um golpe grande. Deu alguns passos na
direo do porto, estacou, recuou e novamente se escondeu. Queria ver os
gestos dele, ver se rezava, se se benzia, para desmenti-lo quando lhe ouvisse
mofar das cerimnias eclesisticas. Logo sentiu que era um erro; no iria
confessar a ningum que o vira rezando ao p da cova de Flora. Ao contrrio,
era capaz de o desmentir,  ou, quando menos, fazer um gesto de
incredulidade...

Enquanto estas imaginaes lhe
passavam pela cabea, desfazendo-se umas s outras, discursando sem palavras,
aceitando, repelindo, esperando, os olhos no se retiravam do irmo, nem este
da sepultura. Paulo no fazia gesto, no mexia os lbios, tinha os braos
cruzados. O chapu na mo. No obstante, podia estar rezando. Tambm podia
ficar calado, para a sombra ou para a memria da defunta. A verdade  que no
saiu do lugar. Ento Pedro viu que a conversao, evocao, adorao, o que
quer que fosse que atava Paulo  sepultura, vinha sendo muito mais demorado que
as suas oraes. No marcara o seu tempo, mas evidentemente o de Paulo era j
maior. Descontando a impacincia, que sempre faz crescer os minutos, ainda
assim parecia certo que Paulo gastava mais saudades que ele. Deste modo,
ganhava na extenso da visita o que perdera na chegada ao cemitrio. Pedro, 
sua vez, achou-se roubado.

Quis sair; mas, uma fora, que ele
no sabia explicar, no lhe consentia levantar os ps, nem tirar os olhos do
gmeo. A custo, pde enfim trazer a estes e faz-los andar de volta pelas
outras campas, onde leu alguns epitfios. Um de 1865 no se podia ler bem se
era tributo de amor filial ou conjugal, maternal ou paternal, por estar j
apagado o adjetivo. Tributo era, tinha a frmula adotada pelos marmoristas,
para poupar estilo aos fregueses. Notando que o adjetivo estava comido do
tempo, Pedro disse consigo que o seu amor  que era um substantivo perptuo,
no precisando mais nada para se definir.

Pensou outras coisas com que foi
disfarando a humilhao. Fizera tudo s carreiras. Se se demorasse mais, era o
outro que estaria agora  espreita. O tempo andava, o sol batia no rosto do
irmo, e este no arredava p. Enfim, deu mostras de deixar a cova, mas foi
para rode-la, e deter-se em todos os quatro lados, como se buscasse o melhor
lugar de ver ou evocar a pessoa guardada no fundo.

Tudo feito, Paulo arredou-se,
desceu e saiu, levando as maldies de Pedro. Este teve uma idia que desprezou
logo, e tu farias o mesmo, amigo leitor; foi tornar  sepultura e emendar ao
tempo gasto anteriormente outro pedao maior. Desprezada a idia, vagou alguns
minutos, at que saiu, sem achar sombra de Paulo.

CAPTULO CXIII

UMA BEATRIZ PARA DOIS

Flora, se visse os gestos de
ambos,  provvel que descesse do Cu, e buscasse maneira de os ouvir
perpetuamente, uma Beatriz para dois. Mas no viu ou no lhe pareceu bem
descer. Talvez no achasse necessidade de tornar c, para servir de madrinha a
um duelo que deixara em meio.

Quanto a este, se ia continuar,
no era pela mesma injria. No esqueas que foi ao p daquela mesma campa que
os dois fizeram as pazes eternas, e, posto no lhas desfizesse a campa,  certo
que acendeu um pouco da ira antiga. Dir-me-s, e com aparncia de razo, que,
se enterrada ainda os separava, mais os separaria se ali descesse em esprito. Puro engano amigo. No comeo, ao menos, eles jurariam o que ela mandasse.

CAPTULO CXIV

CONSULTRIO E BANCA

Meses depois, Pedro abria
consultrio mdico, aonde iam pessoas doentes, Paulo banca de advogado, que
procuravam os carecidos de justia. Um prometia sade, outro ganho de causa, e
acertavam muita vez, porque no lhes faltava talento nem fortuna. Demais, no
trabalhavam ss, mas cada qual com um colega de nomeada e prtico.

No meio dos sucessos do tempo,
entre os quais avultavam a rebelio da esquadra e os combates do Sul, a
fuzilaria contra a cidade, os discursos inflamados, prises, msicas e outros
rumores, no lhes faltava campo em que divergissem. Nem era preciso poltica.
Cresciam agora mais em nmero as ocasies e as matrias. Ainda quando
combinassem de acaso e de aparncia, era para discordar logo e de vez, no
deliberadamente, mas por no poder ser de outro modo.

Tinham perdido o acordo, feito
pela razo, jurado pelo amor, em honra da moa defunta e da me viva. Mal se
podiam ver, mal ou pior em ouvir. Cuidaram de evitar tudo o que o lugar e a
ocasio ajustassem para os separar mais. Desta maneira, a profisso torceu-lhes
o caminho e dividiu as relaes de ambos. Natividade apenas daria pela m
vontade dos filhos, desde que os dois pareciam apostados em lhe querer bem, mas
dava por ela, e tentava lig-los apertadamente e de todo. Santos folgava de se
prolongar pela medicina e pela advocacia dos filhos. S receava que Paulo, dada
a inclinao partidria, buscasse noiva jacobina. No ousando dizer-lhe nada a
tal respeito, refugiava-se na religio, e no ouvia missa que lhe no metesse
uma orao particular e secreta para obter a proteo do Cu.

CAPTULO CXV

TROCA DE OPINIES

Seno quando, viu Natividade os
primeiros sinais de uma troca de inclinao, que mais parecia propsito que
efeito natural. Entretanto, era naturalssimo. Paulo entrou a fazer oposio ao
governo, ao passo que Pedro moderava o tom e o sentido, e acabava aceitando o
regime republicano, objeto de tantas desavenas.

A aceitao por parte deste no
foi rpida nem total; era, porm, bastante para sentir que no havia entre ele
e o novo governo um abismo. Naturalmente o tempo e a reflexo consumaram este
efeito no esprito de Pedro, a no admitir que tambm nele vingasse a ambio
de um grande destino, esperana da me. Natividade, com efeito, ficou
deliciada. Tambm ela mudara, se havia que mudar na simples alma materna, para
quem todos os regimes valiam pela glria dos filhos. Pedro, alis, no se dava
todo, restringia alguma coisa s pessoas e ao sistema, mas aceitava o
princpio, e bastava; o resto viria com a idade, dizia ela.

A oposio de Paulo no era ao
princpio, mas  execuo. No  esta a repblica dos meus sonhos, dizia ele; e
dispunha-se a reform-la em trs tempos, com a fina-flor das instituies
humanas, no presentes nem passadas, mas futuras. Quando falava delas,
via-se-lhe a convico nos lbios e nos olhos, estes alongados, como alma de
profeta. Era outro ensejo de se no entenderem os dois. D. Cludia tinha que
era clculo de ambos para se no juntarem nunca;  opinio que Natividade
aceitaria, finalmente, seno fora a de Aires.

Tambm este notara a mudana, e
estava prestes a aceitar a explicao, por aquela razo de comodidade que
achava em concordar com as opinies alheias; no se cansava nem aborrecia.
Tanto melhor, se o acordo se fazia com um simples gesto. Desta vez, porm,
valeu a pessoa.

 No, baronesa, disse ele, no
creia em propsitos.

 Mas que pode ser ento?

Aires gastou algum tempo na
escolha das palavras, a fim de lhe no sarem pedantescas nem insignificantes;
queria dizer o que pensava. s vezes, falar no custa menos que pensar. Ao fim
de trs minutos, segredou a Natividade:

 A razo parece-me ser que o
esprito de inquietao reside em Paulo, e o de conservao em Pedro. Um j se contenta do que est, outro acha que  pouco e pouqussimo, e quisera ir ao
ponto a que no foram homens. Em suma, no lhes importam formas de governo,
contanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante. Se no concorda
comigo, concorde com D. Cludia.

Aires no tinha aquele triste
pecado dos opiniticos; no lhe importava ser ou no aceito. No  a primeira
vez que o digo, mas provavelmente  a ltima. Em verdade, a me dos gmeos no
quis outra explicao. Nem por isso a discrdia morreria entre eles, que apenas
trocavam de armas para continuar o mesmo duelo. Ouvindo esta concluso, Aires
fez um gesto afirmativo, e chamou a ateno de Natividade para a cor do cu,
que era a mesma, antes e depois da chuva. Supondo que havia nisto algo
simblico, ela entrou a procur-lo, e o mesmo farias tu, leitor, se l estivesses;
mas no havia nada.

 Tenha confiana, baronesa,
prosseguiu ele pouco depois. Conte com as circunstncias, que tambm so fadas.
Conte mais com o imprevisto. O imprevisto  uma espcie de deus avulso, ao qual
 preciso dar algumas aes de graas; pode ter voto decisivo na assemblia dos
acontecimentos. Suponha um dspota, uma corte, uma mensagem. A corte discute a
mensagem, a mensagem canoniza o dspota. Cada corteso toma a si definir uma
das virtudes do dspota, a mansido, a piedade, a justia, a modstia... Chega
a vez da grandeza da alma; chega tambm a notcia de que o dspota morreu de
apoplexia, que um cidado assumiu o poder e a liberdade foi proclamada do alto
do trono. A mensagem  aprovada e copiada. Um amanuense basta para trocar as mos
 Histria; tudo  que o nome do novo chefe seja conhecido, e o contrrio 
impossvel; ningum trepa ao slio sem isso, nem a senhora sabe o que  memria
de amanuense. Como nas missas fnebres, s se troca o nome do encomendado 
Petrus, Paulus...

 Oh! no agoure meus filhos!
exclamou Natividade.

CAPTULO CXVI

DE REGRESSO

 Ento foram eleitos deputados?

 Foram; tomam assento
quinta-feira. Se no fossem meus filhos, diria que os vem achar mais belos do
que os deixou, h um ano.

 Diga, diga, baronesa; faa de
conta que so meus filhos.

Aires voltava de Europa, aonde
fora com promessa de ficar seis meses apenas. Enganou-se; gastou doze.
Natividade  que lhe ps um ano para arredondar a ausncia, que sentira
deveras, como D. Rita. O sangue em uma, o costume na outra, custou-lhes a
suportar a separao. Ele fora a pretexto de guas, e, por mais que lhe
recomendassem as do Brasil, no as quis experimentar. No estava acostumado s
denominaes locais. Tinha esta impresso que as guas de Carlsbad ou Vichy,
sem estes nomes, no curariam tanto. D. Rita insinuou que ele ia para ver como
estavam as moas que deixou, e concluiu:

 Ho de estar to velhas, como
voc.

 Quem sabe se mais? O ofcio
delas  envelhecer, redargiu o conselheiro.

Quis rir, mas no pde ir alm da
ameaa. No era a lembrana da prpria velhice, nem da caducidade alheia, era a
injustia da sorte que lhe tomou a vista interior. As moas ele sabia muito bem
que cediam ao tempo, como as cidades e as instituies, e ainda mais depressa
que elas. Nem todas iriam logo cedo, a cumprir a sentena que atribui ao amor
dos deuses a morte prematura das pessoas; mas viu algumas dessas, e agora lhe
lembrou a meiga Flora, que l se fora com as suas graas finas... No passou da
ameaa de riso.

Quiseram ret-lo as duas, Santos
tambm, que perdia nele uma figura certa das suas noites; mas o nosso homem
resistiu, embarcou e partiu. Como escrevia sempre  irm e aos amigos, dava a
causa exata da demora, e no eram amores, salvo se mentia, mas passara a idade
de mentir. Afirmou, sim, que recuperara algumas foras, e assim o pareceu
quando desembarcou, onze meses depois, no cais Pharoux. Trazia o mesmo ar de
velho elegante, fresco e bem posto.

 Mas esto eleitos?

 Eleitos; tomam assento
quinta-feira.

CAPTULO CXVII

POSSE DAS CADEIRAS

Quinta-feira, quando os gmeos
tomaram assento na Cmara, Natividade e Perptua foram ver a cerimnia. Pedro
ou Paulo arranjou-lhes uma tribuna. A me desejou que Aires fosse tambm.
Quando este ali chegou, j as achou sentadas, Natividade a fitar com a luneta o
presidente e os deputados. Um destes falava sobre a ata, e ningum lhe prestava
ateno. Aires sentou-se um pouco mais dentro, e, aps alguns minutos, disse a Natividade:

 A senhora escreveu-me que eram
candidatos de dois partidos contrrios.

Natividade confirmou a notcia;
foram eleitos em oposio um ao outro. Ambos apoiavam a Repblica, mas Paulo
queria mais do que ela era, e Pedro achava que era bastante e sobeja.
Mostravam-se sinceros, ardentes, ambiciosos; eram bem aceitos dos amigos,
estudiosos, instrudos...

 Amam-se finalmente?

 Amam-se em mim, respondeu ela
depois de formular essa frase na cabea.

 Pois basta esse terreno amigo.

 Amigo, mas caduco; amanh posso
faltar-lhes.

 No falta; a senhora tem muitos
e muitos anos de vida. Faa uma viagem  Europa com eles, e ver que regressa
ainda mais robusta. Eu sinto-me duplicado, por mais que me custe  modstia,
mas a modstia perdoa tudo. E depois, quando os vir encarreirados e grandes
homens...

 Por que  que a poltica os h
de separar?

 Sim, podiam ser grandes na
cincia, um grande mdico, um grande jurisconsulto...

Natividade no quis confessar que
a cincia no bastava. A glria cientfica parecia-lhe comparativamente
obscura; era calada, de gabinete, entendida de poucos. Poltica, no. Quisera
s a poltica, mas que no brigassem, que se amassem, que subissem de mos
dadas... Assim ia pensando consigo, enquanto Aires, abrindo mo da cincia,
acabou declarando que, sem amor, no se faria nada.

 Paixo, disse ele,  meio
caminho andado.

 A poltica  a paixo deles;
paixo e ambio. Talvez j pensem na Presidncia da Repblica.

 J?

 No... isto , sim; guarde segredo.
Interroguei-os separadamente; confessaram-me que este era o seu sonho imperial.
Resta saber o que far um, se o outro subir primeiro.

 Derrub-lo-, naturalmente.

 No graceje, conselheiro.

 No  gracejo, baronesa. A
senhora cuida que a poltica os desune; francamente, no. A poltica  um
incidente, como a moa Flora foi outro...

 Ainda se lembram dela.

 Ainda?

 Foram  missa aniversria, e
desconfio que foram tambm ao cemitrio, no juntos, nem  mesma hora. Se
foram,  que verdadeiramente gostavam dela; logo, no foi um incidente.

Sem embargo do que Natividade lhe
merecia, Aires no insistiu na opinio, antes deu mais relevo  dela, com o
prprio fato da visita ao cemitrio.

 No sei se foram, emendou
Natividade; desconfio.

 Devem ter ido; eles gostavam
realmente da pequena. Tambm ela gostava deles; a diferena  que, no
alcanando unific-los, como os via em si, preferiu fechar os olhos. No lhe
importe o mistrio. H outros mais escuros.

 Parece que vai entrar a
cerimnia, disse Perptua que olhava para o recinto.

 Chegue-se para a frente,
conselheiro.

A cerimnia era a do costume.
Natividade cuidou que ia v-los entrar juntos e afirmarem juntos o compromisso
regimental. Viriam assim como os trouxera no ventre e na vida. Contentou-se de
os admirar separadamente. Paulo primeiro, Pedro depois, ambos graves, e
ouviu-lhes c de cima repetir a frmula com voz clara e segura. A cerimnia foi
curiosa para as galerias, graas  semelhana dos dois; para a me foi
comovedora.

 Esto legisladores, disse Aires
no fim.

Natividade tinha os olhos
gloriosos. Ergueu-se e pediu ao velho amigo que as acompanhasse  carruagem. No
corredor acharam os dois recentes deputados, que vinham ter com a me. No
consta qual deles a beijou primeiro: no havendo regimento interno nesta outra
cmara, pode ser que fossem ambos a um tempo, metendo-lhes ela a cara entre as
bocas, uma face para cada um. A verdade  que o fizeram com igual ternura.
Depois voltaram ao recinto.

CAPTULO CXVIII

COISAS PASSADAS, COISAS
FUTURAS

Indo a entrar na carruagem,
Natividade deu com a igreja de So Jos, ao lado, e um pedao do morro do
Castelo, a distncia. Estacou.

 Que ? perguntou Aires.

 Nada, respondeu ela entrando e
estendendo-lhe a mo. At logo?

 At logo.

A vista da igreja e do morro
despertou nela todas as cenas e palavras que l ficaram transcritas nos dois ou
trs primeiros captulos. No esqueceste que foi ao p da igreja, entre esta e
a Cmara, que o coup esperou ento por ela e pela irm.

 Voc lembra-se, Perptua? disse
Natividade, quando o carro comeou a andar.

 De qu?

 No se lembra que foi ali que
ficou o carro, quando fomos  cabocla do Castelo?

Perptua lembrava-se. Natividade
advertiu que devia ser ali perto a ladeira por onde subiram com dificuldade e
curiosidade, at  casa da cabocla, no meio da outra gente, que descia ou subia
tambm. A casa era  direita, tinha a escada de pedra...

Descansa, amigo, no repito as
pginas. Ela  que no podia deixar de as evocar, nem impedir que viessem de si
mesmas. Tudo reaparecia com a frescura antiga. No esquecera a figurinha da
cabocla, quando o pai a fez entrar na sala: Entra, Brbara. A idia de estar
agora madura e longe, restituda ao Estado, que deixou Provncia, rica onde
nasceu pobre, no acudiu  nossa amiga. No, toda ela voltou quela manh de 1871. A caboclinha era esta mesma criatura leve e breve, com os cabelos atados no alto da cabea,
olhando, falando, danando... Coisas passadas.

Quando a carruagem ia a dobrar a
Praia de Santa Luzia, ladeando a Santa Casa, Natividade teve idia, mas s
idia, de voltar e ir ter  ladeira do Castelo, subir por ela, a ver se achava
a adivinha no mesmo lugar. Contar-lhe-ia que os dois meninos de mama, que ela
predisse seriam grandes, eram j deputados e acabavam de tomar assento na
Cmara. Quando cumpririam eles o seu destino? Viveria o tempo de os ver grandes
homens, ainda que muito velha?

A presidncia da Repblica no
podia ser para dois, mas um teria a vice-presidncia, e se este a achasse
pouco, trocariam mais tarde os cargos. Nem faltavam grandezas. Ainda se
lembrava das palavras que ouviu  cabocla, quando lhe perguntou pela espcie de
grandeza que caberia aos filhos. Coisas futuras! respondeu a Ptia do Norte,
com tal voz que nunca lhe esqueceu. Agora mesmo parece-lhe que a ouve, mas 
iluso. Quando muito, so as rodas do carro que vo rolando e as patas dos
cavalos que batem. Coisas futuras! coisas futuras!

CAPTULO CXIX

QUE ANUNCIA OS
SEGUINTES

Todas as histrias, se as cortam
em fatias, acabam com um captulo ltimo e outro penltimo, mas nenhum autor os
confessa tais; todos preferem dar-lhes um ttulo prprio. Eu adoto o mtodo
oposto; escrevo no alto de cada um dos captulos seguintes os seus nomes de
remate, e, sem dizer a matria particular de nenhum, indico o quilmetro em que
estamos da linha. Isto supondo que a histria seja um trem de ferro. A minha
no  propriamente isso. Poderia ser uma canoa, se lhe tivesse posto guas e
ventos, mas tu viste que s andamos por terra, a p ou de carro, e mais
cuidosos da gente que do cho. No  trem nem barco;  uma histria simples,
acontecida e por acontecer; o que poders ver nos dois captulos que faltam e
so curtos.

CAPTULO CXX

PENLTIMO

Este  ainda um bito. J l ficou
defunta a jovem Flora, aqui vai morta a velha Natividade. Chamo-lhe velha,
porque li a certido de batismo; mas, em verdade, nem os filhos deputados, nem
os cabelos brancos davam a esta senhora o aspecto correspondente  idade. A
elegncia, que era o seu sexto sentido, enganava os tempos de tal maneira que
ela conservava, no digo a frescura, mas a graa antiga.

No morreu sem ter uma conferncia
particular com os dois filhos,  to particular, que nem o marido assistiu a
ela. Tambm no instou por isso. Verdade, verdade, Santos andava a chorar pelos
cantos; mal poderia reter as lgrimas, se ouvisse a mulher fazer aos filhos os
seus finais pedidos. Porquanto, os mdicos j a haviam desenganado. Se eu no
visse nesses oficiais da sade os escrutadores da vida e da morte, podia torcer
a pena, e, contra a predio cientfica, fazer escapar Natividade. Cometeria
uma ao fcil e reles, alm de mentirosa. No, senhor, ela morreu sem falta,
poucas semanas depois daquela sesso da Cmara. Morreu de tifo.

To secreta foi a conferncia dela
e dos filhos que estes no quiseram cont-la a ningum, salvo ao Conselheiro
Aires, que a adivinhou em parte. Paulo e Pedro confessaram a outra parte,
pedindo-lhe silncio.

 No juraram calar?

 Positivamente, no, disse um.

 Juramos s o que ela nos pediu,
explicou o outro.

 Pois ento podem cont-lo a mim.
Eu serei discreto como um tmulo

Aires sabia que os tmulos no so
discretos. Se no dizem nada,  porque diriam sempre a mesma histria; da a
fama de discrio. No  virtude,  falta de novidade.

Ora, o que a me fez, quando eles
entraram e fecharam a porta do quarto, foi pedir-lhe que ficasse cada um do
lado da cama e lhe estendessem a destra. Juntou-as sem fora e fechou-as nas
suas mos ardentes. Depois, com a voz expirante e os olhos acesos apenas de
febre, pediu-lhes um favor grande e nico. Eles iam chorando e calando,
porventura, adivinhando o favor.

 Um favor derradeiro, insistiu
ela.

 Diga, mame.

 Vocs vo ser amigos. Sua me
padecer no outro mundo, se os no vir amigos neste. Peo pouco; a vossa vida
custou-me muito, a criao tambm, e a minha esperana era v-los grandes
homens. Deus no quer, pacincia. Eu  que quero saber que no deixo dois
ingratos. Anda, Pedro, anda, Paulo, jurem que sero amigos.

Os moos choravam. Se no falavam,
 porque a voz no lhes queria sair da garganta. Quando pde, saiu trmula, mas
clara e forte:

 Juro, mame!

 Juro, mame!

 Amigos para todo sempre?

 Sim.

 No quero outras saudades. Estas
somente, a amizade verdadeira, e que se no quebre nunca mais.

Natividade ainda conservou as mos
deles presas, sentiu-as trmulas de comoo, e esteve calada alguns instantes.

 Posso morrer tranqila.

 No, mame no morre,
interromperam ambos.

Parece que a me quis sorrir a
esta palavra de confiana, mas a boca no respondeu  inteno, antes fez um
trejeito que assustou os filhos. Paulo correu a pedir socorro. Santos entrou
desorientado no quarto, a tempo de ouvir  esposa algumas palavras suspiradas e
derradeiras. A agonia comeou logo, e durou algumas horas. Contadas todas as
horas de agonia que tem havido no mundo, quantos sculos faro? Desses tero
sido tenebrosos alguns, outros melanclicos, muitos desesperados, raros
enfadonhos. Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa
ao pranto ou ao silncio.

CAPTULO CXXI

LTIMO

Castor e Plux foram os nomes que
um deputado ps aos dois gmeos, quando eles tornaram  Cmara, depois da missa
do stimo dia. Tal era a unio que parecia aposta. Entravam juntos, andavam
juntos, saam juntos. Duas ou trs vezes votaram juntos, com grande escndalo
dos respectivos amigos polticos. Tinham sido eleitos para se baterem, e
acabavam traindo os eleitores. Ouviram nomes duros, repreenses acerbas.
Quiseram renunciar ao cargo; Pedro, entretanto, achou um meio conciliatrio.

 O nosso dever poltico  votar
com os amigos, disse ele ao irmo. Votemos com eles. Mame s nos pediu
concrdia pessoal. Na tribuna, sim, ningum nos levar a atacar um ao outro; no
debate e no voto podemos e devemos dissentir.

 Apoiado; mas, se voc um dia
achar que deve vir para os meus arraiais, venha. Voc nem eu hipotecamos o
juzo.

 Apoiado.

Pessoalmente, nem sempre havia
este acordo. Os contrastes no eram raros, nem os mpetos, mas a lembrana da
me estava to fresca, a morte to prxima, que eles sopitavam qualquer
movimento, por mais que lhes custasse, e viviam unidos. Na Cmara, o
dissentimento poltico e a fuso pessoal cada vez os fazia mais admirveis.

A Cmara terminou os seus
trabalhos em dezembro. Quando tornou em maio seguinte, s Pedro lhe apareceu.
Paulo tinha ido a Minas, uns diziam que a ver noiva, outros que a catar
diamantes, mas parece que foi s a passeio. Pouco depois regressou, entrando na
Cmara sozinho, ao contrrio do ano anterior em que os dois irmos subiam as
escadas juntos, quase pegados. O olho dos amigos no tardou em descobrir que
no viviam bem, pouco depois que se detestavam. No faltou indiscreto que lhes
perguntasse a um e a outro o que houvera no intervalo das duas sesses; nenhum
respondia nada. O presidente da Cmara, a conselho do lder, nomeou-os para a
mesma comisso. Pedro e Paulo, cada um por sua vez, foram pedir-lhe que os
dispensasse.

 So outros, disse o presidente
na sala do caf.

 Totalmente outros, confirmaram
os deputados presentes.

Aires soube daquela concluso no
dia seguinte, por um deputado, seu amigo, que morava em uma das casas de penso
do Catete. Tinha ido almoar com ele, e, em conversao, como o deputado
soubesse das relaes de Aires com os dois colegas, contou-lhe o ano anterior e
o presente, a mudana radical e inexplicvel. Contou tambm a opinio da
Cmara.

Nada era novidade para o
conselheiro, que assistira  ligao e desligao dos dois gmeos. Enquanto o
outro falava, ele ia remontando os tempos e a vida deles, recompondo as lutas,
os contrastes, a averso recproca, apenas disfarada, apenas interrompida por
algum motivo mais forte, mas persistente no sangue, como necessidade virtual.
No lhe esqueceram os pedidos da me, nem a ambio desta em os ver grandes homens.

 O senhor que se d com eles
diga-me o que  que os fez mudar, concluiu o amigo.

 Mudar? No mudaram nada; so os
mesmos.

 Os mesmos?

 Sim, so os mesmos.

 No  possvel.

Tinham acabado o almoo. O
deputado subiu ao quarto para se compor de todo. Aires foi esper-lo  porta da
rua. Quando o deputado desceu, vinha com um achado nos olhos.

 Ora, espere, no ser... Quem
sabe se no ser a herana da me que os mudou? Pode ter sido a herana,
questes de inventrio...

Aires sabia que no era a herana,
mas no quis repetir que eles eram os mesmos, desde o tero. Preferiu aceitar a
hiptese, para evitar debate, e saiu apalpando a botoeira, onde viava a mesma
flor eterna.

Fim
